Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

Numerologia

Novinho em folha chega o Ano Novo
Aqui está para guardar o posto

Soldado apresenta-se, rapado o cabelo
De farda bem vincada, nota-se-lhe genica e génio
Troca o seu lugar com aquele do ano velho
Veio para guardar a entrada do segundo milénio

Viril, senhor de si, com músculos de aço
Mostra as suas armas, faz uma continência
Mil Novecentos e Noventa e Nove com um passo
À meia-noite passa a marcar a sua presença

O seu nome como o milénio que acaba
Tirada a prova dos nove traz um Um de rei, de cavaleiro
De quem conquista e descobre--- senhor de uma cruzada
Chefia a saída e a entrada, quem no fim será o primeiro

Três Noves indicam um ano de teimosia e justiça
De sentenças dadas de sentenças exigidas
Três juizes sentenciarão a estupidez, a ganância e a cobiça
Far-se-hão decisões, haverão renhices, birras --- brigas rijas

No país Chave quem chefia teme--- guarda segrêdos
Que se tranformarão cedo em pesadêlos
Acordarão o Seis com ele os mêdos e vergonhas de si mesmos
Ver-se-hão presos, vítimas de vicios e enrêdos

Na nova Europa, haverão muitas ocasiões sociais
Se gastará o dinheiro, deitar-se-lho-há fora
Dominará o Cinco com luxo, festas, desporto, planos tais
Viagens, o satisfazer este e aquele à custa da broca

Em Portugal dominará o Três, o Bom-Viver
A arte, o sentir, o actuar---pretender-se-há
Falar-se-há com muita diplomacia, se gozará com prazer
Se esconderá e chorar-se-há no fim o que o fado nos dá

A Alemanha ver-se-há unidamente dividida
Pois nela dominará o Dois, um mundo dentro em si
Casadinha vai ter filho, vai ter filha
Que lhe incha a barriga, nauseada não se ri

A Inglaterra e a França poderosas, voluntariosas
Representarão muito bem o irascível, o explosível Oito
Mandarão na Banca, involver-se-hão com investimentos e quotas
Terão e farão surprêsas que têm a ver como o Tesoiro

Este ano que entra, perfeito, bem disposto
Fugirá à amizade trivial, seguirá o direito
É um ano intelectual, que fará o que lhe der no gosto
Obedecerá a si mesmo, o que fizer estará feito

Mil Novecentos e Noventa e Nove domina o Nove
No fim isolado, sózinho ele com o Um so se dará
---O nove como o um que não cede, ninguém o convencer pode
Todo ouvidos, a sua decisão uma vez feita, feita está

Assim o reza a numerologia que diz nunca se engana
O fim do milénio será já o principio do segundo que avança?

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com


AVENIDA
(Para um amigo que não há)


As pernas me levam nesta rua suja,
De uma cidade longe dos meus sonhos,
De uma cidade impossível, em cuja
Arquitetura complexa eu ponho

Tudo o que não entendo realmente
Das minhas sensações interiores.
Tanto gentes e prédios e o que mente
Em mim que ignoro são as mesmas cores

Em tons variados na minha vida
Muito intempestivamente sentida...
Tudo ao final do que enfim se conta

Meu amigo que não há, é a avenida,
Meu ser, a tal suja d'alma ferida,
Em que se vê gente que não se encontra...

João Paulo Cerqueira de Carvalho, Brasil
email: jpaulo@cdl.com.br


Alquimia da dor

Hortos de silêncio em amplexos
Brutais consomem desconexos
Sinais, espaços. E dos tempos
O vazio circular hermético:
Dores contidas nos contratempos.

Porque eu sou na dor um eclético
Tenho-a de todas as formas.

No cadinho do tempo aqueço
O verbo a palavra e teço
A dor com intenção e normas.

Sirvo-me da chama, retortas
Aqueço a alma, fecho as portas
Uso o silêncio amargo e traço
Indefinidamente no espaço,
Vazios, esperas sem sentido.

Está em baixo, está em cima,
Em todo o lado, em toda a parte
E para conhecer o ovo
É preciso o engenho e arte.

Na transmutação das palavras
Dos gestos, a sublime rima
Dor verbo, dor ovo, de novo.

José Félix, Cacém, Portugal
email: jonasfel@mail.telepac.pt


FILOSOFIA

Não me interessa o vizinho
que, na janela debruçado,
vive um mundinho mesquinho
portando um verbo malvado.

Lamento não ser compreendido
quando contigo acabei.
e, nos escombros, perdido,
sobrou tudo o que deixei.

Prefiro...andar solitário...
Assumo um ser mui teimoso.
Vagando sou retardatário.
Carrego um riso manhoso.

Abro mão da tibieza
e, no vestuário esquisito,
não incorporo tristeza;
Causando inveja ao aflito.

Declaro pobreza assumida.
Rico sou, de natureza.
Mesmo com a vida sofrida
sou vagabundo beleza.

Amaury da Silva Rego - 10/12/98, Rio de Janeiro, Brasil
email: guada@vetor.com.br


(Sem título)

Come da refeição
que eu preparei
cansada
depois de um dia de trabalho
mas não me digas a delícia
que era
Passeia-te
no chão que eu varri
juntamente com as ideias
minhas
Suja os cinzeiros
que o instinto já limpa
enquanto que a preguiça
refastelada ao teu lado
te adula
me provoca insolente
a minha passividade
Ouve da música
que instalo
no ar aprisionado
da casa
em Inverno que gela
as notas fugitivas
Mas não me digas
nada
e sobretudo
não me aumentes
o som
que me atormenta os ouvidos
vazios
Deita-te tardio
nos algodões brancos
que preparei,
já a pensar no sonho
Come regalado
dos meus lábios
avermelhados de febre
que não se debatem
Mas não me interrompas
o silêncio
Saboreia do meu corpo
estendido
Pisa do teu peito forte
o meu frágil
Que não te envia
portanto
o ritmado tambor
que abafo
Intoxica com o teu hálito
forte e acigarrado
o meu respirar
asfixiado
Ejacula-te
aonde quiseres
mas não me perguntes
se tive orgasmos
que eu entretanto vou espreitando
pelas brechas da azáfama
o sol que esqueço
que eu entretanto
vou espreitando
pelas frinchas do meu mover eterno
a neve que cai
agora enquanto
escrevo

Diana de Moura, Halifax, Canadá
email: diana000@ns.sympatico.ca


Promete-me a minha Promessa!!

Prometo alimentar estas candeias que iluminam a nossa distancia,
Em etérea chama dŽuma pródiga carnalidade, desflorando assim o
Enfatizar dos domínios espirituais revolvidos na díade descoberta,

Mas no entanto ...
Descerei a ponto de profetizar, ó vil pessimista, o céptico toldar do fim
do horizonte Como o definhar do alento deste sustido fôlego que nos
embraça...

Mas não...,
Incólume é a esperança que prolifera em meu olhar,
Aquando a alvura de teus contornos eclipsam as sombras de meu spleen!!

Prometo-te, pois, unicamente obrar em prol do enaltecer,
DŽum festim eterno de deleites cabalísticos, cada qual,
Especial requinte incitando ao circunscrever de jovens ideais Amorosos;
Como tempestade acirrada pela indomável força da vontade; Assim será tão copiosa imagem, que em teu regaço desejo elevar ao palpável!

Prometo ainda, Branca minha, que por demais persuasiva se aviste a ditosa Venusiana
Só viçará do improvável, só caminhará resolutamente sob todas as adversidades
Quando o reverdecer dos pensamentos que nos fundem,
Expirar a indizível mescla em uníssona melodia cobrindo terras, céus e....
sonhos!!"

Pedro Monteiro, Ovar, Portugal
email: baud@esoterica.pt


METAMORFOSE

noite
serena noite
no escuro absoluto
parte resoluto
delicado vaga-lume
rumo ao infinito
céu enigmático
na imensidão etérea
transformado por magia
estranhíssima alquimia
na mais brilhante das estrelas
eternizou-se a existência
do sentimento humano
restou apenas
teu nome escrito
na areia da praia

Walter Nuñez Martinez, São Paulo, Brasil
email: estela@mandic.com.br


Contexto do amor

Se a labuta contasse com o tempo
E o tempo contasse com a luta
Não haveria plebeu corajoso
Nem coragem seria conduta

Nem o pranto viria a contento
Mas a alegria estaria no entanto
Que esse conto dispensaria o tempo
Que subliminaria de puro encanto.

Mas se o encanto perdesse a luta
Contra o senso de boa conduta
Podia o amor tomar entretanto
Poder de mandato de nova labuta.

Mas a coragem esquece do tempo
Que em meio ao encanto se perde na luta
E neste contexto sublime da vida
O amor é pretexto de toda conduta:
Culmina em prantos ou em nova labuta.

Lara Reis, Brasil
email: lara_reis@hotmail.com


Lua...

Que ilumina,
Fascina.
Que encanta,
Canta.
Lua de amores e dores.
Amores distantes,cortantes. Amor de menina, de bicho tão louco.
Que dor!
Que sufoco!
Amor de criança cheia de esperança, que me faz sonhar.
Lua tão bela,
Fera,
Megera.
Não perdoa o marujo que longe de tudo se põe a chorar.
És ninfa selvagem,
Miragem,
Medo,
És apenas segredo.
Espelho para quem não sabe amar.

Roberta Krammer, Natal, Brasil
email: krammer12@hotmail.com


Amor

Sentimento
Que custa cá dentro

Amor(primeiro)

Procurar-te...
Entrar no teu quarto...
Pegar-te na mão...
Beijar-te o coração!

E amar-te.....
Sem fim e com paixão
Gozar-te
Perder a razão!

Cansados,
Acabamos á janela
Abraçados,
Enrolados numa flanela.

Foi o primeiro dia de amor
Inventado na memória
Mas nem por isso deixa de ter cor
A alma desta história

(dedicatória)
Este amor o tempo marcou
E deixou uma ferida
A solidão o coração curou
E ainda te vejo bela e querida

Constantino Alves, Portugal
email: Constantinalves@mail.telepac.pt


Puto

Puto
Hoje acordas para mais um dia sem sol.
Puto
Para quem todas as ruas são camas
E os eléctricos são viagens ao mundo dos homens
Sombras de uma vida sem risos, sem esperança
Nos olhos baços dos putos que nunca chegaram a ser crianças.
Tu, puto
Que tratas as putas e os chulos por tu
E para quem todas as pedras são brinquedos
Todas os brinquedos são armas
Todos as emoções são medos.
Tu, puto
Todos os sonhos do mundo são teus.
Que hoje vagueias por mais uns trocos perdidos
E o cheiro da cola se confunde com a humilhação e os sentidos.
Tu, que tens o chão onde dormes por amigo, o cartão por abrigo
Tens o mundo por inimigo.
Puto
Quando olhas, o que vês?
E os olhares indiferentes de quem passa?
E os dias que passam sem nada de novo se passar
E os ventos que te adormecem e te escondem do perigo.
Puto
Todos os perigos do mundo são teus.

Ricardo Vercesi, Lisboa, Portugal
email: ricardo.vercesi@infarmed.pt


Só Um

Estou tão sozinho
E eles nem a companhia da solidão me deixam ter
Estou tão cego
E eles nem o negro do interior me deixam ver
Nem que fosse só por um segundo
Gostava de ser perdido pelo mundo

Estou tão frio
E eles nem o calor do Inverno me deixam sentir
Estou tão triste
E eles nem da minha tristeza me deixam rir
Nem que fosse só para saber
Gostava de experimentar o que é morrer

Estou tão desesperado
E eles nem uma lágrima me deixam chorar
Estou tão farto de mortes
E eles nem com a minha vida me deixam acabar
Nem que fosse só um dia assim
Gostava de ser para ti o que tu és para mim

José Carlos Santos, Portugal
email: brites.santos@mail.telepac.pt


Poema

Aos mendigos eu
dou esmola
pois sou mendiga
também
peço amor
peço carinho
estendo a mão
a alguém
e esse momento
me consola
esse pedacinho
de bem
mas depois
vai-se embora
e a minha alma
pede esmola
por amor
de amor
de quem o tem.

Dulce Machado, Faro, Portugal


Numa Folha Branca

Numa folha branca
traço traços e rabiscos,
também alguns riscos...
no decorrer do sentimento
do qu’ a alma sente
no doer do desalento!
Numa folha branca
os segredos conto...
e conto algum conto!
Traço a poesia
falo d’ amor
arranho a minha dor
gatafunho paradoxos...
e uma simples folha de papel
branca já não é.
Tem alma
calma
riso
choro
dor
tem ira também!...
É grito de emoções
é um ser o que se quer ser!
Nela me liberto,
ergo a voz...
é folha que fala
o qu’ a boca cala.

Margarida Santos, Faro, Portugal


Primeiro Amor

Eis, com efeito, em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por outro se deixar conduzir: em começar do que aqui é belo e, em vista daquele belo, subir sempre como que servindo-se de degraus, de um só para dois e de dois para todos os belos corpos, e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência que de nada mais é senão daquele próprio belo.
PLATÃO, "O Banquete"


São dias do passado, mas jamais esqueço
Do amor que - tão menina - a ela dediquei.
Alvorada amorosa, apenas um começo...
Não fui correspondido. Quase me matei!

Seus lábios desejava, beijá-los não pude.
A ausência do afago fazia-me sofrer.
Musa, mãe das artes, no descrever me ajude
Da jovem que de mim o afeto não quis ter.

Na cama com Cristina então me imaginava
A praticar o sexo. Tão bela e tão nua!
Triste fantasia! Aí me masturbava.

Dias do passado, perdidos no negror.
Hoje quando a vejo, passando pela rua
Olho indiferente... Não sinto mais amor!

Ivo Korytowski, Rio de Janeiro, Brasil
email: ivok@domain.com.br


Nuvem

Ao herói que nunca serei
Canto hoje forte, o hino que sei
Na esperança épica que um dia matei
Pela glória de uma tenra idade que nunca passei.
Pela honra e devoção desisti de lutar
Pelo amor a quem não consigo consagrar
Pela dignidade que jamais há-de voltar
Cruzo os braços na ilusão de um dia mudar.
E o tempo passa e me ultrapassa
E o sonho já lá vai
E de caneta em punho sou pai
Desta ténue e débil farsa.
Moribundo, morro sou defunto
De coragem para mudar o mundo
Mas uma réstia de luz ilumina
A voz que grita e anima
A palavra de coragem
De quem nunca não passou de uma miragem.

Mário Jorge Coelho, Portugal
email: rdd55354@mail.telepac.pt


Breve Fixar

O teu sorriso de pedra da rua...
Corre-me pelas veias envidraçadas!
É esta correria do firmamento,
Este abraço às papoulas do poente,
Rubras, muito avermelhadas.

As arestas da calçada falam de mim,
Água azul que me enfeita a face...
Assim, sentir o corpo tão frio, quase
Um véu de saudade mística, contemplativa
Neste amor de sudoeste vermelho.

Saber dos teus passos é louca cegueira!
Envolvimento dos Sábados à tarde...
Outras horas para ler-te de novo,
No dia que não chega, apenas asneira.

Envolvimento mais profundo...
É este silêncio que me pára o olhar!
Movimento envolto, enfim, ausente
Quando olho por um breve fixar.

Jorge Ferro Rosa, Lisboa, Portugal
email: jofe15@hotmail.com


Um Grande Amor!

nunca me deixes preciso de ti
o amor é uma loucura
e tu precisas de mim
em qualquer altura e em
qualquer lugar
sinto a tua presença
até no meu olhar!

Maria João Matos, Lisboa, Portugal
email: MJMATOS@marconi.pt


Poema Minúsculo

ando criando
coragem de malabarista
a vida
corre por um fio

Luzia, Brasil
email: luzia@dedalus.lcc.ufmg.br


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