Portugal em Linha
Novos Poetas Lusófonos

Mensagem

Todo o Mundo tem um Amor
E todo o Amor tem um Mundo!
Só que o meu Amor...
Não cabe em Todo o Mundo
de tão eterno...dedilhado e tão mudo...
É um Amor sem história
Nesta História sem palavras
da civilização do concreto
que destrói a vegetação
a natureza e diversidade
para restar o deserto
a cinza,a infelicidade...
e os produtos
da reacção...
Uma sociedade que vive
de electricidade estática
gerada por fricção
andamos electrizados
negativos... negativos
e não nos apercebemos de
que só usamos um grãozinho
do nosso potencial
Ignoramos a Vida...
e enchemos as Escolas
e os palcos do Mundo
de significados
que não definem
Eternidade
Sonho e Amor...
Vivemos obcecados
por ter mais que o outro
pelo grito mais histérico
histriónico...
Quantos nichos naturais
acabam para dar lugar
a um nicho de mercado?
Uma mudança de escala
a todos surpreenderia...
e veriamos o ridículo da vida
que construimos
Vivemos confusos
de palmas em palmas
sem conhecer o profundo
significado do estalido das nossas
mãos
Confusos e sem Confúcios...
andamos
sintetizados
pelos valores do efémero
do polímero e dos dias meros...
e não sabemos sequer
Ser mais e melhor...
do que quimeras !
Porquê viver
de tão louca ilusão
que acaba no mesmo segundo
em que se dispõe começar...?
E não ser revolucionário
ser contra -corrente...
ficar em casa
em vez de ir a festas
de muita gente ?
E porque havia de falar
deste meu Amor tão mudo
e eterno...etéreo ?
porque nele está a semente
o segredo do que pode ser o futuro
que está mesmo a despontar...
Não vive de monotonia
está vivo noite e dia
alimenta-se de estrelas
do Sol,do mar e do luar...
dos sonhos de quem quer sonhar...
Tem regras bem definidas
os seus ritos e desertos
é pouco exigente ao tacto
mas há tamanha ternura
e carinho e muita Sabedoria
que é difícil explicar
Não é Narciso de certeza
Nem Sísifo...mas talvez um novo
mito que será realidade
nos séculos que irão durar
Vive de sonho e puro amor
ultrapassa barreiras de betão
condensa o Mundo num minuto
para sempre perdurar
reparem...o que é o Amor banal?
má experiência afinal
dos que se tocam sem Amar
corpos-cavernas sem ternura
não são amor
são somatório bestial...
retirar dali para colocar ali
uns montes...tão ...montes!
uma praia... tão praia!
uma multidão...tão...sem nada...
e nada mais para além do
vórtice dos dias que passam
e que sugam a carne e o sangue...
por mais que se esforçem
não criam novo elemento
De sigla A de Amor
na tabela periódica
em que Tudo é tão igual...
Nem uma nova química...
do roçar de mucosas
(com ou sem protecção)
à emissão de secreção...
Tudo é monótono e
egoísta...e oportunista
e teatral e libertinário...
afinal !
É um filme dos dias
contados...
tiranizados...
Se houvesse o dia do Titanic
seriam todos os dias do ano
porque andamos às avessas
verborreicos
com rasgões nas relação
Só com desejo de ter...
inconsciente e animal
incluindo o de mandar...dominar
que só o Chaplin velhinho e humilde
fala ao coração ...de tão mudo
e ingénuo...
afinal !
Vive-se momentos corantes
de prédios berrantes
de tinta que desenha o próprio Sol....
Mestres na arte de dizer
especialistas em conquistar e reconquistar
não em cativar e dialogar...
Bonecos e palhaços modernos
luzidios sem esperança
de coisa alguma
que se não veja...
mais obesos da ideia
de sucesso
do que o sucesso
poderia jamais pesar
de tão oco e fútilmente
fruído
Momentos...
de momentos inspirados
que para outros não passam
de momentos bem pensados
eu diria bem cunhados...
Momentos em inglês
que ninguém percebe
momentos
com sabor artificial
pois Amor não é só carnal
os olhos comem sôfregos
insanos...e não procuram
a beleza de uma estrela
de Platão o ideal
só corpos cavernosos
a inflarem, a insuflarem
no consumo que se excita
no inchaço que se vê !
Hoje subi ao meu terraço
pela milésima vez
e extasiei-me de astros
de música divinal
sim... podemos ser um Deus
do alpendre da nossa casa...
ou num cantinho essencial...
escutar o amor da Natureza
multiplicar estrelas por luar
viciar-me em ar puro
que o mar tem para dar...
Viver à oriental com dois
metros quadrados
e uma tijela de arroz
Mas ser rico de Amor
de Sonho e de espaço sideral...
Liberdade...para ser livre
uma flor
um pássaro voando cada vez mais
alto e mais longe ...um poema...
um sorriso...um gesto
viver do Sonho
e gerar um dia
no sangue iniciático
Os filhos do Sonho...

Carlos Silva, Caldas da Rainha, Portugal
email: np78an@mail.telepac.pt


África Negra

(Dedico esta elegia especialmente ao povo Angolano, meus irmãos sem tumbas, espalhados em valas comuns)

Hei,
Atrozes impávidos onde vão?
Desbarrateiros da moda carnívora, stop!
Que trazem nas mãos?
Catanas de fogo a desbravarem gente
Eh! Que insânia meu deus
Viram que já pisaram o soalho da desgraça?
Quantos anos tem vocês
Desabridos em cada tiro frustrado...
Vossos pais, vossos irmãos, tios...yuu
Hei menino, sua mãe não metralhou? Então o que quer?
E você senhor, seu pai não desbravou? Então o que quer?
Olhem só, vagas de luto no suspiro dos homens
Nyandayeyo fútil de homens inocentes
Quem foi?
Gente atordoada erguendo montanhas
Disfarçados sonos simulados nunca
e de homens que não sonham, afinal o que querem?
Olhem só a vossa frente, vossa traz, aos lados, onde pisam...
Rubro soalho deixa marcas assim?
Quem foi?
Brechas frescas escavadas a fundo
Almas exânimes com friestas desbravadas, foram vocês!
Gente imota enegrecida pelo sol,
Arde até a sombra da alma despojada
Nos arbustos explosões de gente
Como se fossem queimadas descontroladas ateando a pólvora
Stop! Desalmados são vocês...
Em série os massacres que pagam inocências
O que querem?
Stop! não há lágrima que sobre
Nem a convulsão que adormeça nossas almas em delírio
Desafogamos a dor aos saibros
Nossa casa ardente despregada de sonhos
Oh! Gente o que querem?
Na formatura, a marcha silenciosa dos homens
Afagados pela morte, chega!
Que sejam armas enterradas nas tumbas
Por cada mina desterrada em África
E digam o que querem por favor.

Noé Filimão Massango, Maputo, Moçambique - 18.02.1999
email: nmassan@health.uem.mz


A Quem Possa Interessar

Poderia aprender a conjugar o verbo
Poderia sentir seus lábios com doçura
A quem possa interessar, eu conseguiria
Todo humano conseguiria
E afinal a dificuldade é ...
A quem possa interessar.

Flávio Bredariol, Bauru, Brasil - 1992


Ponta Delgada

Cidade de Ponta Delgada
Cidade franca e formosa
Onda na praia encalhada
Vaga do mar caprichosa

Cidade, mosaico rico
---Santo Cristo dos Milagres
Cidade que é um sorriso
Sem igual entre as cidades

Sereia de olhos mansos
Burgo de igrejas e solares
De humildes casebres--cantos
Cheios de graça, singulares

Terra, filha de Portugal
De espertos mercadores
De Antero de Quental
Terra de muitos valores

Da nossa ilha capital
Princesa, pérola do mar
Com proa, elegância tal
Cidade de encantar

Com as suas estufas brancas
Qual lençóis de branco linho
Cidade onde fomos crianças
Tu e eu - um mundo lindo

De muitas vias estreitas
Da Avenida "Marginal"
De araucárias e palmeiras
O cheiro de ananás e sal

Amante de marinheiros
Que bela cidade a nossa
De praças, jardins soalheiros
Da calheta, sua longa doca

Lembro-te cidade minha
Com carinho especial
Com a tua graça marinha
Presença de lava e cal

Tuas "Portas da Cidade"
Tuas calçadas bonitas
Teu calor, graciosidade
Muitas cancelas antigas

Onde se debruçavam as velhas
Onde se debruçavam as moças
A namorar--- lindas donzelas
Que nem flores, cravos e rosas

Terra de mulheres de capote
De muito jardim romântico
Cidade vaidosa, com porte
Fronteiriça ao mar Atlântico

Coração de uma ilha esmeralda
Rodeada de sonho e flores
Relíquia da antiga Atlântida
Soberana dos Açores

Ausente, de ti presente
Me encontro, guardo-te assim
Comigo vives em mente
Eu em ti e tu em mim

Silvério Gabriel de Melo, Vogelbach, Alemanha
email: silverio@mail3.bunt.com


Uma das tardes quase chuvosa

Quanto mais busco
Mais me alcança o silêncio.
-- Tenho algum pensamento arraigado
Que me tolhe o dizível !

Quanto mais não me espanto
Mais brinca comigo a vida.
Contra escrutínios da fisiologia
Busco nos iguais refúgio.

Na vitrola Philip Glass
E a aparente fuga de Mishima.
--Fuga?!!
E a aparente busca ...
Em busca, emboscada.

Na janela a rosa no jardim.
Os parafusos e a fechadura da arquitetura,
Comunhão dos inertes.
Me ocorre o embuste, embora ...

No céu as nuvens escurecem.
Inda na tardança das horas escorregadias,
Puxo por um fio do cavanhaque
Porfiando com o imperscrutável.

Rogo à chuva que ameaça,
Nuvem que passa,
Que lave a morosidade dos passantes.

Luiz Roberto Rosa Silva, Brasil
email: luizrobertors@netwave.com.br


Dialética

Sou a unidade do conflito...

O ser e o não ser depura o pensamento,
como no binômio vida e morte surgiu a eternidade.

Sou Deus porque penso e, por pensar,
sei que Deus não sou.

Inexisto nos dias de minha existência,
embora cada segundo vivido sejam séculos.

O ódio incita-me a procurar o amor, e o amor
leva-me à dor do não saber amar.

Perscruto-me no embate de idéias antípodas;
sou confirmação de contrários.

Dialético do um e o não um:
Um, porque penso. Não um, porque especulo.
Sou microcosmos em relação ao Universo.
Todo o Universo dentro de mim mesmo.

Sou flor que desponta e, a lagarta que devora.
Vivo de moléculas que me não pertencem...
Darei átomos que me pertenceram...

Amaury da Silva Rego, Rio de Janeiro, Brasil - 02/12/74
email: guada@vetor.com.br


"Burguês poema-adolescente para edolescente-poema burguesa"

Tu, que és a minha burguesa preferida,
Tens sabor de uma framboesa perdida
Nos sonhos tão sentidos do real da vida
Minha, em que tu és doce, como cerzida

Em minha sensações, ah... burguesa linda...
Cerzida na dor de que certeza é finda...
Hoje, mulher do cabelo que, melindra
Sou framboesa de querê-los ainda

Como a maçã roxa de tua boca ungida
Na minha, também. Mulher, é oca e fingida
A minha vida, é louça em cacos partida
É suja, e onde não passas, triste avenida

Fotografia tua então em minha cabeça
Numa vertical ao horizonte estavas
E o teu cabelo, num muliticor a beça
Era crepúsculo que o céu avermelhava

Todo o momento luz de vida tua engessa
Em mim impressões de quente lava
Quetransigem em mim e fazem que esqueça
As metas de estudante só em que sonhava.

João Paulo Cerqueira de Carvalho, Brasil
email: jpaulo@cdl.com.br


Palavra

Palavra...é arma contundente,
resposta pronta da hora certa,
é flor que anima o descontente,
é chamativa e o desperta.

Palavra há, que move moinhos,
tritura o duro e maior grão...
sensatez, que abre caminhos,
num empedernido coração!

A palavra que fere, dói e mata
é voz dita, da ira d' alguém,
é profanação que arrebata...

E, eu achei no beiral da razão,
palavras caídas e já gastas,
deitei fora...joguei-as ao chão!

Margarida Santos, Faro, Portugal


Tempo Sem Passado

de repente
num átimo
surge o espectro
cabalístico
que me confunde todo
viajo por espaços jamais explorados
até o limite do caos
que fazer
se já não há mais o que fazer
se já não há mais o que esperar
se já não há mais o que sonhar
sonhei com mundos e cores
com perfumes e amores
esperei por estrelas e cometas
por mensagens e beijos loucos
fiquei só ao vento frio e garoento
na esquina da solidão
que me bateu ao peito
mas não caí ao chão
resisti não sei como nem por quê
talvez de teimoso que sou
a saúde da alma
percorre meus versos agourentos
esvaindo-se pelo nada
da perspectiva que nunca houve
maldade trancada
nos cofres psíquicos
que também trancafiam
passeios oníricos
e os esmagam
ao peso das mesmices do mundo
estou farto de lugares-comuns
quero abocanhar
de um só impulso
a minha fatia inteira
de bolo de luar
a que sempre tive direito
não estou aqui
nunca estive no meu gabinete
perdi-me há séculos vagando
pelo universo entrecortado de labirintos
de teu corpo iluminado
que nem mesmo sabes possuir
meu caminho é sem volta
deitei fora meu fio de Ariadne
de propósito
não se retorna ao tempo sem passado

Walter Nuñez Martinez, São Paulo, Brasil
email: estela@mandic.com.br


Não Sendo

Um olhar insuflável...
Este rosto da tarde inacabada,
Pelas cores anónimas
Desgastas pelo sentir
Por tudo, por todos e por nada.

Um lago sem água, infinito
Este envolvimento pelo fogo...
Novo horizonte incomensurável,
Loucura de te querer encontrar.

Passos de uma tarde anémica,
A viagem que não entendo...
Reflexo sem mim, sem ti,
Sem ninguém a este olhar
Um novo mundo, não sendo.

Jorge Ferro Rosa, Lisboa, Portugal
email: jofe15@hotmail.com


Carpe Diem!

Hoje
Só hoje
Este dia.

inteiro, magnífico
toma-o
abraça-o
vive-o

Esquece o Ontem
o Amanhã
o Passado
o Futuro

Só o Presente existe.

Agarra-o.
Vive-o
Sedentamente
Lentamente
Loucamente

Cada gota
Cada minuto
Cada momento

Num extâse
Incontido
de amargura
delíro
e sofrimento

Helena Monteiro, Lisboa, Portugal - 2.11.1998
email: refugio_7@hotmail.com


Queria Ter Asas

Gosto de ver
Os pássaros a voar
E tentar adivinhar
Onde eles vão poisar
Gosto de ouvir
Os sons harmoniosos
Pequenas e únicas sinfonias
Para os meus ouvidos curiosos
Voam e voam
E depois vão-se embora
Fico aqui sozinho
E a noite ainda demora
Claro como aqueles olhos
Ficou o céu vazio
Tão vazio como eu
E azul como aquele rio
E não são só os pássaros
A deixarem-me sozinho
Levanto-me lentamente
E sigo o meu caminho
Amanhã os pássaros voltam
Não têm mais para onde ir
E mesmo que não cantem para mim
Eu só gosto de os ouvir

José Carlos Santos, Portugal
email: brites.santos@mail.telepac.pt


Eu Te Amo

Amo feito bicho na selva
se deliciando na relva
em gota d'água riacho.

Amo tanto por saber
o amor tão doce e possível.

Eu te amo assim imaginando
o teu amor dentro de mim, brejeiro,
que me adentra o peito,e
depois, silêncio.
Me põe o corpo em febre.

Amor que me escapa dos olhos,
me beija a boca de tantas maneiras
e me morde sempre com o desejo
de querer mais beijar... beijar...
-- mar de beijos!

Eu te amo se me beijas o coração,
quando me chamas
e me dás a mão ou me acaricias
feito vento em meus cabelos.
Depois , o beijo especial
o qual tu sabes como expressar.

Amor sol e lua
calor canção mar.
Te desejo cada vez mais
e quero que me percebas nua
para poder assim...te amar,
poder ser minha e depois ser tua.

Virgínia de Oliveira, São Paulo, Brasil
email: bueno@net-k.com.br


Contradições

Se fujo, corro, solidão me mata.
Se fico morro: teu olhar me afoga.
Se calo... sofro, que o falar me roga
O canto triste que nos arrebata.

Se nego, tenho o prazer furtado.
Se aceito, quebro teu sorriso manso...
Se me recuso não terei descanso,
Que do encanto me terei privado.

Fico, não fujo. Solidão acaba...
Canto, não calo: teu olhar me afaga
Não nego, aceito. Morro de paixão!

Divina musa dos meus tristes ais!...
Não, não recuso, que tocando vais...
Todas as cordas do meu coração!

Valdez de Oliveira Cavalcanti, João Pessoa, Brasil - Jan.1999
email: valdez@netwaybbs.com.br


Em Dezembro

Sentir e desejar ser sentido
E deixar cair o tempo - passado, presente e futuro -.
E mar profundo, e azul
Qual céu sem nuvem branca.
Infinito esvoaçar de asa quebrada
Em redopiante ir e voltar.
E sentir o ser sentido
Ergue-se o Sol, qual bola de fogo
Ergue-se o corpo, sonolento, do sono dormido.
O presente e sol sentido,
O passado o sonho sonhado,
Do futuro quem saberá...?
E deixar cair o tempo. E mar profundo.
Já nada sinto do presente, passado ou futuro.
Um sentir sem sentido

Há pombas brancas de esperança
E corvos negros também.
Zumbido do vento que aqui passou,
Lágrimas não choradas brotam do azul
São choros e latidos
De podengo lembrado de seu dono,
Da existência do tempo passado,
Lembranças da flor que jovem foi,
Escultural, na primavera daquele tempo,
Hoje, só já fruto.
Agora semente, a terra tem de voltar.
Passado, presente, futuro.
Sentir e desejar ser sentido

Jorge Aragão, Quinta da Alagoa, Portugal - 30.01.1999
email: jaragao@mail.telepac.pt


Adormecer

Fecho a luz,
depois os olhos
e lentamente
o meu espírito
se acalma,
só o sonho
permanece acordado.
O coração palpita
vivendo a noite
calma e serena.
Mas meu pensamento
continua firme
sonhando, vivendo...
Só assim sei
que vivo o dia
e a noite também
e que nada seria do dia
sem a calma da noite,
tempo de reflectir
e sonhar.

Ana Filipa Ribeiro, Porto, Portugal
email: ana@portugal-linha.pt


Relatividade
(Para Victor)


Que horas serão agora
das horas que o mundo tem?
Onde é que está a aurora
aqui, ou bem mais além?

A noite apagando a Terra
foi-se embora ou ali já vem?
São horas de ir andando,
é tempo de amar meu bem?

Quantas horas há no espaço
na Lua, Marte, Mercúrio:
é verão, outono, inverno
na Estrela de Belém?

O tempo gastando o tempo
do tempo que me contém
acaba roubando a si próprio,
morrendo ele também.

Joffre Santanna, Brasília, Brasil
email: efepeve@persocom.com.br


A tua boca é um rio

A tua boca é um rio.
Como é belo e suave o seu caudal
extenso e incolor.
E que ternas e envolventes são as ondas
que o invadem e o possuem.

Quero-o desaguado em mim.
Hei-de chamar-lhe meu. Porque
a tua boca é um rio
onde sacio toda a minha sede
onde abarcam todos os meus beijos
onde flutuam todos os meus sonhos.

E quando vier a tempestade
podes guardar-te no porto da minha paixão.
Estará sempre aberto para ti. Talvez
só para ti. Certamente só para ti.

É. A tua boca é um rio.
E como é bom morrer a pouco e pouco
afogado na doçura do teu rio.

António Pires Vicente, Praia da Vitória, Portugal
email: apvicente@mail.telepac.pt


Filho da dor

Que fora meu Deus
em meio aos meus ais
terrível tancor
que em mim cativais?

Que fora essa dor
tão vera um açoite
vertigem do dia
e clareira da noite?

Seria o mais claro
milagre da vida
ou a dura verdade
da dor ressentida?

Por que sois tão grande
delírio inocente,
se pequeno e tão só
és ainda semente?

Lara Reis, Brasil
email: lara_reis@hotmail.com


Amor

O amor é como magma.
No ínicio, cera derretida
de vela com ligeira chama.
Mais tarde fogueira crepitante,
em crescendo revolvida,
que forma e reforma.
Depois, lava em corrente,
que sai em borbotão
de cada nova erupção,
e ardente, lasciva, procura
chegar o mais longe que puder.
E só então arrefece e, dura,
forma escuras brechas de mulher.

Alquimias:

No principio, o amor
começa como barro,
tomando forma
por mãos habilidosas moldado.
Depois é gelatina
instável e hesitante.
Se de repente vira cristal
é lindo, embora frágil.
Mas para o vidro durar
tem de ser revestido,
de prata por exemplo.
Pode ficar ouro com o tempo
ou apenas oxidar.
Nalguns casos (tão poucos)
o cristal vira diamante
e nada, nada o pode quebrar.

Vulcões:

Nalguns vulcões mais activos
formam-se no interior brilhantes,
tão bonitos, tão vivos,
reflectem todas as cores
Noutros só pedras escuras,
basalto e mais nada
quando ficam duras
e a fonte de calor é roubada

Ana Pintão, Lisboa, Portugal
email: anapintao@mail.telepac.pt


Angola, nossa terra
Este poema é dedicado a todos irmão meus angolanos.


porquê sofrer angola
se tudo temos para viver.
desde a frescura da mulemba
as nossas praias, as nossas morenas
o nosso carnaval, a nossa comida
porquê sofrer angola.
se o que temos é tudo nosso
se nada nos foi dado, se a própria vida é nossa
porquê sofrer angola.
Até quando? estamos cansados mãe
os teus filhos já não acreditam na esperança
encoraja-nos mãe, para ver se despertamos
porquê sofrer Angola.
Ai, Angola! dizem que a esperança é a ultima a morrer
será, mãe? podemos esperar?, será que quem espera alcansa?
porquê sofrer Angola.
um dia has de melhorar mãe, e os teus filhos
voltarão a sorrir, e dirão
não mais sofres Angola
Acabou a guerra. Fim.

Aristófanes Santos, Lisboa, Portugal
email: cardososantos@hotmail.com


Hesitation

Queria ser lírico
como um xírico
dizer sem perceber
aquilo que faço
embora, no mundo da ébola
onde grilos giram
circulam
afundam
por entre terras tenras
envolvidas no desenvolvimento
onde vidas se escondem
praticando artes profanas

Queria ser alguém
viver de bem
sem ninguém provocar
manifestando apenas alegria
como se estivesse na grande festa
de família também simpática
que não tem problemas graves
apenas dezenas de amores
multiplicadas em cada réplica da vida
despojada neste espaço jocoso
onde vivem bondosos montes
de javalis e aves
em comunhão de bens

Queria ser tudo
menos um rebelde
abandonado pelos donos
como um escravo no deserto
isolado e liberto
sem ninguém p'ra ajudar
apenas oferecer seu magro corpo
ao húmus desértico
e confirmar o fim artístico
de mais uma criatura turística
que veio ao mundo de passagem
como um passageiro estrangeiro
entre mestres megalomaníacos
que não sabem mais nada
senão chorar p'lo que desejam

Domingos Carlos Pedro, Maputo, Moçambique
email: NEVAO@nambu.uem.mz


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