ÁFRICA, MINHA MÃE ! Um preito ao homem selvagem Lembranças do Vale Cuango (Lunda Norte - ANGOLA)
Aos 50 anos lá desembarquei. Foi um sopro de vida para quem agonizava no cotidiano do asfalto. Acredito, até, que não morrerá a esperança de retornar àquele solo que pisei e, por pisar, sentí.
A alvorada e o crepúsculo eram sempre anunciados por um imenso, um enorme sol- PURPÚREO SOL. Relógio de soberana luminosidade determinava o ciclo de movimentadas manhãs e escuridões silenciosas.
Solo árido. Clima quente e seco. O inóspito reabre o espaço para a realidade, resgatando a percepção, através de um fremir próprio do corpo. É um viver sentindo que imobiliza as racionalizações. HÁ
VÔMITOS NO IMAGINÁRIO!
Lá a existência resume-se na magnificência de estar bem e de barriga cheia, liberando o corpo do cartão de ponto e esbanjando o tempo em poder viver. Os sofismas da competência e produtividade não
são suficientes para abalar a cultura ou transformar o tempo em um verdugo existencial. O tempo é livre- COMO A ALMA - e está no sangue, no espaço percorrido pelo vento, na primeira ruga que aparece e na
sabedoria de um cabelo embranquecido.
Não existem plásticas, que tentam escamotear a vida. Não há lamentações, não há lamúrias.
A tentativa de submissão, imposta pela violência, oprime o opressor por intermédio da magia, forte marca de uma cultura secular. O homem branco odeia-se. Inveja no outro a identidade perdida nos
meandros do racionalismo consumista. Lá o colonizador tenta descaracterizá-los e estropiá-los para que, talvez, possamos eliminar os últimos parâmetros que sirvam de referencial dos desejos. A negra pele, apesar das lideranças aculturadas no bordão alienado das metrópolis, não cultua a opressão autoritária e a moldagem de sentimentos que encarcerem o corpo.
A natureza conspira, e é sempre cúmplice, aliando-se ao patético e ao poético. Os sentimentos, ainda sobrevivem com transparência e pureza. Amor e ódio, desejo e prazer, tranquilidade e agressividade,
percepção e razão, opressão e rebeldia não são escamoteados com a máscara da hipocrisia.
É um sol quente, que obriga o estômago satisfeito a abrigar-se na sombra e no cochilo. Não há relógio: A luz, em toda plenitude, determina a disposição da alma. Desde milênios a seleção natural metamorfoseou o
poder no sentir. Não há opção: ADAPTAÇÃO ou LOUCURA!
O avião chegará, talvez...no amanhã. Não há certezas. É muito perto...mas tão longe! O dia-a-dia vai nos quebrando as espectativas. A espera nos ensina a observar, a ver e ouvir. O insignificante vai em
um crescendo de significados: O CHEIRO, O VENTO, A POEIRA FINA QUE IRRITA. Tudo delineado por manchas de claridade. Marcas de luz celestial, enormes, uma grande rosa de luz...A ROSA PÚRPURA DO CAIRO, NAIROBE, LUANDA...!
O homem branco desestrutura-se na razão geométrica daquilo que vai desestruturando, autofagia a sua natureza em rastros patológicos de seqüelas sociais. Odiento em ciúme, inveja a dignidade soberana de uma raça erotizada. Então "O SENHOR PASSA A SER ESCRAVO DO ESCRAVO" (Hegel), dissociando o ego. O trabalho, o canto, o olhar, o sentir, a ginga e tudo mais, para o branco, não mais compõem a universalidade do corpo.
As crianças...são crianças e poetas. Denunciam, em olhares perspicazes, as fantasias concretizadas nos campos alforriados das calçadas, virgens de asfaltos e tráfegos. É tudo um chão, é terra. Constata-se, até pela inveja: HÁ VIDA EM CORPOS PARADOS E ÊXTASES NA EXPRESSÃO DO ANDAR. São crianças na abrangência do nascimento à morte.
As faixas etárias obedecem lúdicas diferenciações:
NA CRIANÇA - O Sonho
NA ADOLESCÊNCIA - A Malícia
NO ADULTO - A Reflexão
NA MATURIDADE - A Sabedoria
A África é a mãe generosa, cujo corpo caminha de mãos dadas com a alma. Não sei se possuo suficiente sensibilidade para ter captado - pouco ou nada - deste esotérico universo. Existem mistérios.
Meandros impenetráveis ao colonizador. Não sei, talvez o viver é o sentir, mas acredito que o meu sentir é viver. Talvez tudo seja um delírio, um momento fugaz, um sonho, uma sedução ou bruxaria. Marcas
mnêmicas.
Parece que vivi: ÁFRICA, NOVA ERA, ETERNO RETORNO, MÃE DO MUNDO. LÁ É ORIGEM, BERÇO E FIM...
Fui como médico e me enfeiticei. A terapêutica das drogas é potencializada com a complementariedade do canto, da música e malemolência da dança. Não se pode imunizar-se do envenenamento xamânico. Resurge o olhar, sente-se o toque, renasce a fé...e um imenso desejo de viver. QUEM LÁ PISOU E NÃO SE ENCANTOU NÃO É HOMEM, É ESPECTRO DE HOMEM. PASSOU PELA MÃE E NÃO NASCEU!
Não sei se falei bonito ou me fiz entender. Falei sincero. Desabafei saudades e sonhos, tristezas e realidades, alegrias e prazeres. O importante foi descobrir que meu PAI iluminava todas as trilhas com a imensa luz púrpura do seu sangue.
Somente me restou uma inevitável culpa: TÊ-LA PISADO, MÃE, COM MEUS PÉS.
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas Participe no debate!Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.