Há seis anos atrás tive a oportunidade de pisar em solo africano. Na ocasião comemorava-se um ano de paz quanto à guerra fratricida. O país tentava reconstruir os danos causados por um estado de beligerância que se extendia desde a década de setenta.
O choque cultural e a realidade desequilibraram-me em torno de um mes.
Comprometido com o trabalho aproveitava todos os segundos para apreender e aprender o máximo possível daquela viagem: a cultura, o povo, a questão social...
Logo, em Luanda, deparei-me com uma cena que me abalou. Passando de carro ví um jovem mutilado de guerra. Transparecia uns vinte anos de idade e trajava, ainda, um uniforme de campanha do exército. O inusitado da cena era que aquele jovem chafurdava em um monturo de lixo à procura de não sei o que! Ocorreu-me, de imediato, um questionamento:
- Não haveria, por parte do governo, um sistema previdenciário para aqueles que lutaram defendendo os interesses do poder dominante?
Percebia-se a experiência urbanística do colonizador português. A cidade é bem traçada e harmoniosamente agradável. A perpetuação do estado de beligerância se refletia na deficiência da limpeza urbana e na falta de conservação do casario.
Após a execução de uma tarefa na província do Cunene voei para Lunda Norte, onde se desenvolvia o Projeto Luzamba, o qual nada mais era exploração mecanizada de diamantes. Deduzi, de imediato, que havia uma avidez por parte do governo em levantar divisas para saldar dívidas contraídas com a guerra.
Aos poucos percebí que o projeto apresentava enormes probabilidades de fracasso. A rapacidade e o infantilismo de seus idealizadores incorriam em dois grandes erros fundamentais: Um cultural e o outro, ecológico. O fracasso de Ford na Amazônia e, mais recentemente, o Projeto Jari para nada serviram. Quando a ganância sobrepuja a realidade.
As informações obtidas eram de que a região era habitada por um grupo étnico conhecido como TXOCOS, com tradição na exploração diamantífera por processo de catação (batéia). O tal projeto fora elaborado autoritariamente (de cima para baixo), sem consulta e respeito aos valores culturais daquele povo. Inevitavelmente surgiriam hostilidades e atos de resistência por parte dos locais. O que, na realidade, ocorreu. Sem falarmos da grande adesão às tropas da UNITA.
Em relação ao aspecto ecológico adianto que a região é endêmica em várias doenças tropicais, principalmente quanto à malária (com predominância do P.falciparum). O ecossistema assemelha-se ao cerrado do planalto central brasileiro. A flora e a fauna não apresentam a exuberância da Mata Atlântica.
O desvio de um trecho do rio Cuango através de explosivos, o movimento ininterrupto de enormes caminhões basculhantes e tratores destacavam-se como fatores desencadeantes de desequilíbrio da cadeia alimentar.
Para aqueles que não têm um mínimo de interesse em conhecer os fundamentos da Ecologia esclarecemos que a Cadeia Alimentar, em dado espaço geográfico, é constituída de uma hierarquia onde determinada ordem animal alimenta-se de outra, sucessivamente. Em condições de equilíbrio há
uma constância populacional.
O transmissor da malária (Vetor) é um mosquito, sendo que os principais predadores de insetos são os anfíbios, pássaros e morcegos. Logo, conclui-se que, o intenso movimentos das máquinas e as constantes
explosões espantariam tais animais, resultando um desequilíbrio (para mais) do vetor malarígeno.
Um pouco antes da ocupação do projeto pelas tropas de Savimbi houve um surto de malária, como também de cólera.
Tentei colocar, de forma suscinta, a importância de uma visão crítica de nosso cotidiano. Como o poder nos manipula e nos deixamos manipular.
Como sofremos inúmeras distorções provocadas pela alienação: infantilismo, imediatismo, racionalismo, autoritarismo, etc.
Enquanto esperamos- Haverá tempo? -uma resposta eficaz de uma sociedade organizada em relação aos destemperos do poder perverso, só nos resta um rogo, ou um grito- SENHOR APIEDE-SE DOS DESTERRADOS DA TERRA!
Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil, 06/12/98 guada@vetor.com.br
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