Portugal em Linha vem publicando inúmeros e excelentes artigos sobre a nossa querida África. São importantes colaborações, na medida que denunciam a continuidade do processo neocolonizador, que hora se impõe pela tirania econômica.
Todos os artigos até então publicados merecem nosso apoio, pois salientam as forças que estão produzindo um genocídio, não só na África, mas em todos os Continentes. Todos os colunistas merecem o nosso apoio, concordando ou não, pois são indivíduos que ainda conseguem indignar-se com os nefastos efeitos sociais do Poder Perverso. Transmitir nossas opiniões é uma forma de ressonância da nossa solidariedade para com os mesmos.
Do exposto gostaria de tecer alguns comentários quanto ao artigo de BAFILA MPAKA(Dividir a África étnicamente é a única solução para os problemas africanos). Em linhas gerais concordo com a visão do autor, mas o advirto quanto a um vício comum na aplicação de nossos pensamentos: O REDUCIONISMO. As soluções para a QUESTÃO DO PODER PERVERSO são infinitamente complexas, pois englobam todos os segmentos sociais em um dado espaço e momento. A resultante da força de uma corrente é determinada pelo seu elo mais frágil.
No primeiro parágrafo lê-se "...a África sofre por causa dos resultados da Conferência de Berlim em 1885...". Este pensamento é tão reducionista que congela e dificulta qualquer compreensão sôbre a História da Civilização. Antes, muito antes, o homem vem se digladiando pelo domínio entre si. Mesmo em sociedades tribais encontrou-se dinâmicas de conflito, embora de pequenas consequências. Pelo pouco que sei percebo que a tal conferência nada mais foi do que uma pressão européia em relação à hegemonia portuguesa na África. Todos desejavam ter, também, uma fatia na exploração do longo e rico litoral africano.
Nas Grandes Navegações já imperavam inúmeros e complexos interesses: Endividamento das monarquias, necessidade de fama e fortuna dos seus comandantes, o autoritarismo eclesiástico com suas imposições religiosas, ambições comerciais, cumprimento da lei através do degredo, etc., etc... As Companhias das Índias formaram verdadeiros exércitos mercenários para assegurar e ampliar o processo expoliativo. A Conferência de Berlim foi o fecho de ouro na consolidação do colonialismo em solo africano; como a Companhia das Índias foi o fundamento das atuais e perniciosas sociedades anônimas.
Ainda no primeiro parágrafo BAFILA enuncia: "...os quais forçaram (grifo nosso) as etnías africanas a dividirem-se e ou viverem com pessoas de etnías diferentes ou com culturas diferentes". Sei, e tenho plena certeza, que não foi intenção do autor colocar um sentido nazifacista nesta oração. O isolamento das etnias, como medida de preservação, é a expressão embutida do pânico. Isolar-se para preserva-se é um caldo de cultura facilitador de preconceitos e outras perversas subjetividades. Do pensamento citado um único verbo denuncia a verdadeira causa (ou uma das principais) que facilita a desestruturação de uma sociedade e ou indivíduo: "...FORÇARAM...". Mais uma vez aflora a QUESTÃO DO PODER. As sociedades primitivas são muito vulneráveis à violência e se preservam pela tênue tradição oral. Qualquer violência (Objetiva ou Subjetiva) quebra a continuidade cultural. O escravagismo, a posse violenta de mulheres, eliminação ou cooptação de lideranças, imposição de moralismos religiosos, comparação depreciativa entre culturas são alguns exemplos suficientes para arrebentar com qualquer cultura, inclusive a nossa. Em tempo, também, convém citar o escambo de artefatos e bugigangas industrializadas (Panelas, machados, espelhos,...) como forma "inocente" de sedução e encantamento No segundo parágrafo BAFILA escreve "...ou a abolição de fronteiras artificiais..." como uma das soluções (outra seria a Educação) de resgate dos valores étnicos. Como, meu amigo ? Como desfazer fronteiras se o próprio mundo hegemônico considera "normal" a presença das mesmas ? Como salvar o afogando se o salvador não sabe nadar ? Posso lhe adiantar, amigo BAFILA, que uma das características do poder perverso baseia-se na disseminação da divisão. Não interessa a esse tipo de poder a manutenção de um Estado organizado e democrático. Uma outra medida para a avaliação do nível de consciência de um povo é o quantitativo de seu acervo jurídico: O MESMO É INVERSAMENTE PROPORCIONAL AO NÍVEL DE CONSCIÊNCIA DE UM POVO.
Quanto a questão da educação, ainda no segundo parágrafo, pergunto: Que Educação ? A formal ? A oficial ? A da ideologia dominante ? Qual ? Um dos nossos amigos, o jornalista Fernando Cruz Gomes ( Guerra entre salteadores ) fornece-nos uma pista em relação a isto: "Recorde-se que muitos dos elementos da "Grande Família" que (des)governa Angola têm os filhos a estudar em Portugal, têm contas caladas na Suíça e alguns até são capazes de ter escondido, em qualquer gaveta secreta, um passaporte português para o que der e vier". Já presenciou um pervertido fazer um mea culpa ? Posso acrescentar uma outra pista histórica, como exemplo: GANDHI. Tendo toda uma formação britânica tentou impor-se como um zé ninguém. Foi escorraçado. Na medida que retomou seus valores tornou-se um CIDADÃO DO MUNDO.
Acreditamos que a grande batalha se definirá na questão moral, onde a legitimidade da autoridade surgirá na capacidade de cada cidadão ter um mínimo de maturidade para escolher seu representante, como também atuar ativamente na própria comunidade. O voto só será eficiente para legitimizar a autoridade quando o indivíduo possuir um mínimo de consciência crítica para poder distinguir e analisar a dicotomia demagógica e cínica entre o discurso e a prática do outro. A educação no terceiro milênio deveria calcar-se no aprendizado e na vivência de atuações sociais que incentivassem o respeito próprio. Não se pode respeitar o outro quando nossa neurose não nos permite superar os nossos próprios conflitos. A prática nos demonstra que seguir um currículo ou obter um papel não nos habilita à sanidade. Assim com o dinheiro não nos pode comprar um quilo de eqüidade, dez litros de bom senso ou um ano de saúde.
Como somos frutos das circunstâncias, também poderemos modificá-las. Se não podemos modificar ninguém podemos nos modificar. Como ? Com qualquer linguagem (Oral, escrita e corporal) que não seja, ou esteja cooptada, a do poder perverso. Talvez, ainda, a INTERNET e a UNIÃO EUROPÉIA possam alavancar uma visão internacionalista de mundo. Sem fronteiras, conscientes e ou inconscientemente, vimos e vemos que os donos do poder perverso aprenderam com a humilhação sofrida no Vietnã. A mensagem nos foi passada pela CNN, quando do ataque HIGH TEC ao Iraque. Antes o bode expiatório, para justificar o poder perverso, era o comunismo, hoje começa a se estruturar sôbre o Fundamentalismo árabe. Se existe competência no cínico esta é a de emular tudo o que há de patológico na mente humana, como forma e maneira de obter seu sustento canibalesco.
Amigo Bafila Mpaka, estou ao seu lado. Entendo a sua angústia. Estamos em uma nova BARCA DE NOÉ. A mesma corre sério perigo em soçobrar no maremoto das insanidades. A nova saída é velha, é do passado- ESTÁ DENTRO DE CADA UM...A nova religião (RELIGARE) é o caminho do auto-conhecimento. Não há mais ídolos ou milagres. A História ensina. Devemos tentar conhecer nossa própria História, como também a da Humanidade. Errar é humano, persistir é burrice. Conhecer a importância dos afetos na primeira infância como condição básica na formação do caráter. Identificar, em nosso cotidiano, os MECANISMOS DE DEFESA DO EGO utilizados nas relações interpessoais. Constatar (Ouvindo e vendo) as dissociações entre DISCURSO x PRÁTICA de cada indivíduo, inclusive familiares. Religarmo-nos à natureza. Que estamos fazendo para nos dignificarmos ? Quais os esforços que utilizamos para nos conhecermos ? Quais os exemplos que oferecemos aos nossos próprios familiares ? Qual a nossa postura em relação ao poder perverso (Indiferença, Confronto, Conivência) ? São algumas ferramentas utilizadas na prática de uma CONSCIÊNCIA CRÍTICA.
Sei que o que falei não é suficiente e depende de cada momento histórico. Sei que não sou dono da verdade. Sei que tenho a certeza da morte e, entre as infinitas incertezas, procuro a cobiçada saúde. Sei que a vida só é vivida estruturada na ESPERANÇA. Sei que tenho muito respeito ao meu cérebro e o corolário em saber que todos também têm cérebro. Sei que a dignidade de um homem só tem substancialidade quando se alcança a ESPIRITUALIDADE.
Não conheço BAFILA MPAKA mas sei que tenho a plena certeza que é um indivíduo digno do meu respeito. É um homem de esperança !
Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil, 10/01/1999 guada@vetor.com.br
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