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Amaury da Silva Rego



NADA ESPERAR


Nossa civilização paga com a depressão psíquica o preço de um viver artificializado e individualista. Cercados de multidões sentimos falta de um olhar, de um sorriso, de um caminhar descontraído.
É possível (sobre)viver a esse cotidiano ? Com as cargas negativas despejadas sobre nós pelo sistema (Imprensa, publicidade, escola, religião, familiares, políticos, etc.) ? É sim, é possível sobreviver. Devemos compreender que a realidade não nos engana. Ela é. Sendo mentalmente "normais?" temos capacidade de superá-la. Costumo reiterar que ninguém engana ninguém, NÓS É QUE NOS ENGANAMOS... A questão do poder arma-se na necessidade de nos impormos que o outro reacionará de acordo com a atitude por nós pré-estabelecida. Velha cobrança exigida pelo nosso velho autoritarismo.
Se, por acaso, alguns indivíduos não captarem a essência das minhas opiniões por falha da minha capacidade de escrever, ou por obliteração emocional do outro, gostaria de esclarecer que:

Anos e anos valorizando o cérebro colho frutos e sustento a fé. Independente de laços familiares, de violências e bens materiais venho conseguindo SER.
Dentro, e sempre, de um enfoque visando a Consciência Crítica gostaria de relatar uma situação desagradável, por mim vivida:

Certo dia útil da semana encontrava-me de folga e resolvemos, eu e a família, ir à praia. Lá chegamos e a encontramos vazia. Suja e vazia, com pouquíssimos banhistas.Decepcionamo-nos quando vislumbramos monturos de lixo deixados na areia - VOCÊS JÁ PERCEBERAM QUE O SER HUMANO É O ÚNICO SER VIVO QUE DEGRADA O QUE LHE PROPORCIONA PRAZER ?
Combinamos que limparíamos um espaço de uns trinta metros de largura. Iniciamos a tarefa e minutos após percebí que meu filho mais velho (então com seus doze anos) fora chamado por uma senhora. Ao longe pus-me a observá-lo. Retornando perguntei-lhe qual era o interesse dela:
A surpresa aconteceu no desfecho. Retirando-se, observamos que, a mesma abandonara todo o seu lixo na areia. A violência desse fato marcou-me. Na adolescência talvez ficasse aborrecido, deprimido. Dissecando um pouco mais diríamos:

Através do diálogo, que aquela idosa senhora tivera com meu filho, percebí que o outro estava em MORTE PSÍQUICA. NADA A ESPERAR...
Depositar no outro nossas carências e espectativas é armar, contra nós próprios, um ardil chamado DECEPÇÃO ! A intensidade e frequência de nossas decepções serve-nos como parâmetro de quanto estamos racionalizando nossa atividade social. Apregoar ou pregar receitas emula fanatismo e demonstra nossa ausência de fé no próprio discurso. Não me decepcionei com aquela pessoa. No máximo, entristeci. Aquele fato plantou um diferencial de comportamento para meus filhos: Em um extremo, o amor pela natureza. No outro...
Nada esperar alimenta a frugalidade da alma. Todo o viver é dinâmico. Retorno positivo: PRAZER. Reconhecer um ato alienado próprio, ou de outro: APRENDIZADO.


Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil, 04/02/1999
guada@vetor.com.br

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