Em maio de 1992 eu estava em Angola. Sem nenhum conhecimento sobre esta cultura tão primitiva, quanto antiga, tentava aprender o máximo.
Conversando com Pedro, negro angolano, com cerca de 50 anos, o mesmo saiu-se com esta: "Um aspecto positivo da colonização portuguesa foi a unificação do idioma em Angola. Agora, em qualquer parte do país nos entendemos." Convem assinalar, para quem não conhece Angola, a existência nesse país de mais de 40 dialetos!
Da fala desse homem podemos destacar duas premissas:
1º Em qualquer ato político encontraremos, sempre, partes positivas e negativas; dependendo o julgamento de valor da visão de mundo de cada ser humano.
2º A importância de um idioma para a comunicação interpares.
Entretanto, convém chamar a atenção sobre armadilhas que se nos apresentam diante de um discurso estruturado. Como antídoto para as mesmas, recorremos ao ditado popular, que nos alerta -NÃO DEVEMOS EMPRENHAR-NOS PELOS OUVIDOS. A fala humana denota a educação formal e, muito mais do que isto, a expressão emocional.
Ninguém nos engana! Nós mesmos, por mecanismos psíquicos de identificação, projeção, introjeção e outros transformamos nossos interlocutores em seres, que numa ampla faixa, vão de divindades a
seres diabólicos. Para não caírmos na tentação de um pré-julgamento, ou de um preconceito, devemos utilizar a sapiência popular: Saber ouvir (atenção), memorizar (história), e distinguir contradições e sofismas.
O resultado na formação de nossa CONSCIÊNCIA CRÍTICA virá com o tempo (prática). Um ser adulto imaturo torna-se perigoso na prática social.
A procura de bodes expiatórios é um exemplo comum da convivência social entre pessoas imaturas.
Hoje, no Brasil, estamos vivendo um ciclo político fútil e de falsos conceitos. Talvez resultado de nossa imaturidade, ou até pior, de uma regressão. Não estamos sabendo usufruir o espaço democrático. Vivemos
o ciclo do neoliberalismo. Espanta-nos ouvi-los. O atual cotidiano exige que nos belisquemos diuturnamente afim de distinguirmos entre o sonho e a realidade ensandecida.
Um irmão lusófono que aportar em terras brasileiras perceberá, atônito, a abrangência da divulgação da língua inglesa. Não temos nada contra outros idiomas. Respeitamo-los como um dos fundamentos da identidade de um povo. Vejo esse fenômeno como sintoma de descaracterização cultural.
Uma grave consequência desta descaracterização é o sofismar.
Cheira-nos a falsidade, esperteza, hipocrisia, mal caratismo mesmo. Citaremos alguns para que avaliem a sua gravidade:
- A imprensa nos bombardeia com GLOBALIZAÇÃO, termo que, nas décadas de 50-70, conhecíamos como IMPERIALISMO!!
- Recém-empossado, o atual Ministro do Trabalho brasileiro, saiu-se com a pérola... TENDÊNCIAS PREOCUPANTES, ao invés de utilizar a palavra DESEMPREGO!!
- A utilização dos VENENOS ORGANOFOSFORADOS (GÁS DE GUERRA) no controle das pragas agrícolas foi rebatizado como DEFENSIVOS AGRÍCOLAS!!
- A conscientização da população quanto aos prejuízos ao ecossistema foi atenuada com a mudança impactante da palavra AGROTÓXICO - OU MELHOR, BIOTÓXICO- em DEFENSIVO AGRÍCOLA!!
- Agora o Brasil é um país EM DESEMNVOLVIMENTO, como se os avanços da tecnologia tivessem mitigado os bolsões de miséria do SUBDESENVOLVIMENTO. Aliás, este surgiu nos idos do REGIME MILITAR (DITADURA)!!
- Para concluir, um dos sofismas mais recente e em moda é EMERGENTE. Atual designação para o outrora NOVO RICO. Positivamente estou ficando velho, pois nos anos 50 os chamávamos de MEDIOCRIDADE ENDINHEIRADA!!
A língua não deveria ser mal utilizada nesse tipos de desvarios. Sofismar não resolve os problemas sociais, pelo contrário, os recrudescem. É uma das formas subjetivas da violência. Evitemos a utilização da fala como blasfêmia. Uma solução simples é a poesia. Por pior que seja uma construção poética torna-se um diamante perante o sofisma.
NB. A invasão da NET por inúmeros poetas é uma esperança para a SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS. Roubo o que ouví de um amigo ao desejar que nos transformemos na INSACIEDADE DOS POETAS VIVOS!!
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