Existem momentos em nossas vidas que, por mais fugazes que sejam, marcam-nos para sempre. Contarei uma dessas situações.
Era uma ensolarada manhã de domingo e estava com minha família em um parque no bairro onde moro. Meus filhos, então pequenos, brincavam com a terra. Eu e minha esposa líamos um jornal. Parecía-me que nada poderia interferir naquele interregno de paz. Entretanto não foi o que aconteceu.
Passavam duas senhoras, quando uma delas falou:
-"PENA QUE NOSSOS FILHOS NÃO FUNCIONEM À PILHA...!
De imediato, aquele pensamento mecanicista e insólito roubou-me a leitura. Ao erguer a cabeça fui novamente agredido com a conclusão daquela senhora:
-"...NOS FINAIS DE SEMANA RETIRARÍAMOS AS PILHAS!!!"
Existem atos e palavras tão elaborados pela censura psíquica que se apresentam de difícil entendimento. Expressam-se em simbolismos e metáforas que, na maioria das vezes, não conseguimos traduzir sem o necessário conhecimento do processo histórico. Nesse caso apresentado a verbalização foi tão explícita, direta e contudente que mesmo um mal ouvinte conseguiria compreedê-la.
Sou daqueles que acreditam que a falta de um espaço democrático na formação emocional da criança pode embotar ou retardar o desenvolvimento dos níveis superiores da atividade cerebral.
Apesar do intenso bombardeio ideológico que a nossa cultura nos submete procuro -hoje com um mínimo de maturidade- compreender e separar o que é de foro íntimo e do social. Na educação dos meus filhos respeito o sagrado direito de não interferir nas escolhas esportivas, místicas, afetivas e profissionais.
Também gostaria de esclarecer que minhas opiniões não me passam como verdades absolutas mas são imbuídas do desejo de acertar e aprofundar uma compreensão sobre a destrutividade humana (Um pleonasmo. Não conheço nenhum animal destrutivo!).
No caso da senhora do parque pareceu-me, nitidamente, que a mesma devotava uma total rejeição ao(s) filho(s). Parece-me que aquela senhora era portadora de sentimentos totalmente reprimidos. Ela sim,
uma própria máquina ambulante, transferia para o filho a sua pobreza emocional.
No seu narcisismo, tivesse um poder absoluto, transformaria o filho em objeto mecânico, onde pudesse, em um autoritarismo IN EXTREMIS, manipulá-lo de acordo com suas variações de humor -QUE DEVE SER
EXTREMAMENTE LÁBIL! Se meu filho fala o que não aprovo desligo-o. Quer comprar o que não desejo, desligo-o. Envergonha-a em seus prazeres, desligo-o. DESLIGO-O. Se o desejo de poder dessa senhora fôsse realizado a mesma teria um total domínio sôbre o outro, transformando-o em uma coisa, um objeto amorfo. Uma célula narcísica, que é o fulcro da loucura.
Para complementar e completar esse assassínio psíquico a "DITOSA MÃE" tiraria a pilha nos finais de semana. Sabedores de que na semana inglêsa sábado e domingo são os dias de que dispomos para aplacarmos nossas saudades e cambiarmos nossos afetos, seja com parentes ou amigos, conclui-se que...
Esse exemplo de delito afetivo pode produzir no futuro daquela criança um comportamento social aparentemente "normal", mas que quando obsevado criteriosamente apresenta atitudes bizarras e
incompreensíveis. São lesões emocionais graves. O psicanalista francês André Green denomina de PSICOSE EM BRANCO. Uma loucura camuflada.
Em todos os dias, e momentos, deparamo-nos com atitudes insólitas em nosso convívio social. Nossas lesões emocionais não os percebem ou os valorizam em suas devidas proporções. Deixamos escapar reflexões que nos levariam a um processo de amadurecimento e, por conseguinte, de compreensão e gerenciamento de nosso próprio equilíbrio interior. Um dos mecanismos básicos para o incremento de nossa AUTO-ESTIMA. A neurofisiologia começa a admitir a importância do emocional para o
completo desenvolvimento do potencial de inteligência do ser humano.
A história sôbre essa senhora exibe uma prática simplista, imatura e mecanicista de visão do mundo.
Tudo que tentei colocar neste artigo é magnificamente exposto no clássico TEMPOS MODERNOS, do imortal Charles Chaplin.
OBS.: Não devemos confundir a função biológica PROCRIAR com a consciência do papel social da MATERNIDADE/PATERNIDADE...
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