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Amaury da Silva Rego



SÔBRE A CAPACIDADE DE INDIGNAR-SE


O pensamento desacompanhado da expressão- adequada a uma determinada situação -do afeto transparece um ato racional, mecânico. Faz-se uma relação interpessoal (Política) sem energia, vazia, destituída de uma resposta emocional, positiva ou negativa. Quando muito reacionamos, consciente ou inconscientemente, com uma sensação de náusea, uma repulsa ao agente da racionalidade.

Chorar, e chorar muito, quando se perde um ente querido é sadio. É fazer o luto! Ficar triste ou apresentar um passageiro estado depressivo diante de uma perda ou frustração também o é. Os momentos dramáticos de nossas existências são, entretanto, cada vez menos dirimidos e menos elaborados pela ideologia da nossa cultura.

Como médico vivi, recentemente, um fato muito doloroso. Um casal perdera o filho de 5 anos asfixiado no banheiro, pelo gás que escapara do aquecedor. Solicitado o atendimento médico deparei-me com o marido e parentes pedindo que a mãe não chorasse, não extravazasse a imensa dor. O racionalismo do mundo moderno vem aniquilando todos os mecanismo simbólicos de catarse deixados por nossos ancestrais. Agora começamos a neutralizar o direito individual de minorar nossas dores.

Se me perguntassem, por ordem de prioridade, quais os afetos mais destacados e menos compreendidos, talvez indicasse:

Na alegria- O AMOR. Quase uma utopia, pelo nível de maturidade que o mesmo exige. Tornou-se um lugar comum confundir-se paixão e sexualidade com amor.

Na tristeza- O LUTO e a INDIGNAÇÃO

Causa-me espécie como incomoda, socialmente, o choro de um ser humano.
Há uma ânsia para silenciar o luto. Como acontece com a morte ou a ruptura de uma grande paixão. Surgem as "PALAVRAS QUE CONSOLAM" das mais absurdas, como: "Foi bom assim...ELE(A) NÃO VALIA NADA MESMO!"
Falar, sofrer, gritar, comentar, recordar, aconchegar-se em um ombro amigo são atitudes balsâmicas para o luto e, posteriormente, a cicatrização da alma. Embora em franco desuso em nossa cultura atual. Aliás, faz-me recordar as carpideiras. Não estaria ai o início de nossa petrificação? Pagar a alguem para chorar por nós ou ressaltar o prestígio do morto?

O extremo do "CONTROLE SOCIAL" emerge, até mesmo, na loucura. Ousar o delírio é ter que se submeter ao efeito repressor da farmacoterapia antipsicótica. Estreitam-se os caminhos para a expressão dos afetos.
Lembro as obras proféticas de George Orwell (1984), Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo) e os trabalhos sôbre o PODER, de Michel Foucault.

A deturpação da consciência coletiva está emulando uma PSICOPATIA SOCIAL por indução. O cinismo, a hipocrisia, a insensibilidade, a indiferença aos valores éticos e morais coabitam com o discurso racionalista da competência, da produtividade e da economia de mercado.

Uma das dificuldades, entre muitas bizarrias e contradições surgidas no campo social, observada é um crescente bloqueio de se expor o sentimento de INDIGNAÇÃO. Trilha-se uma obscura vereda individualista, em uma sociedade de massa. A compulsão do FICAR SÓ, pela incapacidade de se criar vínculos afetivos, tournou-se rotineira. Convive-se com um TROCAR NADA.

Esta situação de NEGAÇÃO (Mecanismo de Defesa do Ego) implica em um corolário de insensatez, no que diz respeito às questões de solidariedade. Atos de injustiça, covardia e abuso de poder são vivenciados com indiferença, ou- muito mais execrável- com o SORRISO CÍNICO.

Em situações elaboradas pela Psicologia Experimental, tais práticas tornam-se transparentes, já que somos orientados para observar os objetivos propostos.

Na televisão a cabo TRAVEL CHANNEL estão apresentando um documentário seriado sôbre etologia humana- "UMA ARMADILHA PARA OS TURISTAS" -que bem esclarece a intenção deste artigo.
Convidaram grupos de turistas de vários países (Alemanha, Estados Unidos da América, Inglaterra e Japão) para usufruirem, gratuitamente, férias em um hotel na Turquia.
Tais pessoas desconheciam o teor da pesquisa. Observou-se cada grupo isoladamente para que não houvesse interferência de nacionalidades.
Em uma das experiências um elemento do grupo (Ator da mesma nacionalidade do grupo) rouba bebida no bar do hotel e a oferece aos demais. O balconista ausentou-se propositadamente. Dos grupos pesquisados dois reacionaram eticamente: O alemão e o japonês.
Um elemento, do grupo alemão, admoestou o oportunista-ladrão e todo o grupo o isolou. Entre os japoneses a resposta surgiu também com o isolamento. Posteriormente, um casal do grupo japonês dirigiu-se ao balconista e denunciou a atitude irregular, pedindo desculpas em nome de seu povo.

Essa acomodação, indiferença mecanicista, apatia moral e política alimenta, produz e reproduz um caldo de cultura propício ao desenvolvimento de concepções fanáticas nos campos de atuação política e religiosa. Plasma o cotidiano em uma MESMICE DO NADA. Embota a capacidade do cidadão em poder utilizar a única ferramenta individual, pessoal e intransferível para a manutençaão da sanidade afetiva e elevação da autoestima: CONSCIÊNCIA CRÍTICA.

Não há mais juízo de valores onde todos os valores estão invertidos. Não há mais espaço para a CRIATIVIDADE e para a UTOPIA, como legítimas expressões do prazer e da fé. O passado, a memória, a herança cultural não mais exercem a instrumentalidade da consulta e da retificação de posturas (Aprendizagem). Tudo parece morto e sepultado... Lembra-nos o lema dos fascistas espanhóis: VIVA A MORTE!

Tendo assistido o excelente filme de Mel Gibson- CORAÇÃO VALENTE -sôbre o herói escocês William Wallace, fixei uma frase significativa, que resume o tema que estou tentando resumir, analisar e denunciar: ..."TODOS MORREREMOS, MAS POUCOS FARÃO HISTÓRIA".

Quando me refiro à INDIGNAÇÃO não pretendo cobrar atitudes de coragem e heroismo do cidadão comum. Desejo, apenas, evidenciar que a ausência da mesma é a expressão simbólica da MORTE PSÍQUICA, entre outros significados. Desejo destacar que a DIGNIDADE nos impede de compactuar com a insensatez dos cínicos e poderosos(?). Por mais medrosos que sejamos poderemos marcar nossa postura com a indiferença.
Retirarmo-nos.

Em uma entrevista intitulada CREPÚSCULO DAS UTOPIAS E ANÁLISE GRUPAL, o psicanalista brasileiro Wilson de Lyra Chebabi a termina com muita sabedoria:

"No crepúsculo do século XX, assistimos à coisificação das utopias arrastando consigo a esperança.

Temos de esperar, num mundo que se marca brutalmente pela violência e pelo cinismo, a ressurreição da ética, que também por definição é GERADA PELA UTOPIA DE UM SER HUMANO QUE SUPERE CORAJOSAMENTE AS SUAS INDIGNIDADES". (1)(2)

Para concluir, não raro sou admoestado por estar NERVOSO, EXALTADO.
Esses interlocutores mal distinguem alhos de bugalhos. Sob minha óptica estão desnorteados em dois aspectos:

1º Não se deve reprimir emoções alheias;
2º Não se deve confundir indignação com ira, ódio, exaltação, inveja, ou outra emoção qualquer.

A indignação é um ESTADO DŽALMA. Sempre que me encontro na situação acima reajo ironicamente- "O amigo está confundindo a minha indignação com a raiva. Não é isso que estou externando, mas sim, indignação.
Aliás, hoje só tem indignação QUEM AINDA POSSUA DIGNIDADE". Por incrível que pareça, a maioria das pessoas não se dão conta . Ouvem e não entendem. Haja indignação nesse mundo de vampiros!

(1) Grifo nosso
(2) http://www.gradiva.com.br/chebabi.htm


Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil
guada@vetor.com.br



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