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Amaury da Silva Rego



SER PAI E A MODERNIDADE


Há alguns anos aconteceu um fato aqui no Rio, divulgado pela imprensa, que me marcou sobremaneira.
Não é algo esporádico, mas que acontece quase que diariamente. Despertou-me a indignação o comportamento infantil-perverso-neurótico-deletério-insensível-inseguro-incapaz-esdrúxulo- aético, etc. ... do PAI e da SOCIEDADE.

Um jovem, sem recursos, denunciou à polícia que as respostas (gabarito) da prova para o vestibular da FAHUPE seriam vendidas em tal lugar, dia e hora. Não pudemos avaliar se esse rapaz teria denunciado por não ter condições de contratar o excuso negócio ou, se realmente, era portador de um bom caráter. Entretanto o desfecho da denúncia mostrou-se-me muito mais relevante.

No local, dia e hora denunciados, a Polícia Federal colocou-se a postos, constatando a veracidade da denúncia. No flagrante, um pai, acompanhado do filho, comprava o ambicionado gabarito. Tal situação ocupou alguns centímetros nas páginas dos jornais com uma simples descrição do acontecimento.

Qualquer pessoa com um mínimo de maturidade desenvolveria uma espectativa de que um frêmito perpassaria várias instituições: Famílias, associações profissionais, instituições educacionais, áreas da saúde, religiões, ...Nada, ninguem se manifestou. O Homo ideologicus, alienado, não se tocou com a gravidade da situação. O infanticídio e o rapto ainda causam algum reboliço temporário, quando atinge segmentos das classes mais altas. As violências subjetivas são toleradas como "normais", como é o acontecimento acima descrito.

Nas minhas conversações, vez ou outra, costumo narrar esse caso, observando o grau de consciência de meus interlocutores. Quase todos detectam apenas a qética- A desonestidade no processo de seleção. A linguagem simbólica, mais profunda (?), ou banalizada, desse pai não é decifrada.

Você, que está lendo este artigo, faça um teste com a própria consciência. Tente descobrir o perfil desse macho reprodutor- Tudo, menos PAI- através do seu gesto (Simbologia): Comprar a prova para o filho.

Que diz para o filho? Pense. Relacione o que pensou. Assim poderá testar a sua capacidade de compreender o simbolismo e a subjetividade.

De imediato ocorre-nos:
- A questão ética: Romper a regra do jogo (O concurso) para obter o desejado.

Em continuidade poderemos desdobrar uma série de linguagens subjetivamente violentas:
- O pai emula a indolência do filho. Não basta lutar. É preciso comprar e romper a regra do jogo;
- A ausência de competição e participação não estimularão o sentimento de auto-afirmação do rapaz;
- Esse pai(?) reforça (O filho aceita) que o mesmo não é capaz. Seja por preguiça ou incapacidade mental;
- Desestrutura o outro para as vivências de perdas (É necessário vencer sempre).

O ex-Presidente Collor usava a seguinte alocução em campanha:
"VENCER OU VENCER". Venceu. O povo aprovou. Êta modernidade!

- Em contrapartida compete com o filho mostrando-lhe que pode AJUDÁ-LO. (Paternalismo).
- Transfere a própria insegurança, na medida que não confia na capacidade do mesmo em estudar e ser aprovado.

Gostaria de explicitar outros exemplos mas sinto-me bloqueado. Cansaço ou minha própria incompetência? Deixemos que você descubra.

Não gostaria de ter vivido em um lar assim. Não houve afeto. Respeito. Confiança. Seria melhor desligá-lo; tirar a pilha. Que poderemos esperar desse rapaz (Que hoje já deve ser um homem) como cidadão? Será que alguma pessoa espiritualizada conseguiu implantar e despertar uma semente de vida nesse jovem? Como gerencia seu ódio (primitivo) diante de uma história existencial tão destituída de nobreza? Será que já é pai? Será que repete o vivido com o próprio filho?

O discurso da modernidade alega que a H(h)istória acabou. Não entendo como. É na história que aprendemos a nos compreender e abreagir ao ódio.
Talvez, para uma vida alienada o passado não traga subsídios, mas dores e tibieza.

Falando de história e modernidade gostaria de perguntar aos pais da economia brasileira sobre a tese de que o sucesso dos tigres asiáticos era devido, em parte, à mão de obra barata. Quando a Tailândia afundou, em julho do ano passado, essa tese acabou. Como eu gosto da História!


Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil
guada@vetor.com.br

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