Já estamos vivendo o clima de um novo Natal. Há uma tristeza no cotidiano. Paira um cansaço de desânimo e uma falta de fé, de esperança.
Triste herança dos tempos modernos: SEM HISTÓRIA E UTOPIA. Por quanto tempo a metáfora natalina sobreviverá na simples troca de presentes ? Um exemplo nada dignificante para a criança que reside em todos nós. Certamente não é um presente do querido PAPAI NOEL.
Sempre tentando sinalizar a importância do desenvolvimento da Consciência Crítica para a prática da cidadania e do ecumenismo teço algumas reflexões sobre as relações entre as ORGANIZAÇÕES X PÚBLICO. Tais relações demonstram que a qualidade dos serviços independem do fato que estas organizações sejam governamentais ou privadas. O HOMEM É A INSTITUIÇÃO.
Reproduzimos nas organizações a prática do VÍNCULO PERVERSO de nossas vidas particulares: Desprezamos os entes "QUERIDOS (?)" e tentamos seduzir àqueles que desejamos.
Trabalhando em Guaramirim, pequeno município do Estado de Santa Catarina, sul do País, tive a feliz oportunidade de conversar com um ser humano, que me pareceu muito digno. Ingratamente, reconheço, não lhe recordo o nome. Era um motorista da Prefeitura que nos nossos momentos de ociosidade me consignava a honra de trocarmos nossas vivências. Apesar dos pés expostos, em um surrado chinelo de borracha, ao frio da época não obscurecia o porte e olhar de dignidade daquele homem. Herdara o bom homem algumas terras dos pais, já falecidos. Em certa ocasião resolvera cultivar arroz, como é comum na região do Vale do Itapocu. Não lembro o motivo mas a iniciativa não obteve o sucesso esperado. A safra fora um desastre total ! Cioso da própria dignidade preocupou-se com a dívida contraída com o
BANCO DO BRASIL, empresa pública. Como qualquer cidadão honesto vendeu parte das terras para saldar seu compromisso creditício. Qual não foi sua surpresa quando meses após, os inadimplentes receberam o benefício da anistia. A instituição não teve a ombridade de devolver os valores àqueles
que honrosamente saldaram suas dívidas. A lógica da esperteza premiara os devedores e punira, mais uma vez, os honestos.
Em nossos tempos tornou-se comum as empresas fazerem PROMOÇÕES para angariar novos clientes sem que os antigos clientes sejam também favorecidos. Isenções de taxas, reduções de mensalidades, abatimento de prêços, sorteios e brindes, são alguns exemplos. Tais situações demonstram o nível de consciência desses administradores. Sendo que a população calada consente. Não há indignação, só apatia...
No mes passado a cidade do Rio de Janeiro assistiu, e assiste ainda, a uma repetição do episódio do Banco do Brasil acima descrito. Sendo que este diz respeito a uma empresa privada. Os atuais governantes brasileiros (Por interesses determinados e ignorados(?)) empenharam-se denodadamente
na privatização de inúmeras empresas estatais. O jargão ideológico e doutrinário espalhado e assimilando pela Imprensa brasileira era: "A modernidade exige a excelência e a competência que só um serviço
privatizado pode oferecer". O novo exemplo, que descreverei a seguir, serve para aquilatar o nosso mundo real.
O governo, sem ouvir a população, resolveu e privatizou, entre vários campos, a telefonia brasileira. No Rio de Janeiro a TELERJ, já constituída e operante (independente da qualidade dos serviços), lançou em
outubro/novembro a implantação da telefonia celular digital (CDMA). Nesta ocasião já existiam mais de um milhão de inscritos aguardando a vez. Felizes, parte desses clientes, encontraram em suas casas correspondência convidando-os a se habilitarem.
Em menos de duas semanas começaram a surgir conflitos e insatisfações diversos, que já demonstravam a "competência" da iniciativa privada. O prêço da Taxa de Habilitação e dos telefones variavam de acordo com o lote de correspondência emitido. O primeiro valor estabelecido era de R$300,00
(Reais) e R$450,00 (Motorola MultiTAC 725) respectivamente. Na realidade o valor real do telefone era de R$510,00, pois vinha em um kit contendo um carregador ultrarápido e uma bateria. A contradição não era o valor do kit, já que as lojas vendiam somente o telefone por R$650,00. O incoveniente seria para aqueles que comparecessem com o valor exato de R$450,00. Perderam a viagem e o tempo na fila de espera.
Em novembro a ATL, uma concorrente ainda em implantação, ofereceu telefones celulares para 10 de dezembro de 98 com uma Taxa de Habilitação- Pasmem- no valor de R$80,00. Uma diferença de R$220,00! Como uma empresa já implantada pode cobrar um valor tão alto? Quais os critérios utilizados
para determinação daquele valor? Qual o respeito ao trabalhador brasileiro com seus salários aviltados?
Não bastasse tal abuso a TELERJ resolveu fazer uma emenda, para enfrentar a concorrente, que foi pior do que o soneto. Baixou a taxa para o mesmo valor da ATL. O inacreditável é que a violência não parou por aí.
A mesma não se dignou em dar uma satisfação aos 100.000 clientes que já tinham pago a taxa anterior! Onde o respeito? Onde a coerência? Onde a dignidade?
Dentro de uma postura cidadã espero que os 100.000 clientes manipulados COLOQUEM A BOCA NO TROMBONE. Exijam que a ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) se manifeste. A atual administração da TELERJ já demonstrou para que veio, mesmo que devolva o dinheiro surripiado!!!
A lógica do poder louco desconhece o "MAIS VALE UM PÁSSARO NA MÃO QUE DOIS VOANDO". A falta de respeito humano para com os funcionários e clientes SEMPRE É A CAUSA de muitos desabamentos dessas organizações (governamentais ou não).
A expressão do afeto perverso destrói a sanidade de qualquer espaço político; seja na família, seja na sociedade. Se a ideologia dominante considera "NORMAL" e "HUMANO" tais fatos, eu, mesmo sozinho, tenho o direito e a coragem de discordar: "HUMANO" sim. "NORMAL", nunca.
Que o espírito cristão abençoe os administradores da TELERJ. Que na ceia natalina peçam a Deus a graça e o respeito oferecidos aos cariocas.
Amaury da Silva Rego
Rio de Janeiro, Brasil, 06/12/98 guada@vetor.com.br
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas Participe no debate!Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.