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Carlos Mário Alexandrino da Silva Carlos Mário Alexandrino da Silva


FUA - FRENTE DE UNIDADE ANGOLANA: OPORTUNIDADE PERDIDA POR PORTUGAL


6. NO LUBANGO: O PRIMEIRO MANIFESTO


Mas, qual era o conteúdo desses panfletos? O que diziam eles?

Nesses impressos anunciava-se a Frente de Unidade Angolana - F.U.A - que fazia as seguintes reivindicações:
a) o direito da população de Angola dispor do seu próprio destino;
b) a abertura imediata de negociações com os representantes da Oposição ao governo, para solução pacífica do problema angolano;
c) necessidade de todos os habitantes de Angola se unirem para a construção de um grande país multirracial;
d) libertação de todos os presos políticos;
e) eleições gerais, com inteira liberdade de propaganda eleitoral e ampla representação de todas as tendências politicas;
f) formação de um governo autônomo de Angola;
g) liberdade de consciência , de religião, de imprensa, de reunião e associação;
h) elevação e representação das massas africanas "hoje sem liberdade, sem garantias e sem direitos";
i) livre acesso aos cargos públicos: a trabalho igual, salário igual;
j) liberdade de comércio com todos os povos e estabelecimento de relações diplomáticas com todos os países;
k) política de franca amizade e sólida cooperação com os povos de expressão portuguesa.

Portanto, prégava-se já a lusofonia que, pese a aparente contradição no plano ideológico, Salazar... também defendia.


Na alínea b) - as alíneas são de nossa inspiração - evidencia-se a preocupação de se estabelecer "diálogo" para encontrar uma "solução pacífica", numa altura - 17 de Abril de 1961 - em que se completavam dois meses sobre uma situação tensa: o "4 de Fevereiro" , em Luanda, caraterizara-se por uma ação relâmpago, ineficaz e mal organizada, mas com impacto na mídia internacional, do incipiente MPLA, e o"15 de Março" (e os três dias subseqüentes) pela macabra e sanguinolenta chacina, no Norte de Angola, de milhares de Negros bailundos (Ovimbundus, da etnia do Dr. Jonas Savimbi...), de brancos e mestiços (litorâneos pois eram raríssimos, devido ao xenofobismo imperante nos bacongos, os"mulatos" nortistas...) praticada pelas endemoninhadas e drogadas hordas a mando do "francofonizado" Holden Roberto.

Por conseguinte, à partida a FUA era pacifista. Foi essa, a nosso ver, a oportunidade, talvez a maior para aquela época histórica, perdida pelo governo central...

Nesse manifesto afirmava-se ainda que "a FUA é um movimento ordeiro e proclama a necessidade de soluções legais e ordeiras"; logo, sua índole nessa fase era legalista e não terrorista. Sublinhava no entanto:"nada poderá impedir que Angola aceda à autonomia a que todos os povos têm direito."

7.- AVERIGUAÇÕES DA PIDE ....


Como é obvio, o Gabinete dos Negócios Políticos do Ministério do Ultramar, em que trabalhávamos, recebia dos órgãos de segurança e informação, civis e militares,, as informações de que carecia para manter ao corrente da situação, através de apontamentos, estudos, relatórios, informações, "briefings" e resenhas semanais, os suportes dos órgãos do Poder executivo, os governos e os comandos militares das Colônias (então províncias ultramarinas). Assim, a respeito da FUA, a PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) enviou ao GNP sua Informação Secreta Nº 989/61/ G.U., de 08 de Junho de 1961, distribuída para estudo ao autor destas linhas, que reproduziu e analisou o essencial em seu Apontamento "Sobre a Frente de Unidade Angola - F.U.A." para despacho do titular da Pasta do Ultramar.

Com sua habitual acrimônia, a PIDE afirmava que a FUA tinha "influência comunista" visando assim:
· unir todos os angolanos, negros e brancos, na luta comum;
· lutar contra todas as formas de terrorismo, "fosse o dos insurretos, fosse o das forças da ordem";
· levar o governo a entregar à "oposição" as rédeas da Administração, com a qual se negociaria a forma de se chegar à autodeterminação e à independência;
· lutar pela proclamação da independência de Angola, isto é, pela criação de um Estado democrático de acordo com a Carta das Nações Unidas e em obediência à Declaração Universal dos Direitos do Homem;
· criar uma efetiva, real e ampla amizade e cooperação com as nações de língua portuguesa;
· aderir ao princípio da livre comercialização e estabelecimento de relações diplomáticas com todos os países.

8.- QUEM ERAM OS DIRIGENTES DA FUA...


Em sua Informação Secreta Nº 62-SC/CI(Z), de 19 de Setembro de 1962, a PIDE comunicou ao GNP que os indivíduos abaixo mencionados, que se encontravam com residência fixa na Metrópole (Lisboa) - "em 10 de Agosto de 1962 saíram clandestinamente com destino a Paris onde haviam constituído um novo "comitê director" da FUA"(!!!?) assim composto:
Presidente: Sócrates Mendonça de Oliveira Dáskalos
Secretário-Geral: Adolfo Maria
Vogais:
Carlos Augusto Duarte de Morais
João Marques de Almeida Mendes
Ernesto Pires Barreto de Lara, também conhecido por Ernesto Lara Filho

Como se pode avaliar, a PIDE prestou-nos uma "informação" muito vaga, inócua, paupérrima de conteúdo; em termos de "intelligence" nem sequer poderia ser considerada como tal! Valia somente como "notícia" não "recortada", porque não enriquecia o nosso conhecimento em termos operacionalmente significativos.

Nós, os do GNP e, mais tarde, dos SCCIA (em Angola), considerávamos a PIDE/DGS um serviço que estava longe de ser o que diziam dele, pois utilizava processos empíricos, torquemadescos, obsoletos, eticamente repudiáveis servindo-se, sobretudo, de improvisados "informadores", com freqüência sem escrúpulos; constituíam esses, na maior parte das vezes, fontes duvidosas cujas notícias mereciam, nos SCCIA, classificação F-6... num grande número de casos.

Essa "polícia política" que o ex-padre ditador criara nos idos de 30 para "defender o regime" contra os anarquistas, os comunistas e a Maçonaria, únicas forças políticas que realmente tinham expressão válida e perigosa para o novo regime conservador, ao tempo, nasceu de forma empírica e improvisada, tendo como diretor geral um capitão do exército, salvo erro chamado Agostinho Lourenço, secundando-o um outro capitão que mais tarde assumiria a direção geral, José Catela. Inicialmente recrutaram os seus quadros entrein formantes ("bufos," na gíria"lusitana"); alguns deles eram quase analfabetos, ex-proletários que nas fábricas espionavam os colegas e os denunciavam movidos pela inveja ou para apresentarem "serviço", a troco de espórtulas sujas. Desses ex-"bufos", desprezíveis e inescrupulosos, vários chegaram, com o decorrer dos anos, a chefes de brigada, subinspetores e até inspetores; a maior parte utilizava, nos seus interrogatórios, a "técnica" da tortura. Rosa Casaco, que ainda anda a monte e chefiou a operação de que resultou, na fronteira luso-espanhola, o assassinato do general Humberto Delgado e de sua secretária e companheira brasileira, secundado pelo hoje advogado e consultor jurídico no Brasil (S.Paulo) do Grupo empresarial de Champallimaud (SOEICOM) Dr.Ernesto Lopes Ramos, do mal-afamado Lobo Mau, Jaime de Oliveira, que foi o primeiro a avançar para Angola nos fins de 40 ou idos de 50, a fim de ali implantar o embrião da polícia política, trabalhando de início junto da Polícia de Segurança Pública, o dúplice e insinuante inspetor Fragoso Alas, o Diretor Domingos Alcarva e o truculento Diretor Adjunto José Manuel Baleizão da Cunha Passo, ex-aluno da Faculdade de Ciências de Lisboa, onde denunciava à PIDE os próprios colegas e que já então era um dos membros mais destacados da não oficializada polícia política, secreta, do Exército, criada e chefiada pelo famoso major Ribeiro Casais, poderoso comandante do Batalhão de Caçadores Nº 5, de Lisboa, e outros pretensos "abencerragens" (sem ofensa à tribo moura...) que, julgando-se "pilares" do sistema político, não o prestigiavam nada, nem à sua organização. Todavia, eram muito apreciados, temidos e benquistos pelo... ministro Silva Cunha, em cuja "era" a PIDE/DGS até vigiava aos próprios governadores-gerais !!! Que o digam os generais Silvino Silvério Marques, ex-governador geral de Angola, e Renato Marques Pinto, ex-diretor provincial dos SCCIA e ex-Chefe da 2ª Divisão do EMGFA depois da "revolução dos cravos" . Um serviço de informação e segurança nacional civil foi criado depois desta revolução sendo dirigido desastrosamente (esse diretor teve de ser demitido com escândalo público pois violara a privacidade de várias entidades, grampeando-lhes comunicações telefônicas) pelo nosso ex-subordinado nos SCCIA, oriundo do quadro administrativo de Angola onde fora chefe de posto, ex-seminarista e, como não podia deixar de ser, membro do movimento católico "de-Collores" ligado à Maçonaria da Igreja Católica - a OPUS DEI- Ramiro Ladeiro Monteiro... que se revelou incompetente, bajulador e possuído de falsas virtudes que faziam dele um clone dos pides... Alguém daquela "máfia" da IC o terá certamente "recomendado" a fim de penetrarem na cúpula das estruturas do executivo... e influenciarem os rumos da orientação política lusitana...

9.- O CENTRO DE..."RECUPERAÇÃO" DE SÃO NICOLAU...


Em Angola, a polícia política mantinha um tenebroso campo de concentração, situado em Moçâmedes, hoje Namibe.

Denominaram-no eufemisticamente de Centro de Recuperação de... São Nicolau!!! Uma espécie de DACHAU lusitano onde esteve internado até o inofensivo Simão Gonçalves Toco, fundador do TOCOÍSMO!!! Quantos ali morreram ou foram torturados... não se sabe. Em nossos arquivos, no Brasil, temos um dossier de cartas de africanos, desconhecidos, ali internados arbitrariamente, sem julgamento, que conseguiram fazer passar mensagens para Luanda, endereçadas ao autor destas linhas, com pedidos de socorro, às quais demos seguimento para o governador geral, através do vice-presidente da UN/ANP e presidente da Câmara Municipal de Luanda Dr. Fernando Sá Viana Rebelo, e para o então coronel Marques Pinto, diretor provincial dos SCCIA, que cortaram o passo aos "pides" promovendo a libertação dos infelizes "terroristas" que sem indiciamento judicial, na maior parte dos casos, nem condenação pelos tribunais, estavam sofrendo no Dachau angolano... Lembramo-nos de um certo Francisco Gaspar Muhongo, malanjino, do MPLA, que nos agradeceu numa carta, já depois da "revolução dos cravos...vermelhos", termos lhe salvo a vida, conseguindo do governador geral a sua libertação e reabilitação bem como a reintegração na sua atividade profissional de professor rural... Em uma de suas epístolas, posterior à "revolução dos cravos" ele nos diz que, da primeira vez em que havia sido internado em São Nicolau, acusado de terrorismo, fora salvo da morte pelo arcebispo de Luanda, Dom Manuel Nunes Gabriel, e da segunda graças a nós... Nunca o conhecemos pessoalmente.

As arbitrariedades que a PIDE/DGS ali praticava, escapavam ao controle do próprio chefe da Província, mais tarde Estado de Angola, e do próprio Salazar.

10.- QUEM ERAM OS "CÃES DE GUARDA" DO REGIME "SALAZARISTA"...


Durante a guerra colonial, com a ampliação de seus quadros, a PIDE/DGS admitia diretamente para funções de subinspetores e inspetores, simples alferes, tenentes e capitães milicianos sem curso superior algum; estudantes universitários fracassados que, uma vez desmobilizados da guerra colonial, requeriam ingresso naquela corporação onde apenas realizavam cursos rápidos e estágios mediante rápidas visitas de estudo ao Deuxième Bureau francês, à Seguridad espanhola, ao MI 6 e ao MI 5 britãnicos, ao FBI e à CIA norte-americanos... O Diretor Geral era o major Silva Pais, cuja filha constava estar vivendo em Havana com o ditador Fidel Castro, a quem conhecera em condições que não estamos habilitado a descrever... Quando Silva Pais queria vê-la, deslocava-se a Espanha; encontravam-se ali... embora essa ligação o "amargurasse". Pelo menos, era este o rumor que corria sobre tão surpreendente e estranho relacionamento. Se alguém souber algo mais, que permita elucidar ou desmentir esta versão, ficaremos agradecidos.

Quando em 1973, no início do segundo semestre, sendo nós já inspetor provincial mas... do Instituto do Algodão de Angola, recebemos, certa tarde, um telefonema direto do inspetor superior da DGS para a África , em comissão( pois fora já nomeado inspetor superior dos Serviços de Economia...), licenciado em Ciências Econômicas e Financeiras Dr. Aníbal São José Lopes, indivíduo muito inteligente e competente, em Luanda, convidando-nos para irmos ocupar na sua organização o cargo de diretor adjunto em Angola, com a missão específica não de ser polícia mas sim de pesquisar os respectivos arquivos para escrever a história das suas atividades operacionais na colônia desde os alvores da chamada subversão, na segunda metade da década de 50, além de recusarmos o convite (até porque, hierarquicamente, como inspetor provincial de nomeação vitalícia, portanto definitiva, isso seria uma despromoção na hierarquia da administração pública, conquanto a remuneração fosse mais atraente porque na DGS tinham "extraordinários"...fora da folha de pagamento) e declinarmos o prazo de 24 horas que ele nos dava para amadurecermos uma resposta... decisiva, prometendo-nos melhor remuneração e até uma gratificação extra confidencial que seria depositada, como garantia ou segurança, numa conta bancária na Suíça, respondemos frontalmente que, com exceção dele, não víamos naquela corporação nem pessoal nem quadros superiores preparados para o exercício de tão importante mas antipática missão. Ousamos dizer-lhe que a DGS (novo acrônimo da PIDE) se se propunha ser um serviço de segurança nacional deveria obedecer a técnicas modernas, apoiadas na ciência política, no direito, na criminalística e na psicologia, em vez de recorrerem a práticas medievais, a processos torpes que só contribuíam para atrair ódio e ojeriza contra a própria instituição que ele servia. O que obtivemos como resposta foi:

"Caro Dr. Alexandrino: Precisamente por isso estamos querendo renovar quadros e processos, precisando de pessoas como o senhor é... Mas compreendo a sua recusa: seria uma "despromoção"..."

São José Lopes, que mais tarde terá (?) morrido de doença fulminante ao escalar Joanesburgo em viagem para Dili, Timor, aonde a Junta de Salvação Nacional o colocara como inspetor superior de Economia, afastando-o de perigos em Portugal e em Angola, foi protegido e poupado pelo general (agora..."marechal"!) Costa Gomes, tal como o médico Baltazar Rebelo de Souza, último ministro do Ultramar, casos esses referidos pelo major Sanches Osório, ajudante daquele oficial general, que passou à reserva como... major e é hoje advogado em Lisboa, em seu livro "O Equivoco do 25 de Abril"... Ambos estavam na capital portuguesa à data de "25 de Abril de 1974", porém ambos foram resguardados e postos a salvo pelos... "revolucionários". Qual a explicação para isso? Noutra oportunidade procuraremos explicar o que se passou e como as coisas foram feitas...

Carlos Mário Alexandrino da Silva


PARTE I - PARTE III


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