Contos Portugal  - O Ponto de Encontro da Lusofonia

Edmar Bernardes DaSilva



Minhas Distâncias


Lá está ela, a Lua, a mais bela e distante das existências que não são humanas. Aqui estou eu, sozinho na areia sentado, o mais distante dos seres vivos. Como homem um dia eu me perdi e agora me sinto distante de mim mesmo, tornei-me o mais inatingível e perdido dos seres viventes. Eu, a Lua e o mar.

Se eu pudesse chegar até a Lua, seria um encontro de distâncias, se eu me entregasse a ela e ela se entregasse a mim. A entrega de dois universos distantes, feito com todo o esforço das duas partes interessadas.

Eu vejo a Lua, é tudo que eu posso fitar nesse momento. Ela é distante de mim, e somos separados pela imensidão do infinito, isto é, são muitos anos luz ou de distâncias para que eu possa alcançar todo o brilho lunar.

Já é quase meio noite. Eu aqui sozinho na praia, perdão eu e o mar.
Por que o mar é tão salgado? Ninguém sabe este é um mistério vivo sem resposta. Penso em pisar na água.

Meu corpo sente um calafrio que vem da própria alma, que indaga a vastidão do mar e o brilho da Lua. A exigüidade da alma é que nos permite sentir todos esses sentimentos humanos e também todos os mistérios que vêm da Lua e do oceano. Meu corpo entrará em estado de transe absorvendo todo este frio e o silêncio da meia noite. A Lua não sabe de nada: no entanto está cumprindo o seu papel de brilhar.
Com o vazio da noite, eu não sinto a presença de outros humanos que às vezes só sabem vir ao mar para poluir ou ver corpos nus. Eu me sinto sozinho. O mar não é sozinho porque é povoado de seres que o completam, isso é uma satisfação para o mar. Neste momento eu me desconheço mais que antes. Apesar de não me conhecer, eu preciso prosseguir. Como é triste não se conhecer, o consolo é ser iluminado pelo brilho da Lua.

Finalmente entro na água. A água do mar é fria como o vento da meia noite, então me arrepio todo. Meu desconhecimento total - o vazio da solidão - já tomou conta de mim, já nem me preocupo.

O odor fresco do mar me impregna com sonhos distantes. Mesmo tentando pensar, meus pensamentos fogem de mim. Sou agora um ser perdido - dentro de mim mesmo, algo então vai se desfazendo e desaguando como líquido dentro do mar.

Este desaguamento aumenta o meu desconhecimento. Sem sentir, eu me deixo lavar totalmente pela água fria do oceano. A água, o sal, os minerais, tudo junto, me deixam por um momento sufocado - tentando respirar eu me coloco de pé.

Agora o brilho da Lua é mais transparente e distante dos meus olhos. Brilhando, do céu até a água, ele prateia todo o mar. O brilho da Lua, meu corpo nu e molhado, é um ritual introspectivo da natureza.
Meus olhos fitam o espaço entre o mar e a Lua, indagando o desconhecimento desse mistério. Atiro água para o ar, sinto o sabor de sal na minha boca fria. As ondas do mar me empurram como se não quisessem que eu ficasse dentro, quando me empurram, me encharcam com o brilho da Lua e com o sabor do sal.

Só isso que faltava o mar empurrando-me para fora de seu território, como um invasor, que não é bem-vindo. Porém eu luto com as ondas e vou desafiando o oceano. Minha garganta queima de tanto sal, meus olhos são cegos de escuridão, as ondas insistem em empurrar.

Lutando com as águas, bebendo água salgada, agora cansado desisto da luta. Do que eu gosto mesmo é do brilho da Lua. A Lua não é salgada, ela não me sufoca, dentro do brilho do luar sou artista: que mesmo desconhecido de mim mesmo e dos outros, posso brilhar como um astro.

Depois de tanta água engolida, decido retornar à praia. Quando saía do mar, parecia que estava flutuando sobre a água então a distância da Lua se tornava maior, era só uma sensação que eu desconhecia porém sentia. Às vezes eu sentia o mar me tragar, no entanto eu resistia e lutava contra ele. E então depois de tanta luta contra o mar, finalmente piso na areia.

Quando piso na areia, me sento. Levanto os olhos e sinto o brilho da Lua distante de mim incontáveis anos luz, também distante do mar e seu sal - minha distância e a do mar chocando com a distância da Lua. Mesmo distante e desconhecendo a mim mesmo, não quero perder todo este brilho lunar, que um dia poderá se apagar dentro de mim. Entre a Lua e o mar, eu prefiro os dois, pois entre suas distâncias e a minha, vejo e sinto um brilho que é mais velho que o ser humano. Meu brilho e o da Lua refletido nas águas do mar...

Edmar Bernardes DaSilva em
"ASTROS E ESTRELAS"(Contos e Poemas) - 1997 Primeira edição - Páginas 95-96-97
Gradual Editora e Gráfica Ltda - Belo Horizonte/MG/Brasil
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Edmar Bernardes DaSilva
journalistBR@hotmail.com

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