ANDAM por aí, quais pardais de calções, como dizia o Poeta. Entendendo mal o mundo que os rodeia. Vestindo o fato de ilusões
feito. Entregando os sorrisos de meninos que estão a crescer. E tendo o direito de se empertigar ao mais leve assomo de desdém dos outros. A Escola une-os a todos e dá-lhe mensagens que nem sempre entendem. Põe-lhes nas cabecitas regras e conceitos que nem sempre serão para seguir. A criança. A sua ânsia de crescer. O "bom" que essa vida tem... e a necessidade de abrir a janela e olhar o além e as miragens.
* A escola já começou, não é? Com professores muito competentes e muito adequados a um sistema que nem sempre é bem visto. A escola da casa... nem sempre é abordada. E surgem, por isso, aqui e além, histórias e conceitos que os tempos vão atirando por sobre os descuidados, por forma a que entendam e compreendam. Conceitos e histórias... que nem todos querem entender e compreender. Bom dia, menino! A Escola foi boa? E em casa...?
Dez réis de gente. Empertigado. Olhando a Televisão com um certo ar de fastio. Enjoando as brincadeiras que vê fazer e até mesmo os bonecos animados que se entrechocam na sua mente ainda enevoada. E o pai... que nunca mais vem. Ele, em tempos, até era mesmo bom. Interessava-se pelo menino. Brincava com ele. Atirava-se para o sofá, deixava que ele se encavalitasse e, depois, aos poucos, até lhe contava histórias de encantar.
O pai! E ele hoje que não vem... antes de eu ir para a cama. Aliás, tem sido assim tantas vezes, nos últimos tempos...
Conversas de fala-só. Pensamentos. Mente enevoada... a tentar sondar o que até insondável era.
- Ah... já vieste?! Boa noite, pai!
- Boa noite, meu filho. Ainda não estás a dormir?
- Não. Estava à tua espera.
- À minha espera...? Querias alguma coisa? Não me digas que fizeste algo de errado na escola!?
- Não. Nada disso. Ó pai... quanto é que tu ganhas à hora?
O pai engoliu em seco. Cresceu para ele...
- Essa agora! O fedelho... a querer meter-se na minha vida! Tens alguma coisa com isso? Era mesmo o que faltava!
- Ó pai, eu... só queria saber...!
- O que tu queres sei eu... queres pedir-me dinheiro, não é? Vai mas é para a cama...
E o menino foi. O menino enterrou o pescoço por entre os ombros, soltou um suspiro dolorido... e foi. Foi-se dali sem sequer... esperar que o pai lhe desse o beijo de outrora. Com 11 anos entendia mal tudo aquilo. É que ele só queria... saber.
O pai magicou. Não conseguia entender a conversa do filho. Só se fosse, para... não, isso não! Essa agora... porque é que ele queria saber quanto eu ganhava?! Só se foi a mãe que lhe meteu em cabeça fazer aquela pergunta...
Os tempos passavam. As imagens da Televisão como que lhe matraqueavam o cérebro... e não o deixavam nem ver nem ouvir. Achava que tinha febre... que algo de mal se estava a passar com ele. Uma hora passou. Duas... talvez. Era preciso ir dormir, já que no dia seguinte - antes das 5... - já ele tinha de seguir para o trabalho. Dormir, pois claro... a despeito de lhe não sair da cabeça a pergunta do filho.
Quanto é que eu ganho?! Essa agora!
Quando passou pelo quarto do filho... algo lhe disse para entrar. É que, na cabeça, bailava ainda a pergunta. Entrou.
- Estás a dormir, filho...? Adoçou a voz até onde era possível.
Que não, disse o menino, com ar triste.
- Para que é que querias saber quanto é que eu ganhava por hora? Sabes... eu ganho 15 dólares à hora... São 15 dólares à hora....! Por que é que querias saber, meu filho?
- Ó pai... eu queria que me emprestasses 5 dólares! Só queria 5 dólares!
E o pai, já rendido, sobretudo, ao ar trémulo do filho, mesmo sem cuidar da razão do pedido:
- Está bem, meu filho! Toma lá os 5 dólares... eu tenho aqui!
E deu-lhe o dinheiro.
O menino estremeceu de alegria. Viam-se nos olhos lágrimas de felicidade. Era como que uma nova alma que lhe entrava no ser.
Depois, com métodos algo estranhos, remexeu na almofada... tirando de lá de dentro... duas notas. Juntou a que o pai lhe dera.
- Toma lá, pai... eu só queria pagar uma hora do teu trabalho. Precisava de uma hora tua. Aqui ao pé de mim. Para me contares uma das histórias que tu me contavas há tanto tempo... Só queria que tu estivesse mais uma hora comigo. Eu preciso de ti! Eu preciso tanto de ti, pai! Sabes... às vezes eu tenha medo da rua... das coisas... das pessoas... e tu é que és fortes, tu é que me podes ajudar. Porque é que não estás mais tempo comigo? Andei 8 dias a guardar este dinheiro que a mãe me dava. Eu só queria pagar uma hora do teu trabalho... para tu não trabalhares tanto e poderes estar comigo. É só uma hora... quando eu tiver mais dinheiro... eu dou-te mais... eu pago-te.
Abraçaram-se os dois a chorar. O pai entendeu o recado. E o menino sentiu-se feliz em ter comprado uma hora de trabalho ao pai. É que ganhava com ela... muito!
Já não recordo - nem isso é importante - se foi o meu pai que me contou a história ou se a li em algum livro. O que sei é que ela,
aqui, entre nós - sobretudo nos países da diáspora - é demasiadamente importante... para que não seja entendida. Aqui e agora, onde muitos de nós não temos tempo - não queremos ter tempo - para conversar com os filhos. Onde muitos de nós, afinal, deixamos apenas às escolas a obrigação de moldar o ser... a quem demos o ser!