Foi um "tiro na democracia" o que se passou, recentemente, frente ao "Journal de Montreal". A sociedade canadiana, também ela (ainda) de brandos costumes, ficou em estado de choque. Um conhecido jornalista daquele influente Jornal do Quebeque foi baleado pelas costas. Michel Auger, de 55 anos, tem sido, desde há tempos, o mais acérrimo "combatente" contra o crime organizado, especialmente aquele que resulta da luta dos gangues motoqueiros. Os Hells Angels e a Rock Machine abalam, frequentemente, a relativamente calma sociedade do Quebeque. E vão alastrando para outras províncias, designadamente para o Ontario, onde os métodos da Mafia - de que os motoqueiros em causa parecem ser "espelhos" e "executantes" têm algumas semelhanças.
Embora em Toronto não tenha havido, ainda, casos que possam ser atribuidos àqueles grupos, há indicações de que os gangues se
passaram, também, para a zona, com a Polícia local muito atenta, mas sem razões para acreditar que haja perigo imediato.
O ministro da segurança do Quebeque, preocupado com a acender da luta entre gangues - que já causou vários mortes e incêndios - fez um apelo ao governo federal para facilitar a missão da Polícia local, abrindo mão de algumas liberdades civis inscritas na Constituição canadiana. Vale a pena raciocinar que a "tentativa de assassinato" ocorreu pouco depois desta tomada de posição, tendo ao que parece sido determinante na ordem de execução um artigo publicado pelo "Journal de Montreal", em que Auger escalpelizava determinados aspectos da luta entre os diois gangues, relacionando-os com a mafia e com determinadas
entidades que, a coberto de "boas posições", viviam sem despertar suspeitas.
Michel Auger, que de há muito, tem vindo a ser ameaçado, face aos seus artigos de investigação, ficou desde logo na mira dos que
eventualmente se sentiram ameaçados. Num dia em que o jornalista saiu do jornal sem segurança, aconteceu o inevitável. Vários tiros
atingiram a vítima nas costas e no ombro. Tudo isto em pleno estacionamento do Jornal, onde os agressores estavam à espera.
Auger, agora sob forte protecção policial, está no hospital entre a vida e a morte. A cobrir, profissionalmente e como jornalista de
investigação, o chamado crime organizado, muitas vezes os factos que ele descobria... chocavam com alguns poderes económicos instituídos.
Para a direcção do jornal, o que se passou é, de facto, um escândalo, acentuando ainda que foi "a própria democracia que foi atingida".
Michel Auger irritou os motoqueiros e os chefões da mafia local. Como acontece em todo o mundo, os jornalistas de investigação - por norma a lutar sem os meios que os "inimigos" têm - são, assim, alvo a abater. O repórter do "Journal de Montreal" foi o alvo escolhido.
E por muito que agora venham todos dizer-se "muito pesarosos", quem atirou sobre aquele Jornalista foi a própria sociedade que todos ajudaram a criar. Com leis que permitem o abuso. E com "defesas" que são de todos. De todos, menos, pelos vistos, dos Jornalistas que se atrevem a ser Jornalistas de luta e combate ao que acaba por "emporcalhar" a própria sociedade.
Jornalista vertical é, em certas sociedades, um alvo a abater.
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