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Fernando Cruz Gomes




Um empate técnico... perturbante!


A moção de censura já lá vai. Foi o que se viu. Um empate técnico em que, no entender da maioria dos analistas, não houve vencido nem vencedor. De antemão se sabia que quer o Bloco de Esquerda quer o PCP iria fragilizar a moção, criticando o Governo, sim, mas sem lhe dar o seu voto, no caso dos comunistas, e sem permitir a vitória social-democrata, no caso dos "bloquistas". Quanto ao que se disse, e talvez face ao que se não disse, o empate técnico assenta que nem uma luva a ambos os contendores principais.

O que pairava por sobre tudo e todos era, no fundo, o duelo esquerda-direita, que vai ter maior consistência e mais forte impacto quando do debate parlamentar do Orçamento para 2001. Então já não haverá necessidade - assim o cremos - de recorrer a estranhos", já que Cavaco Silva não vai ter voz activa, como teve agora na moção de censura, citado como foi, a toda a hora, por um primeiro-ministro que jogou com as palavras, fez tagaté aos números e percentagens do adversário e saiu pela porta baixo, certo como estava de antemão que o jogo lhe era favorável, já que à sua esquerda... ninguém gosta, afinal, dos que se posicionam à sua direita.

De resto, é bem capaz de estar por ali, subjacente, o "braço" de Sampaio que, não há muito, na Madeira, quis apelar ao voto dos deputados social-democratas da Madeira para que estes, dissociando-se do seu partido, viabilizassem o orçamento. Como em política, o que parece é... pareceu mesmo que o presidente da República, em vez de se distanciar do que pareceria uma crise quis tomar parte activa no debate de quarta-feira e no debate do OE. E por que assistia à inauguração de uma obra de grande fôlego, na Madeira, quis acreditar ser possível pôr os deputados madeirenses a encarar a hipótese de alinhar com o Governo. Não se esqueceu de outras ocasiões, em que o voto madeirense sempre teve um preço. Algo que perturbe a sua reeleição (mais do que provável) não agrada.

Jardim já disse que isso não iria acontecer. Só que, de facto, a Guterres não convém também fazer passar o orçamento com a posição dos "bloquistas", afrontando tudo e todos à sua direita (e possìvelmente à sua esquerda...). Os deputados da Madeira poderiam votar e dar mais alguns milhões ao governo da Madeira.

A estratégia de Sampaio era capaz de estar correcta. E se não resultar no debate do Orçamento de Estado... parece ter estado subjacente à "peixeirada" da Assembleia da República, em tempo de moção que já o era (derrotada) antes de o ser...

Para o Povo... ficou a desilusão. Pelos vistos, os eleitores que ainda votam - e já não são muitos - parecem cansados do governo da rosa. Mas, de facto, não têm alternativa. Do lado da oposição... não parece haver candidatos a primeiro-ministro que mantenham, ainda que artificialmente, os preços do petróleo e do crédito. Só este inefável Guterres vai fazendo isso. O que é pena... Até porque, como lembrou, há dias, o presidente da JSD/Porto, Tiago Mota e Costa, ao pedir a demissão daquele cargo, "neste momento, aos olhos do País, Durão Barroso é visto como o melhor seguro de vida do engenheiro Guterres e do doutor Portas". Exagero? Quem sabe?!


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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