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Fernando Cruz Gomes




Angolanos sem futuro


Com lutas intestinas de Norte a Sul, Angola vai de mal a pior. Uma guerrilha generalizada dilacera as poucas estruturas que sobraram das sucessivas guerras que se mantêm no País há décadas. E sem que haja esperança de parar tudo, na medida em que a História teima em ensinar que... a guerrilha não é vencida.

Para além das lutas militares ou para-militares, há todo um somatório de incongruências governativas, há o esbanjar dos dinheiros públicos, uma má gestão quase sem paralelo em qualquer parte do mundo. Dinheiro... vai havendo, apenas, para a compra de armas de destruição.

Não há muito, o Parlamento Europeu debruçou-se, uma vez mais, sobre a redução da dívida de Angola. Uma dívida grande até demais. Uma dívida gritantemente vexatória para quantos manejam um País que é considerado dos mais ricos do mundo. O Parlamento Europeu, então como noutras ocasiões, faz depender a ajuda da União Europeia a Angola de qualquer coisa que, de momento, não parece passível de acontecer. Querem os parlamentares europeus que haja "boa governação, respeito pelos direitos humanos, democracia e Estado de direito". Reconhece o deputado proponente, o belga Van Hecke, que as ajudas internacionais são muitas vezes utilizados em fins militares. O que, de uma forma geral, prolonga os conflitos existentes.

Tão preocupados parecem os parlamentares europeus que referem dever ser vedada aos militares a participação no tipo de ajuda humanitária, já que essa ajuda poderá não estar isenta de sofrer utilização abusiva para fins militares.

E é neste ambiente que a UNITA apresenta, agora, em Lisboa, um conjunto de várias medidas tendentes a trazer a paz à Nação angolana. Medidas que incluem, designadamente, um chamado "governo de amplo consenso", "uma paz que garanta a vida a todos os angolanos" e a "independência real contra o neocolonialismo". Quando o segundo maior partido angolano fala em mediação, insiste em retirar da lista dos mediadores Portugal, Estados Unidos e Rússia. O que não pode deixar de ser considerado sintomático. O mesmo acontecendo, naturalmente, com a proposta criação de uma comissão nacional - apartidária - para o controlo e fiscalização do uso das finanças públicas.

As propostas feitas pela UNITA vão, decerto, cair em saco roto. Não foi a primeira vez que foram formuladas, nem será a última. Ao aparelho do MPLA - defendido no Parlamento por 129 deputados, eleitos há 8 anos, nas legislativas - não interessa dar ao mundo uma "visão de capitulação". Só que os deputados, designadamente os 70 eleitos pela UNITA, já não estão em situação legal. Como o não estará - nunca esteve - José Eduardo dos Santos, uma vez que obtendo 49,57 por cento dos votos expressos contra 40,07 por cento de Savimbi nunca foi à necessária segunda volta das eleições.

Tudo visto, a tragédia vai continuar a ser o "prato forte" do viver geral em Angola. Uma tragédia multifacetada, estranhamente empolada de um lado e do outro. Uma tragédia que dá aos angolanos de qualquer dos lados em luta uma noção de falta de... futuro.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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