Artigos de Opinião Portugal Em Linha

Fernando Cruz Gomes




Portugal... perdeu muito embora pense que não


Pouco disseram dele. As clássicas duas linhas, aqui e além aumentadas de um pedaço de prosa às vezes sem sentido. Rui Romano, que se finou, a 2 de Novembro, em Lisboa, merecia mais. Em vida como na morte. Merecia, especialmente, que o seu exemplo frutificasse e que a hercúlea força anímica que emprestava a todas as coisas não ficasse no esquecimento.

E porque... os Jornais disseram pouco, pensamos nós valer a pena tecer meia dúzia de considerações. É que quem estas linhas traça teve a honra de suceder ao Rui - primeiro, apenas, "por substituição" - na última chefia que ele teve em Angola. Era chefe do Departamento de Programação da então Emissora Oficial, quando decidiu, em 68 ou 69 - nem nos recordamos, que os anos também pesam - ir estudar para Lisboa.
Como estávamos então a funcionar como chefe do sector de informação, programas literários e intercâmbio da mesma Emissora, atiraram para os nossos ombros o fardo ingrato de o substituir naquelas funções. Não como director de programação, que ele nunca foi, já que cargos desses vinham sempre de Portugal, com a bênção dos que então mandavam por lá...

Substituir o Rui Romano? Dar continuidade ao vulcão que ele era nos sectores que mexiam com a Informação? - Tarefas difíceis. Bem vêem, o Rui era um autodidacta de mão cheia que abordava, com a maior desenvoltura, qualquer dos temas que lhe passasse de perto. Quando estudou, fê-lo em grande, porque de há muito ele se embrenahara em matérias várias. Amando a sua terra, conhecia-a como poucos. Amando Portugal, amava-o como um todo. Que uns determinados pigmeus de um lado e do outro iam esboroando.

O Rui Romano! Já na altura em que começávamos a deambular pelos estúdios das rádios e pelas bancas das redacções, ele andava por lá. E quando dizem que ele terminou a sua vida na carreira docente, hemos de contrapôr que ele a começou, também, na carreira docente. É que já no início do seu labor, ele respeitava os mais novos, ensinava o que havia a ensinar, melhorava o ambiente em que todos se movimentavam.

Ele sabia - como ele o sabia! - que Portugal não entendia a forma de fazer Informação que gente como ele e o João Charulla, o Couto Rodrigues e (noutros domínios) o Ferreira da Costa iam fazendo. Se até os homens que de lá nos mandavam - o Robby Amorim e o Adelino Tavares da Silva, entre outros - "aprendiam" em Angola a refinar a sua profissão! E se eles eram bons!

Quando a hecatombe de 75 se deu, já o Rui estava em Lisboa há muito tempo. Não sofreu, directamente, na carne, o que os outros seus colegas sofreram. Mas sofreu doutra forma. Rilhou os dentes para não chorar. Sobretudo com quantos iam chegando... era difícil abrir caminho no acanhado mercado de trabalho que havia. No acanhado mercado de trabalho e na pequenês dos horizontes que se desenhavam no Portugal de então.

Se assim não fora, se Portugal quisesse, desde logo, abrir ainda mais os horizontes, decerto que muitos dos que vieram das colónias ficavam por lá. Floresciam por lá. O próprio Rui... teve pràticamente de começar do princípio. Na RTP, como noutros domínios da Informação, deram-lhe apenas aquilo a que seriam obrigados. Ninguém sondou o enorme potencial que aquele homem da Informação trazia. Como não sondaram esse mesmo potencial a tantos outros. Que deixaram ficar por aí, um pouco por todo o lado, a estiolar.

Como se faz hoje com os emigrantes... os homens da Informação que vieram de África foram sendo obrigados a partir. Nos primeiros anos, poucos se alcandoraram a lugares parecidos com os que tinham nos locais de onde vinham. Muitos estão ainda por aí, no mundo alteroso da emigração. Para não falarmos em nomes, há gente de gabarito na Informação na África do Sul, nos Estados Unidos, no Canadá, no Brasil, na França ou na Alemanha. Alguns foram voltando mas... para se reformarem. Da própria secção de Angola do Sindicato Nacional dos Jornalistas - de que tivemos a honra de ser o último presidente eleito - esvairam-se os papéis e quantos quiseram retomar a sua inscrição tiveram de a fazer de novo.

Rui Romano viu isto. Rui Romano sofreu com isto. Rui Romano, que ainda não há muito perdera a companheira e esposa Alice Cruz - que connosco trabalhara também na Emissora Oficial - sabia o potencial que Portugal estava a perder. Como sabia - e ainda não há muito no-lo disse - que Portugal perde toda uma gama de bons técnicos, bons professores, bons empresários, quando não os "pesca" nas comunidades de onde muitos não se importariam de sair. Dizia-nos então - decerto sustentado por estudos aturados - que no fim da Grande Guerra, Estados Unidos e União Soviética, à compita, andaram a "caçar cabeças" - sobretudo alemãs - um pouco por todo o mundo. Era preciso que Portugal fizesse o mesmo dizia...

Portugal viu partir o Rui. Sem ter tirado todo o partido que poderia tirar. Portugal, padrasto para muitos dos que querem ser (e são) seus filhos não conseguiu adivinhar, no Rui, toda a sua categoria. O que é pena e nos deixou a todos mais pobres...

Embrenhados que andam nas lutas políticas intestinas, os governantes portugueses de todos os quadrantes e quase de todas as latitudes esquecem-se que Portugal não é apenas e só o quase rectângulo continental e as ilhas de maravilha do Atlântico. Portugal é também o conjunto dos Portugueses - são quatro milhões e meio, não são?! - que vivem para cá das fronteiras da nossa angústia. Esquece-se e... perde com isso.

E o pior é que já não temos o Rui para nos defender e para barafustar sempre que a oportunidade lhe passava por perto!


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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