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Fernando Cruz Gomes




Na RTPi... as conversas do "fala só"


Os telespectadores da RTP acompanharam, há dias, a par e passo, uma... novela da vida real. A jeito de "Big Brother". E viram-na, pelos vistos, com entusiasmo. Acompanharam todos os passos. Vibraram com as peripécias apresentadas. Pela RTPi, todos começaram a ver - se é que ainda o não sabiam - que para aumentar as audiências "vale tudo menos... tirar olhos". Houve quem ficasse com a ideia de que a nossa querida Comunicação Social faz tudo... mas tudo... para aumentar as audiências.

E se a ideia se aceita - mesmo que se não aprove - nos canais televisivos particulares, já o mesmo não pode acontecer na RTP paga com o dinheiro de todos nós para ser uma Televisão de referência.

A RTP confundiu, na ocasião, informação com espectáculo. E confundiu despudoradamente. Ninguém disse às cabecinhas loucas daquela estação que há uma diferença abismal entre a vontade de arranjar audiências e o "serviço público" que é preciso providenciar? Como é que se pode entender, no conceito de "serviço públkico" a cobertura feita ao "caso Subtil", um "caso" que, de resto, foi provocado pela própria RTP?

No mundo, vamos entendendo, cada vez mais, que a RTPi não está a cumprir, de forma alguma, os objectivos que presidiram à sua fundação.
E de há tempos a esta parte... as coisas estão a piorar. Não há cão nem gato que não tente fazer, para a RTPi, um programa de "fala só", com muitos "caracóis-sobre-si-mesmo-enrolados" a falar de si e das suas coisas e a puxar pelos telespectadores para que digam, e escrevam, que eles, sim, são os maiores...

E nós, os que vivemos cá longe onde custa mais ser Português, vamos aguentando e entrando no jogo. O jogo do "faz de conta", em que elogiamos - e que elogios, com frases como "adoro o seu programa", "vocês fazem a melhor programação", "se não fossem vocês... onde é que nós estaríamos...", etc. - tudo e todos, sem regatear aplausos. Pirosice ao domicílio, em doses de quanto baste, para provarmos, afinal, que a nossa emigração está a ser alienada, em cada dia que passa.

Os "talking-shows" - muitos e de má qualidade, exactamente porque sem orçamento... - são mais que muitos. Passam só na RTPi, como é evidente. São coisas... para emigrante ver. Para dar conteúdo à saudade. Para dizer aos portugueses do mundo que estamos unidos... Se fossem organizados para deixarmos de ver a RTPi ninguém faria melhor... E, no entanto, e de uma forma geral, quem "dá a cara" nesses programas sabe que não está a fazer o que pode e sabe... No entanto, parece necessário "nivelar por baixo"!

A triangulação da Informação não existe. A conversa sobre temas que não sejam sòmente o "choradinho da saudade" também não. Idem para uma inteligente apresentação do Portugal de hoje. Sim, porque com ligeiras excepções, os tais programas do "fala só" mostram-nos o tal Portugal... de ontem.

O povo, que saiu há 20 ou 30 anos de Portugal, gosta de fado, de folclore, dos artistas de "antigamente"? Pois aí os tem, em doses maciças de fazer pensar - aos que ainda têm o feio hábito de pensar... - que Portugal e a RTPi estão com os emigrantes. Que se interessam pelos seus dramas da saudade. Que há um coração grande que pulsa por todos.

É demasiadamente mau... para ser verdade. E quando assim é, até a telenovela da vida real, protagonizada pelo sr. Subtil, a barricar-se numa das muitas casas de banho da RTP... é capaz de cheirar menos mal.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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