O "rosto humanista" do Canadá parece estar a encher-se de rugas.
O País tinha, de facto, um ar sério. Para ensaiar consensos. Para mandar "soldados de paz" para teatros de guerra. Um rosto sério para dar um safanão sadio e acordar consciências internacionais. Foi assim, quando Trudeau, em pirueta de político moderno, mandou às malvas o que os vizinhos do Sul lhe diziam e foi até Cuba falar com Castro.
Agora aparecem, frequentemente, tensões que são perfeitamente dispensáveis. Com políticos e diplomatas a enredarem-se em "sarilhos" que só o são... porque, pelos vistos, não há quem tenha herdado a forma de ser daquele político canadiano.
Verdade ou mentira, a notícia veio na Folha de São Paulo. Segundo a notícia, com origem de Washington, o Canadá teria induzido os Estados Unidos da América a seguir a sua própria decisão de barrar a importação de carne oriunda do Brasil. Ter-se-ia aproveitado da fase de transição do Governo para convencer os americanos a suspender a importação de produtos derivados de carne do Brasil. A jeito de "vingança" face aos problemas existentes no tocante aos subsídios relativos às exportações de aviões. Coisas!
Aquele jornal paulista dá pormenores do "negócio", contando que o ministro canadiano da Agricultura, Van Clief, telefonou a Ann Veneman, a responsável pela agricultura na administração Bush, avisando-a de que o Canadá estava a suspender as importações de produtos derivados de carne do Brasil, alegadamente por aquele país sul-americano não ter entregue, atempadamente, informações sobre o controle do BSE, a tal doença das vacas loucas. Informações que tinham sido pedidas em Maio de 1998.
Na opinião do ministro canadiano, a doença já passara fronteiras e o Brasil constituía "um risco" para a propagação do mal. Mesmo não tendo ainda aparecido doença alguma no Brasil, o ministro canadiano - em termos de NAFTA é o Canadá que tem de fazer a certificação sanitária dos produtos sul-africanos - opinou que o melhor, para os Estados Unidos e para o Canadá era mesmo suspender as importações.
Ann Veneman estava, então, a tomar posse do Ministério e não queria começar com um problema daqueles, que poderia, eventualmente, pôr em risco a saúde da população. E vai daí... suspendeu temporàriamente a importação de carne animal da zona brasileira. Pelo menos até que as autoridades de Washington se possam certificar de que não haveria problemas.
O Canadá esteve, assim, pelos vistos, em foco - negativo - em toda esta história. As autoridades brasileiras reconhecem que a falta de
informações pedidas em 1998 é real, mas diz que no Brasil o gado é alimentado com pasto e ração vegetal, não ingerindo a ração infecciosa de ossos.
Agora, é capaz de estar a chegar a "conta da florista". Para já, é o Canadá a fazer votos por que os protestos brasileiros relativamente às medidas canadianas não prejudiquem as negociações para o acordo de livre comércio nas Américas, que está a ser negociado e que vai ser implementado na Cimeira a realizar na Cidade do Quebeque. E o ministro brasileiro das Comunicações, Pimenta da Veiga, está já a pedir aos empresários canadianos com investimento no Brasil para que pressionem o seu governo a rever o boicote à carne brasileira. Pimenta da Veiga insinuou, mesmo, que o governo brasileiro poderá adoptar medidas de retaliação, caso o Canadá insista na sua posição.
Brasília insiste em que o boicote à carne - e a pressão junto do governo dos E.U.A. - é mais um capítulo na batalha de palavras e de
interesses entre a empresa canadiana Bombardier e a Embraer, em demanda do mercado internacional para jactos regionais.
Há uma frase que nos deixa perplexos. É que, no final de um encontro daquele ministro brasileiro com empresas canadianas com
investimentos no Brasil - a Bell Canada, por exemplo - houve palavras pouco amistosas para o Canadá. "O Brasil agirá no limite da lei. O Brasil é sério. E não vai descambar para outras acções como fez o Canadá", afirmou Pimenta da Veiga.
Isto é o quê? Será que o Canadá foi longe demais? Ou será que o Brasil, no extremar das posições de defesa dos seus interesses, fez
"jogo sujo"?
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