Cabinda não é, de facto, Angola. E se não é Angola, era bem capaz de o "passar a ser", não fora meia dúzia de elementos que,
conhecedores da verdade, não deixam os Poderes Públicos portugueses dormir de consciência tranquila. Cabinda não é, de facto, Angola.
Lembrando-se do seu passado, alguns jovens (e menos jovens) pegaram em armas. Estão,assim, a querer construir o futuro. Invocando o Tratado de Simulambuco, assinado de livre vontade pelos seus ancestrais, atiram com a maior parte das culpas das suas desditas de hoje para os ombros dos Portugueses. Que, ao fazerem as "manobras" para entregar aos chamados Movimentos Nacionalistas a rica Angola... esqueceram Cabinda. Ou melhor, rasgando os contratos feitos por altura da Conferência de Berlim, integraram abusivamente Cabinda no Estado de Angola.
É mais uma vergonha de alguns Portugueses. É mais uma desonra para o bom povo português que, de facto, nada tem a ver com isso. Enquanto povo... nada tem a ver com isso, entenda-se.
Só que há ainda, felizmente, entre os Portugueses muitos que sabem que Cabinda não é Angola. Que sabem ler o tratado de Simulambuco. Que entendem valer a pena lutar por causas justas. Um deles vive agora no Brasil, é sociólogo de boa cepa, e conheceu o problema. Está agora a inundar, e ainda bem, as chancelarias internacionais com a cópia (e a razão) do Tratado de Simulambuco. Tem 75 anos e parece um jovem. Apaixonou-se pelo tema. Vive o drama do povo cabinda. Entende os "ais"
de uma agonia que os cabindas não merecem.
Lá dentro, floresta densa, há jovens cabindas que lutam. E que tentam fazer valer os seus direitos. Há nove meses, sequestraram três
portugueses que trabalhavam numa empresa de construção. Servem-se deles como moeda de troca. Querem apenas que o Governo Português reconheça ter errado, quando negociou Angola. Querem apenas que se dê uma "razão" lógica à "razão" que fez aos seus ancestrais assinar com Portugal - através dos oficiais da corveta "Rainha de Portugal" - um acordo de "protecção".
Sequestrar pessoas é bem capaz de não ser um acto legítimo. Mas também não será legítimo entregar todo um povo a um jugo que o próprio povo não quer. Para já, são os próprios portugueses sequestrados em Cabinda que estão a apelar à intervenção da classe política para que os resgatem. Sérgio Alves Fidalgo, um dos sequestrados, em declarações à Rádio Renascença, criticou o silêncio da classe política em relação a este caso, afirmando que nenhum dos três portugueses sabe porque razão foi raptado pela Frente de Libertação do Enclave de Cabinda/Forças Armadas de Cabinda (FLEC/FAC). Sérgio Fidalgo, Manuel da Mota Nunes e Marco Paulo da Costa Santos, estão a viver há nove meses nas matas de Cabinda "sem quaisquer condições de vida", sem água potável, alimentando-se "à base revolucionária"..
A FLEC/FAC, que não aceita a soberania de Angola sobre Cabinda, mantém desde Maio do ano passado os três portugueses e um angolano como reféns, exigindo o cumprimento do Tratado de Simulambuco, que no final do século XIX estabeleceu a protecção dos reinos de Cabinda por Portugal. Querem, afinal, que todos os que podem - e falam em Almeida Santos, Durão Barroso e Mário Soares - "ajudem o Governo português a corrigir os erros do passado", colocando a questão de Cabinda de novo na agenda política nacioal. Só que António Guterres está a escusar-se a tomar uma atitude. De cócoras perante o Governo do Futungo de Belas
- que só por diletantismo é considerado "governo legítimo" daquele país - muitas das autoridades portuguesas não querem actuar.
E, no entanto, ao ler o tal Tratado de Simulambuco destaca-se o facto de a referida situação de protectorado ter resultado de uma
declaração voluntária dos delegados da Nação cabindense que se colocavam sob a protecção de Portugal, que, por seu turno, nesse mesmo acordo bilateral, assumiu o compronisso formal de auxiliar e proteger os seus habitantes, obrigando-se a manter a integridade dos territórios sob protectorado. Uma cláusula diz, textualmente, que Portugal respeitará e fará respeitar os usos e costumes dos povos Cabinda.
Proteger os povos de Cabinda - como Portugal se comprometera - era levar os representantes desses mesmos povos, cujo território nem sequer confina geogràficamente com Angola, em 1974, a Alvor. Para discutir Cabinda. Para discutir Angola.
Mais uma vez... Portugal vai dormindo. E nem sequer tem pressa em acordar...
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