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Fernando Cruz Gomes




Uma viagem de efeitos já vistos...


Jorge Sampaio já deve estar de malas aviadas. Nos últimos dias do mês de Maio, aí o temos nós, no Canadá grande e frio, a visitar algumas das cidades onde a presença portuguesa mais se faz (ou fez) sentir. Uma viagem minuciosamente preparada pelas entidades responsáveis - o Ministério canadiano dos Negócios Estrangeiros - e com uma ou outra incursão, quase pela "porta do cavalo", por parte de entidades portuguesas. Ainda que se diga o contrário, a responsabilidade do programa é, de facto, canadiana.

Uma população de origem portuguesa de cerca de meio milhão de pessoas é bem capaz de ter influenciado, decisivamente, o itinerário presidencial. É que metade dessa gente tem ou pode vir a ter (pelo menos potencialmente) capacidade eleitoral no Canadá. O que dá uma outra dimensão ao caso.

Em termos portugueses, o chefe supremo da Nação vem encontrar uma comunidade a atravessar uma fase de nítido "não te rales...", face ao descaso que os poderes públicos especialmente de Lisboa, mas também de Ponta Delgada e do Funchal, põem em prática na relação aos casos e factos locais de interesse para os de cá. Não lhe perguntam, mas poderiam perguntar onde estão os apoios ao ensino de Português nesta parte do mundo, face, por exemplo, ao que se passa na Europa. Não o interrogam, mas, de facto, poderiam fazê-lo sobre o que se passa nos Consulados locais, onde a informática chega (toda vinda de Lisboa, imaginem)... mas não chega para as encomendas.

Muitas questões se levantam, assim, a uma comunidade que está, como sempre, a sacrificar ao "Portugal da saudade", mas nada vê em termos práticos no seu apetecido relacionamento com Portugal.

Jorge Sampaio é bem capaz de não ter culpa disto. Mas há, de facto, cá onde custa mais ser Português, uma onda muito viva de descrença em tudo o que venha de Portugal. Uma onda que, de quando em vez, tem fases menos visíveis (porque atenuadoras desse estado de espírito) com responsáveis consulares que levaram a sério a sua missão e trabalharam com denodo, em termos de Cultura e de relacionamento humano. Muitos lembram o nome de António Montenegro, um cônsul de mão cheia, a quem nem deixaram terminar o tempo de serviço, já que o transferiram para Lisboa, para missão onde poderá ser útil, mas... sem acabar a missão que por cá gozara, e que ninguém teve coragem para continuar.

No meio disto tudo, há umas "bolsas de resistência". Compostas por meia dúzia de "folclóricas personalidades" que vão a todas e que, ao pôr-se em bicos de pés, fazem crer que são líderes comunitários. São poucos, mas há, de facto, alguns...

E mesmo que uma ou outra comenda, já entregue ou a entregar, dêem o tal "rebuçado" que muitos querem, não chegam para tapar o fosso, e grande, que se vai cavando entre as comunidades da diáspora do resto do mundo, até porque, pela Lusa e outros órgãos de Informação, se vai sabendo que na Europa... o "baile" é outro. Sobretudo em matéria de Ensino e de refrescar da Cultura Portuguesa. Temas que, por cá, não deixam rastos nem sombras.

Evidente se torna que Jorge Sampaio nada tem a ver com isso. Mas que "come pela tabela", lá isso não restam dúvidas. Os que o forem ver - e só ver, claro - em Montreal, Toronto, Otava, Vancouver, Winnipeg e São João da Terra Nova... fazem-no ainda para sacrificar ao tal "Portugal da Saudade". Dele nada esperam... porque é já muito longo o tempo de um certo ostracismo a que a classe política de Lisboa votou as comunidades do... resto do mundo.

E mesmo que se lembre o quinto centenário da viagem de Gaspar Corte Real à Terra Nova - de que muito se vai falar - a verdade é que os Portugueses de cá há muito que vêm levantando essa bandeira. Mas por si só. Sem suporte (mesmo científico) das universidades. Ou dos grandes orgãos de Informação portugueses que se esquecem, paulatinamente, de uma comunidade operosa (e numerosa) como a portuguesa do Canadá e de um país humanista e de rosto humano como o é aquele que o Corte Real ajudou a descobrir.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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