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Fernando Cruz Gomes




América em Guerra - O gigante acordou...


Emoções fortes. Loucuras de quanto baste. A tragédia que se abateu por sobre Nova Iorque está a fazer vir ao de cima a parte mais mesquinha de que o homem se reveste. Horácio, um poeta satírico latino, que viveu antes de Cristo, dizia que "a ira não é mais do que uma loucura momentânea". E acrescentava, como que em conselho: "Por isso, controla a tua emoção, ou ela controlar-te-á". E as emoções, de um lado e do outro, estão, de facto, a controlar-nos.

Assim, aí temos nós, montado, o cenário de mais uma confrontação militar de grande envergadura. A um acto sem classificação nos dicionários da moderna civilização, vão os E.U.A. responder com um outro acto não menos criticável. Sobretudo se, como se receia, o Pentágono e os seus falcões se decidirem, não apenas por lutar contra os responsáveis pelo "11 de Setembro", mas também contra os países onde eles se encontrem. Vão cair muitas vidas inocentes, iguais, afinal, àquelas que tombaram... quando cairam as torres e o invólucro visível do Pentágono...

A verdade é que Ben Laden é já o "suspeito n.º 1". Daí a ser o homem a abater vai um passo. Um passo com o qual todo o mundo, pelos vistos, concorda. Não se concorda é com a ideia de o ir matar... onde ele estiver com uma guerra em grande escala, que necessàriamente vai fazer correr muito sangue entre povos inocentes.

QUEM É O "MONSTRO"?

Ben Laden parece ser, de facto, um monstro criado, senão pelos Estados Unidos, pelo menos por alguns dos seus aliados. Segundo John Cooley, jornalista americano, autor de "Guerras Profanas", um livro que fez furor, aquele terrorista saudita (por nascimento) é a parte visível de uma coligação dirigida pela CIA que fez ricochete. Em 1979, a Administração Carter recrutou e treinou um autêntico exército de mercenários para derrotar os soviéticos que estavam, então, no Afeganistão. Havia por lá muçulmanos de todo o mundo, incluindo americanos. Os recrutas eram treinados por gente da CIA. Para além do Paquistão, que estava interessado na operação, para ter as costas relativamente quentes, a Arábia Saudita injectou grandes quantidades de dinheiro, sobretudo quando entrou em cena.... Ben Laden.

Talibãs no Poder. Directa e indirectamente apoiados pelo tal exército financiado e apoiado pelos Estados Unidos. Só que, ao verem quão impopulares são os talibãs no seu próprio país, os EUA tiraram o tapete a Ben Laden. Mudaram a política e Ben Laden... começou a ser considerado um monstro. E, no entanto, ele é um produto de uma coligação de interesses dirigida pela CIA, no Afeganistão. Uma coligação que se virou contra a América e contra os países ocidentais.

MAS... HÁ MAIS

O jornalista do "Diário de Notícias", Manuel Ricardo Ferreira, colega que muito prezamos desde os tempos de Angola e da sua passagem pela RTP, citava, há dias, o "The Independent" para dizer que a utilização de linguagem codificada num alerta recebido pelos serviços secretos norte-americanos durante os ataques terroristas levanta suspeitas sobre a existência de uma "toupeira" na Casa Branca. Nessa altura, ao que parece, os agentes policiais disseram ao vice-presidente Cheney ter sido avisados de que um helicóptero carregado de explosivos se dirigia para a Casa Branca. Mais tarde, os agentes que acompanhavam o presidente - e que já tinham sido alertados pelos seus colegas - receberam outra "dica" indicando que o próximo alvo seria o Air Force One (o avião presidencial). A linguagem codificada, própria dos serviços norte-americanos, dava credibilidade ao alerta. Face à linguagem utilizada, adivinhava-se que os terroristas tinham conhecimento da agenda e do paradeiro do presidente...

Os trágicos acontecimentos que seguiram parecemdemonstrar que não há ninguém que esteja actualmente a coberto de ocorrências como as que acabam de enlutar os americanos e todo o mundo civilizado. É a prova da insegurança mundial. A tranquilidade parece ter acabado. Como foi possível?

TERRORISTAS BONS E... TERRORISTAS MAUS

E a resposta vai ser, de facto, terrível. Estamos todos (quase todos...) a criar um conceito de terroristas "bons" e terroristas "maus". Conceito que vai frutificar - no seu pior sentido - muito em breve. Sim, por que responder à barbárie dos ataques a Nova Iorque e Washington com ataques militares fortíssimos - como se depreende das palavras de Bush e dos seus homens - até ao coração do Afeganistão não vai deixar de ceifar muitas vidas inocentes.

Se fizermos todos o mesmo que os terroristas fizeram nas Torres e no Pentágono, isto é, ceifar vidas inocentes, estamos todos a exercer uma vingança mesquinha e estúpida que só pode ser mãe de outras vinganças estúpidas... que são capazes de não tardar. Infelizmente.

Assim não será, no entanto, se encontrarmos o alvo certo da nossa ira. Isto é, desconbrir os criminosos e aniquilá-los. Não todo um povo. Porque, de facto, nós gostamos de tomar uma bebida em esplanada rumorejante da cidade onde vivemos. E não temos culpa de, ali ao lado, morrar eventualmente um terrorista que soprou o rastilho da tragédia do "11 de Setembro".


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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