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Fernando Cruz Gomes




O tempo novo


O mundo nunca mais será igual. E mesmo que haja muita gente a pensar como pensava em 10 de Setembro de 2001, a verdade é que o mundo pulou e está a avançar. Trata-se de um tempo novo. Em que se deveriam exercitar outros valores e outras formas de encarar ideias. Talvez com mais solidariedade e uma sensibilidade mais de acordo com os novos tempos. Porque, de facto, estamos a caminhar para "novos tempos" que já começámos a calcorrear.

Estamos - pensamos nós - num tempo em que importa abjurar a mentira, deixar de sacrificar a uma mediocridade que nos atola. Depois de 11 de Setembro, o mundo tem de saber olhar o futuro sem os óculos que só os poderosos e os ricos poderiam adquirir.

Importa, por isso, olhar o terrorismo com outra forma de ver. O terrorismo religioso e o terrorismo ideológico, sim, mas igualmente um certo terrorismo financeiro, empresarial e até político. Um crime hediondo que bem pode ser considerado contra a humanidade, como foi o que aconteceu em Nova Iorque e Washington, não pode ficar impune nem deixar o mundo à mercê de quantos, "saltimbancos" sociais, pretendem vender agora uma certa "moralidade" caduca que já não pode agradar a ninguém.

Em todos os países, expurgam-se agora certas liberdades até aqui "intocáveis", a não ser através de actos terroristas. No Canadá - campeão, até há pouco, das liberdades individuais - há leis que vão ser retocadas para impressionar os que sofreram com o 11 de Setembro e para começar a apertar uma geringonça legal que nem sempre funcionava, tanto que deixou entrar terroristas e aprendizes de terroristas. A partir de agora, qualquer cidadão pode ser detido por três dias sem culpa formada. Basta que a Polícia ache que "vale a pena" para descobrir este ou aquele indício... o resto virá a seguir. E alguns agentes da Polícia nem sempre têm os meios (e até a moralidade) que lhe permitam prender... só os que "parecem estar preparados para cometer um crime..."

Neste "tempo novo" que estamos a viver, não há tolerância.
Ninguém a advoga. Poucos a entendem e muitos vão bater palmas ao "apertar da tarracha" que está em curso um pouco por todo o mundo. Os mais velhos entendem, estão a entender, que a sua vida não foi boa - mesmo com guerras mundiais e consequências nucleares e não só - mas acreditam, infelizmente, que a dos seus filhos e netos vai ser ainda pior. Os "espantalhos" que já se levantam e a "caça às bruxas" que vamos espreitando são a certeza perene de que o mundo mudou...

E se a mudança não se operar com um mínimo de "suporte moral", é certo e sabido que estamos a abrir uma "caixa de Pandora" que ninguém deveria querer abrir...


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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