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Fernando Cruz Gomes




Português... de corpo inteiro


A emigração é, de facto, fértil em situações e sentimentos. Por muito que se queira, um português emigrante (com i) da França não é igual ao do Canadá ou Estados Unidos. E se houvesse alguma dúvida, no espírito do cidadão em si, lá estaria o Governo - neste caso, o Governo Português - a lembrá-lo a toda a hora. É só consultar os montantes financeiros que se atribuem ao ensino de Português para França, por exemplo, e compará-los com os do Canadá, da Venezuela ou Argentina.

Se juntarmos a este exemplo, o "interesse" que os sucessivos Governos - não apenas o actual, socialista - votam aos problemas dos (então) emigrantes da Europa e do Resto do Mundo, anotaremos logo a discriminação. Com todas as letras, discrimina-se uma parte dos Portugueses residentes no estrangeiro em relação a outros.

Posto isto, era preciso termos dotes de sociólogo, que não temos, para justificar que cidadãos do Canadá e Estados Unidos, por exemplo, prefiram ser tratados ou por portugueses residentes no estrangeiro ou por luso-canadianos e luso-americanos. No terreno - cá onde custa mais ser Português, não esqueçam... - pode acontecer que haja razões diferentes, atendendo a que emigrantes são todos os que vêm de fora para dentro. E há gente de todas as condições, raças, "educações" e origens. Mas fora, no contexto português ou mesmo até já hoje no contexto brasileiro, há um desleixo doentio em tratar de problemas que poderão eventualmente mitigar as dificuldades iniciais designadamente de adaptação.

É evidente que há, também, particularidades. A dos que vêm de determinadas regiões, como será o caso dos Açores e (segundo parece, mas sem certeza) de alguns lugares do Nordeste brasileiro. Todos (ou quase todos) vêm com a ideia de arranjar dinheiro "para voltar à terra". No caso dos açorianos, essa ideia acaba mais cedo. Dura um ou dois anos. Nos continentais, é capaz de acompanhar quase toda uma vida, ainda que muitos a não consigam concretizar...

Vale a pena repetir que o tema seria óptimo para um estudo de sociologia. Não para um artigo (simples) "a vol d´oiseau" de um Jornalista.

Então em que é que ficamos? Sentir-se identificado com o país de acolhimento não significa ignorar a sua (outra) cidadania como português com os inerentes direitos e deveres? Claro que não. E, por outro lado, a saudade e o interesse, o amor e a "angústia de não poder voltar" acompanham muitos pela vida fora. Há quem diga - e nós já o escrevemos - que a "alma" do Povo Português está mais "visível" nas aldeias de Portugal, nos Açores e nas comunidades de portugueses (emigrantes) residentes no estrangeiro.

O emigrante não esquece a sua identidade. Ou melhor, a sua dupla identidade. Por cá, entende o avançar do País, joga com as "nuances" económicas, e não só, do dia-a-dia. Mas fala o Português em casa, privilegia a Igreja portuguesa onde se sacrifica à tradição de lá, no restaurante tenta beber o vinho de lá, aborrece-se quando vê ser negada a entrada nos cabos da RTP, funga a sua saudade quando ouve (ou canta) o seu Fado. E é do Benfica ou do Sporting, como é do Maple Leafs ou do Montreal Canadiens.

Somos, de facto, diferentes. E ser diferente... não significa mais do que isso. Quando um dia tivermos um Governo consciente que "saiba lidar" com a mentalidade dos que imigram... a situação é bem capaz de se inverter. E, em muitos casos, com vantagens nítidas para o Portugal longínuo, na distância que não na saudade.

Por nossa parte somos... luso-canadiano que quer continuar a ser Português. Mas num e noutros dos casos, canadiano e português de corpo inteiro. Não "a brincar". Não "às metades"... De corpo inteiro, repete-se.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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