Hoje como ontem, e certamente mais ainda amanhã, "a primeira vítima quando começa a guerra é a verdade". A frase é do senador
norte-americano Hiram Johnson, em 1917. Referia-se o senador à cobertura dos Jornais norte-americanos sobre a Primeira Guerra
Mundial, em que os Estados Unidos nem sequer entraram. A frase foi repescada para título do estudo "A Primeira Vítima", de Phillip
Knightley, um livro publicado logo a seguir à guerra do Vietnam, quando as feridas ainda não tinham cicatrizado.
A primeira vítima é, de facto, a verdade. Angola está em guerra desde há, pelo menos, 40 anos. Logo em 61, dizia-se que era "uma
guerra de polícia", para se iniciar, logo a seguir, a guerra de propaganda em que se afirmava que tinham sido mortos, hoje, 50, amanhã 100 e assim por diante. A fazer fé nas afirmações da Imprensa de época, controlada pela censura... já não haveria gente em Angola, tantos os "terroristas" então mortos.
Depois, a pouco e pouco, mudaram-se os ventos e mudaram-se as vontades. Um regime extremamente "afunilado" nas suas tendências, alcandorou-se a vencedor de algo parecido com eleições que, para evitar males maiores, até foram aceites. A dança das mentiras - a tal falta de verdade - fazia parte dos cânones que os (des)governantes foram tecendo frente aos angolanos. E curiosamente com uma certa bênção de areópagos como a ONU, etc.
31 de Outubro de 2001. Passam 9 anos sobre aquilo que ainda chamam "massacre de Luanda". Vitimada a verdade, a exemplo do que acontece em todas as guerras, ninguém falou no assunto e passados quase dez anos, ainda há quem finja não saber do que se tratou. Contamos, em poucas palavras. E contamos pelo resumo do relato da considerada insuspeita Amnistia Internacional. A 31 de Outubro de 1992 - escreve-se - desencadeou-se em Luanda um intenso tiroteio. Forças governamentais atacaram as residências e escritórios da UNITA. A PIR e a Policia, apoiadas por civis a que tinham distribuído armas nas semanas anteriores, procuraram elementos da UNITA, casa a casa..." Etc., etc.. O eventual leitor já tinha ouvido falar nisto? Talvez não, porque, de facto, quando a guerra começa, a primeira vítima é a verdade.
Pois, de facto, o massacre de Luanda marcou o início de muitos outros realizados pelos homens de mão de José Eduardo dos Santos nas cidades de Angola. Fala-se em que se saldou pelo assassinato de 50.000 angolanos. Entre eles, destacados dirigentes da UNITA, como o vice-presidente Jeremias Chitunda, o secretário-geral Paulo Mango Alicerces, o representante da UNITA na CCPM Elias Salupeto Pena e o chefe dos Serviços Administrativos em Luanda, Eliseu Chimbili. O seu crime foi o de se encontrarem na capital do país para encontrarem uma solução pacífica e negociada. Falava-se na segunda volta das eleições presidenciais. Os corpos nunca foram devolvidos às suas famílias.
Massacre sobre massacre... foram muitos os que se armazenaram. Sem que a ONU interviesse, a não ser para "bater" nas vítimas.
Agora, porém, parece haver quem queira olhar o caso... com olhos de ver. O arcebispo do Lubango afirmou em Fátima ter dúvidas em relação à "iminente vitória" anunciada pelo MPLA sobre a UNITA, defendendo que a "única solução" para o conflito é o "diálogo entre todas as partes".
Ao comentar as declarações do presidente José Eduardo dos Santos, que considerou as forças da UNITA "residuais", o presidente da Conferência Episcopal de Angola e S. Tomé defendeu que "esta guerra não tem solução militar".
Também o presidente do Movimento Pro-Pace angolano, D. Francisco da Mata Mourisca, defendeu agora a necessidade de se substituir a mentalidade da guerra pela mentalidade da paz, considerando que "fazer esta troca é um negócio inteligente".
Só que de inteligências abertas e acutilantes há uma falta confrangedora em Angola e o 31 de Outubro de 1992 veio cavar ainda
mais o fosso entre os que acreditam na paz e os outros que só vêem a guerra...
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