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Fernando Cruz Gomes




Angola depois de Savimbi
Estavam mortos, mas já dialogam com Governo...


Angola parece viver em clima de "esperar para ver"com laivos "kafkianos" que não dão para entender. Ninguém sabe o que se vai passar e há indicações que chegam a parecer... pelo menos "incríveis".

Pelos vistos, a chamada segunda ronda de conversações entre os chefes das forças militares da Unita e gente graúda das Forças Armadas de Angola teve lugar na semana passada no Luena, Moxico. E por estranho que pareça, a avaliar pelo que Luanda diz - e se Luanda diz é capaz de não ser verdade... - esta segunda ronda contou com a participação de Marcial Dachala e de Alcides Sakala, este secretário para as Relações Externas, que era dado como morto.

Alcides Sakala estava "morto" nos anais do Governo do Futungo de Belas. Deve ter ressuscitado, pois, pelos vistos, agora já vai às negociações. E anda até pelas ruas de Luanda.

Para já, estas conversações ainda com um certo "carácter exploratório" foram adiadas de segunda, 18 de Março, para quarta, 20. Teria sido a pedido dos rebeldes. Estes querem ver na mesa de negociações a maior parte dos comandantes da Unita que estão dispersos pelo "mato", por todo o território. O que não será fácil, a despeito de toda a boa-vontade de todas as partes.

Ninguém sabe o que se passou na reunião. Como ninguém sabe, ao certo, que tipo de reunião é esta que faz alinhar tudo e todos, sem cuidar de saber qual o grau de aceitação que os intervenientes têm junto da população.

"O Angolense", um jornal que ainda vai dizendo algumas coisas que nem parecem ser da "voz do dono", acentuava que uma das decisões que deveriam ser tomadas nas últimas reuniões - com os rebeldes a serem chefiados por Marcial Dachala e pelo secretário para as Relações Exteriores, Alcides Sakala - era a criação de distintas comissões conjuntas encarregues de contactar os chefes políticos e militares da Unita eventualmente ainda renitentes. Para já, um dos maiorais da Unita, o general Apolo, que chefia as forças rebeldes na região Norte, impôs como condição para a sua participação nas conversações no Luena as presenças de Lukamba Gato, Marcial Dachala, Alcides Sakala e Isaías Samakuva. Como não lhe garantiram a presença de todos, Apolo não se deslocou.

Entretanto, um porta-voz da chamada UNITA-Renovada para a Europa, Baltazar Capamba, acredita que "a médio prazo" o movimento do Galo Negro tem possibilidades de vencer eleições presidenciais. Acentuou ainda que a palavra de ordem agora é "reconciliação" entre todas as facções. Melhor será não falar muito nisso, porque se alguns espíritos do regime acreditam... é bem capaz de haver banzé... isto a despeito de se dizer que o actual PR angolano enviou um emissário a Paris - exactamente onde o sr. Capamba fez estas afirmações à Lusa - para conferenciar com Isaías Samakuva. Há um secreto desejo em que seja Samakuva, actualmente a residir em Paris, a assumir a direcção da Unita. São coincidências a mais...

Para já anuncia-se que, a exemplo de Lukamba Gato, Alcides Sakala e Marcial Dachala passaram um fim-de-semana em Luanda, onde reencontraram amigos e familiares.

Era tão bom que tudo isto fosse real. É que, sem querer, damos connosco a recuar até aos anos de 92. Também houve "encontros" e "reencontros". Só que, de um dia para o outro... embrulhou-se tudo aos tiros e houve quem tivesse de fugir de Luanda a bordo dum caixão.

Claro que os tempos são outros. Mas não deixa de ser verdade, também, que Savimbi tinha mão (de ferro, nós sabemos) nos seus homens. Á força. A chicote. Mas tinha. E hoje?


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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