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Fernando Cruz Gomes




Amigos e companheiros


O "3 de Abril" está ao virar da esquina. Já não há tempo para inverter a sua marcha. De contrário, éramos bem capazes de lançar um aviso (e solene) ao amigo e companheiro José Manuel Durão Barroso. Era capaz de não resultar. Quem estas linhas traça é, certamente, mais antigo no PPD/PSD do que o actual primeiro-ministro e já o avisou de coisas... a que ele não ligou importância nem pensa ligar. Não ia agora ligar também a esta ligação que se pretende fazer entre o "3 de Abril de 2002" (como data do estruturar do Governo) e o 3 de Abril de 1987.

É que a 3 de Abril de 1987 caiu o décimo Governo Constitucional chefiado por Cavaco Silva. Ele próprio, decerto, arquitectara um cenário que passava por uma moção de censura levada ao Parlamento português pelo PRD, que então tinha a "bênção explícita" do então Presidente da República. E a moção de censura foi aprovada por maioria. E o Governo caiu.

Naturalmente que depois dessa moção de censura, Cavaco Silva - outros tempos e outras "orientações", claro - ganhou as eleições com maioria absoluta.

Só que, de facto, já não há tempo. Nem o primeiro-ministro indigitado daria créditos ao aviso, enredado, como anda, nos "doutos" conselhos de tantos "impolutos" conselheiros que pretendem - com ligeiras excepções, nós sabemos - ir comer-lhe à mão, esperando as tais migalhas que escorrem da mesa dos senhores.

Sempre gostámos do José Manuel Durão Barroso. Sempre lhe admirámos a abnegação, o entusiasmo e, sobretudo, a "fé". É um homem cheio de "fé". Se as obras vão surgir ou não, é outro problema. E isto porque muitas dessas eventuais obras não estão nas mãos do primeiro-ministro. Nem talvez nas de alguns dos ministros que lhe estão mais próximos. Muitas delas vão ser travadas na A.R. Vão ser banidas da "ponte" entre o que se disse na campanha eleitoral e no dia-a-dia do Governo. Como veremos todos, se começarmos a olhar, a sério, para o "modus faciendi" das políticas do próximo Governo...

O "3 de Abril" de 1987 deveria fazer pensar. Deveria, sobretudo, fazer com que os intervenientes deste xadrês político que todos estamos a jogar sejam nìnimamente honestos e cumpridores do que assinarem. Este xadrês não pode ser jogado com mentalidades de salão sem ligações de alguma espécie ao povo real que sofre e cada vez mais.

Tudo indica que todos estão de acordo em que o governo não pode falhar. São demasiadamente visíveis as fissuras abertas numa sociedade como a nossa. É cada vez mais notório que a crise come à mesa com todos nós (mesmo daqueles que a não têm) e que está pronta para invadir todos os outros departamentos do nosso dia-a-dia.

Se não acordarmos e se não actuarmos a sério, naturalmente que um outro "3 de Abril" - em Agosto, Dezembro ou Março - pode surgir. E não há a certeza de que o povo, bem ao contrário do que aconteceu em 1987, queira de novo apostar neste Governo. No governo do amigo e companheiro José Manuel Durão Barroso. Que até parece simpático... mas não tem a firmeza que o seu antecessor social-democrata tinha. E "engana-se muitas vezes", contràriamente qo que acontecia com Cavaco Silva que "nunca se enganava..."


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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