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Fernando Cruz Gomes




Um Governo obrigado a agir


O Governo Português aí está. A esbracejar contra dificuldades mil. A olhar o além e as miragens que poderão ser traduzidas numa melhoria do estado geral da Nação. Miragens que, aos poucos, estão a ser menos miragens...e mais reais. Parece dramática a situação económico-social do país. Inverter a marcha das realidades económicas bem difíceis parece não ser tarefa fácil. E nem sequer pode haver o "engodo" de querer agradar... porque agradar, hoje, pode significar desagradar depois.

É que as "ondas de popularidade" atrapalham sempre um Governo. Quem quer agradar a um certo eleitorado, tendo em vista o horizonte imediato, acaba sempre por desagradar à maior parte do povo. É dos livros e ainda não há muito, em Portugal, houve provas mais do que evidentes de que os que tentam usar paninhos quentes na solução de problemas acabam sempre por se deixar enredar em tricas de comadres e... acabam por perder eleições.

Só que, este Governo que Portugal tem agora disse, desde logo, ser um "governo para quatro anos". E de tal maneira o disse que a Durão Barroso foi pedido que engolisse determinados sapos vivos... e desse a mão a um dos seus "inimigos de estimação". Se é um governo para quatro anos, não há que duvidar. Terá de desencadear a batalha da verdade. Falou em "apertar o cinto"? Pois que o aperte a todos. Que jogue com a mesma dinâmica na RTP, no Euro 2004 ou na Função Pública. Agora... porque, se o não fizer agora... arrisca-se a não o fazer, já que a meio do mandato, e como é dos livros, terá de começar a olhar para as próximas eleições... e aí mandar às malvas a tal necessidade de "apertar o cinto", até por voltar a precisar das tais "ondas de popularidade".

Não houve grande preparação do público. Falharam aí as assessorias governamentais que, por cada acção impopular - e tantas terão de ser tomadas - deveriam actuar no sentido de explicar, por notícias simples mas assimiláveis, que... seria para bem de todos a tal medida impopular. Falhou o grupo da frente da Informação estatizada. Bom será que não volte a falhar. Legitimar cortes e medidas de austeridade aos olhos do público - sobretudo em Governo que se diz e se pretende honesto - não é coisa difícil. Até por que o público, ao votar como votou, não há muito, sabe muito bem o que está mal e a quem assacar responsabilidades.

Para clarificar uma certa cena política, vamos ter, em breve, e bem visíveis, casos e factos que vão marcar uma determinada agenda pública. Para todos os gostos. Com um PS, agora algo comodamente, a virar à esquerda, demarcando-se das responsabilidade que lhe são assacadas pela situação em que deixou o país. E vamos ter o Governo a anular determinadas promessas feitas, já que - vai dizê-lo, e já o disse... - encontrou o país muito pior do que esperava. A quebra de certas promessas vai assim ser "justificada"...

E enquanto se espera pela comissão que vai apurar o verdadeiro défice de 2001... há quem abjure já este estilo de ser. Por muito que se confie no governador do Banco de Portugal, no Ministério das Finanças e no INE. É que até aqui... quando se não queria resolver um problema... criava-se uma comissão. Muito "sábia". Uma comissão que... fazia que andava sem andar. Se se começam a criar tantas comissões - e já anotámos várias - mão nos parece que cheguemos, algum dia, a resolver os problemas que têm estado a ser aflorados.

O público não esquece tão fàcilmente as coisas. Dizer, todos os dias, que é grave a situação mais não é do que aguçar o apetite do público por saber onde é que está mal... e o que é que se vai fazer para sarar as feridas. E isso tem de ser dito.

Mesmo que esteja ainda a conhecer os cantos à casa, o Governo tem de dar o exemplo da austeridade que diz ir implementar, do "apertar do cinto", do ponto final de um certo esbanjamento. Não estamos, por agora, em tempo de falhar.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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