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Fernando Cruz Gomes




A "privataria" da RTP


A "guerra" que o Governo Português decretou à RTP não parece séria. Vê-se mesmo - está na cara... - que se pretende servir interesses de terceiros à custa do erário público. O que é que desejarão quantos estão, agora, a tentar uma chamada privatização a que já ouvi chamar privataria (misto de privatização com pirataria) da RTP?

Ainda não há muito - corria célere o ano de 1999 - elementos do Grupo Parlamentar do PSD (agora no Governo) estiveram em audiência com a comissão de trabalhadores daquela estação televisiva estatal e reconheceram alguns dos erros cometidos pelo governo PSD. Mais do que isso, reconheceram a necessidade de se proceder a uma reestruturação profunda sem prejuizo do bom serviço que se prestava e sem alienar nada do que de bom por ali havia. O próprio PP, por essa altura, dizia o mesmo, considerando a RTP como um dos pilares do Estado e que a sua existência, com o actual figurino de capitais totalmente públicos, era em si mesma uma presença moderadora de interesses e lobbies na sociedade civil. Diziam...

Palavras bonitas. Que estão agora em contraste absoluto com o que este Governo - PSD e PP - está a querer fazer.

Até 1991, a RTP tinha uma situação económica mais ou menos equilibrada. A taxa de televisão - que o Governo PSD de Cavaco Silva cortou - dava cerca de 6 milhões de contos por ano (que hoje equivaleria a qualquer coisa como 16 milhões de contos).

Há dados que os políticos que têm entre mão a tarefa de matar a RTP - que é disso que se trata - deveriam saber. Saberão, por exemplo, que a extinção da publicidade no Canal 2 correspondeu a uma perda de cerca de 3 milhões de contos de receitas? Saberão que a publicidade no Canal 1 foi reduzida para 7,5 minutos/hora? Tudo isto, como é evidente, para beneficiar as televisões privadas?

Depois, há toda uma série de incumprimento de promessas. Em 2001, o governo prometeu 25 milhões de contos à RTP e só entregou 14 milhões. E como desses 14 milhões a RTP pagou IVA... ficou com menos de 12 milhões. A RTP tinha preparado o lançamento de um canal de notícias 24 horas por dia e só não avançou porque o governo socialista travou o processo alegando que iria prejudicar um canal de notícias que a SIC estava a preparar

Os prejuizos acumulados são de 50 milhões de contos. Pois, mas há mais de 10 anos, um ministro de Cavaco Silva achou por bem alienar os emissores da estação por 5 milhões e qualquer coisa. Desde então, todos os anos a estação aluga os emissores que eram dela por 5 milhões.

Se juntarmos a tudo isto, a montanha de "controleiros" que os sucessivos governos punham na RTP, por motivos óbvios, havemos de concluir que algo está mal nesta "medida de coragem" de um Governo feito com os votos do povo.

A questão da RTP está, assim, a ser um teste à credibilidade deste Governo de Portugal. E a avaliar pelas vaias que se ouviram no Jamor, quando da entrega da Taça de Portugal, por parte de Durão Barroso, acho eu que estamos a caminhar no sentido de saber que este Governo começa a andar mal.

É que, pelos vistos, há só um dossier, o da Contabilidade e das Finanças. Se a RTP erstá mal... pois fecha-se e dá-se de mão beijada tudo o que ela representa a uma concorrêncua berluscónica que tem muito de vandalismo social. E neste vale tudo em que estamos atolados, até já ouvimos Durão Barroso a dizer - já depois de ser primeiro-ministro, entenda-se - que vai "por fim à roubalheira". O que, se bem entendemos, vai começar pela RTP. Só que "roubalheiras" devem ser investigadas a sério. E pôr os biltres pelo menos na barra do Tribunal. Pois, mas por norma, os investigadores tentam saber, primeiro, quem beneficiou do crime. E nós também gostaríamos de saber.

Talvez que certos grupos económicos - Paes do Amaral, da TVI, e Francisco Balsemão, da SIC - estejam, de momento, a esfregar as mãos de contentes. É que, com este movimento, acabarão por ser retiradas à RTP qualquer coisa como 10 milhões em Publicidade.

Por isso, ainda acredito que o bom-senso prevaleça. É que "à mulher de César não é só preciso ser séria... é preciso que o pareça". E este governo, pelo menos por agora, não parece sério. Ai não parece, não.

UMA NOTA (QUASE) PESSOAL

Já me desabituei de escrever na primeira pessoa. Feitios. E a verdade é que a nota que aqui deixo à curiosidade dos eventuais leitores pode até trazer-me dissabores. Amargos de boca. Posso até perder uns determinados milhares de dólares. É que, a partir de agora, deste preciso momento, o Governo que temos em Portugal risca-me, certamente, da lista dos "eventuais colaboradores" da famosa RTP que, há uns quantos meses atrás, ainda me pagou meia dúzia de tostões por peças que eu fiz da vida e da comunidade portuguesa de Toronto, Canadá. Por excepção, nós sabemos todos, já que o Canadá não está no mapa dos interesses da RTP. Feitios de quantos por lá vão mandando...

A partir de agora, porém, é certo e sabido que não haverá mais peças (pelo menos feitas por mim). E isto por que eu hei-de tentar dizer, preto no branco, que o Governo Português ou não sabe o que está a fazer ou, então, pior do que isso, sabe... e continua.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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