A sua bênção, Pai! A frase foi ouvida em programa do que chamo de Portugal da Saudade que surge, de quando em vez, movido pela mestria dos que sabem que o "País real" ainda existe. Era um dos muitos madeirenses que vivem na Venezuela e que, face a face, pelo "milagre" televisivo, via o pai.
- A Tua bênção, Pai! O hábito perdeu-se no emaranhado dos tempos e foi-se finando com as primaveras que se transformaram, ràpidamente, em invernos. Foi-se finando... que querem?! E mesmo quando os mais velhos lembram o Passado, já não há muitos que a recordem e a tenham usado. E mesmo eu, perdido nas selvas difíceis da emigração, onde se joga o dia-a-dia da sobrevivência... já não tenho nos meus arquivos memoriais o conhecimento da frase e do conceito. De resto, ser-me-ia difícil lembrar, já que o pai se foi há muito, vive para lá da fronteira que divide a mansão onde os séculos dormem... Não fora o seu passamento e iria, hoje, pé ante pé... à cabeceira da sua cama de que já me não lembro... implorar-lhe a sua bênção, Pai!
Pai. Ficou apenas o Outro. O Maior. O Mais poderoso. O que tudo vê e tudo sabe... e que nunca mais morre, já que, mesmo quando da Morte, a Ressureição veio a seguir.
A Tua bênção, Pai! Quando os homens meus irmãos me atirarem dichotes, por eu ainda acreditar em Ti e me lembrar da frase que da Venezuela nos chegou, via RTP da nossa angústia, e mesmo assim achar que já não sou capaz de pedir a bênção... dá.ma Tu. Ensina-me a pedi-la. Insiste comigo em amarfanhar os preconceitos que este mundo nos atira e... dá-me força para eu Te pedir a bênção. Já só me restas Tu, porque o outro se foi embora há tantos anos.
Quando no emaranhado dos dias, os descuidados e pouco virados para a Tua realidade se encresparem contra nós, os que ainda acreditamos, chamando-nos botas de elástico e atrasados... a Tua bênção, Pai! Eu preciso dela. Não encontro outra forma de me ver livre dos meus medos e das minhas angústias, do meu querer voar sem asas e do meu olhar sem ver, para além da roupagem humana que Tu me deste, mesmo através dos progenitores que me puzeste no caminho. A tua bênção, Pai!
Aqui mesmo, quando a falanje dos que se põem em bicos de pés para que o mundo que Tu criaste os vejam. Quando os "espertos" da terra se entreterem a enlamear o caminho dos outros e mesmo assim dizerem que o fazem por amor à verdade. Quando houver mais Jornais que Jornalistas e mesmo assim haver quem teime em santificar conceitos. Quando os aprendizes de feiticeiro se entreterem a bancar de aprendizes de políticos. Quando nos sindicatos houver corrupções visíveis e invisíveis, na defesa de conceitos que são "tachos". Quando tudo e todos se encresparem contra os que só pretendem andar em frente, livres de peias que lhe põem no caminho... a Tua bênção, Pai!
Preciso dela. Entendo-a e anseio por ela. Bem vês, eu já nem tenho a outra. Nem essa bênção nem a do fantasma do amor maternal. Levaste-me ambos. Deste-lhes o desfino final... que me dizem já tens traçado para mim. Eu já não tenho o outro. Só te vou tendo a Ti e mesmo assim enevoado entre as minhas dúvidas e os meus sonhos, entremeados ambos por um emaranhado de névoas que se transformam em nuvens... que vão ameaçando borrasca.
A Tua bênção, Pai! Nem sei - é cedo para o saber - se os meus entendem este arrazoado. Nem sei se eles algum dia interpretam esse pedido de bênção como algo que vem dos arcanos da História, atravessa os séculos e é capaz de ser, afinal, a Tua directriz de quando, segundo a Bíblia (e não só) criaste o Homem à Tua imagem e semelhança, mesmo tirando-o do barro. E lhe insuflaste ânimo e alma... com o sopro da Bênção, que agora Te peço.
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