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Fernando Cruz Gomes




"Saneamento político" ou... vingança?


Um novo caso de intolerância. Talvez mesmo de saneamento político. Quem sabe se será até um caso de vingança pessoal cujos contornos por enquanto se desconheçam! A verdade é que há um diplomata de carreira que desde que este Governo tomou posse tem vindo a ser preterido. E de tal forma que está em casa, sem trabalhar, há quase três meses. Chama-se António Montenegro e o único "crime" que "tem" na consciência é o de ter sido um leal chefe de gabinete dos dois últimos secretários de Estado das Comunidades Portuguesas, no governo de António Guterres.

José Lello, primeiro, e Rui de Almeida, depois, confiaram na sua forma de trabalhar e de se apaixonar, afinal, por tudo o que às comunidades diz respeito. E o mais curioso é que, se se lhe conheciam inclinações políticas... elas pareciam ir todas no sentido de apoiar os actuais senhores do governo PSD/PP.

Pois é, mas o actual ministro Martins da Cruz não gosta dele. A quem estas linhas traça, disse mesmo um alto funcionário das Necessidades, que não quis ser identificado, que "o ministro não gosta dele", já que ele "serviu os outros senhores".

António Montenegro, que esteve em Toronto, como cônsul-geral de Portugal, de 1995 a 1998, fez na grande cidade canadiana, especialmente (mas não só) entre os portugueses, uma obra notável, no domínio de apoio à Cultura e à boa maneira de lidar com os que a Pátria às vezes esquece. Que o digam os reclusos, com quem o cônsul almoçava pelo Natal. Que o digam os jovens, a quem ele juntava em discoteca. E os idosos, com quem se encontrava e confraternizava em época natalícia. Que o digam quantos lhe viram trazer ao de cima nomes e figuras que, mesmo tendo partido para lá da vida, deixaram obra de truz e era preciso homenagear. Casos de Eovaldo Moniz e de Alberto de Castro são paradigmas da forma como António Montenegro actuava no meio da comunidade.

Teria sido por isso, pelo muito prestígio que grangeou na comunidade portuguesa do Canadá, que José Lello o veio buscar para seu chefe de gabinete. Roubou-o a uma comunidade que ainda hoje tanto precisa dele. José Lello saiu mas o decerto bom trabalho do diplomata, relativamente às comunidades, fez com que Rui de Almeida o convidasse para ficar.

Os tempos mudaram. Os partidos que serão até mais próximos das suas inclinações políticas - e só dessas, porque não se lhe conhece filiação alguma - formaram Governo e penalizaram-no. Saída a lista das nomeações do Ministério dos Negócios Estrangeiros, o nome de António Montenegro não aparece. É mesmo um dos dois únicos que... foram esquecidos. E se foi esquecido, agora, decerto que vai continuar em casa... nos próximos meses, talvez mesmo anos.

É, no mínimo, uma vergonha. Um desperdício. Uma afronta. Ninguém entende o "porquê" desta animosidade, mas, de facto, "o ministro não gosta dele", mesmo conhecendo bem "a obra devotada que ele deixou por onde passou". Não gosta dele, pronto. Um diplomata daquele gabarito fica assim impedido de dar o seu contributo às causas em que acredita.

Um saneamento político? - Chega a parecer. Talvez pior que o de Seixas da Costa, já que a este ainda nomearam para um lugar compatível com as suas funções. A António Montenegro... deixaram-no em casa!

Parece entender-se, assim, por estas e por outras, a nota negativa que, em sucessivas sondagens, os Portugueses estão a dar a Durão Barroso. Com ministros como este sr. Martins da Cruz, não há "bons ventos" que lhe cheguem. Bem ao contrário.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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