Os 50 anos da Emigração (oficial) portuguesa para o Canadá têm de ser comemorados. A efeméride vive-se no ano 2003 e devemos ter a "ousadia" de abrir aos olhos dos "outros canadianos" toda uma série de "actos heróicos", a jeito de epopeia, de quantos para aqui vieram, arrostando com dificuldades enormes. E têm de ser comemorados com a pompa e a dignidade que os nossos pioneiros da emigração merecem.
Como se sabe, a 13 de Maio de 1953, vieram 78 continentais, a bordo do "Saturnia", vindo, ainda, dez dias mais tarde, a 23 de Maio, 14 açorianos no "Vulcania". A 2 de Junho de 53, veio, então, o grupo (até ali) maior, com 101 da Madeira, 1 do Porto Santo e 1 do Continente. Era início de uma emigração que deu - está a dar - os seus frutos.
O Governo Português, mesmo com a desculpa das actuais dificuldades financeiras, não pode, de forma alguma, alhear-se do acontecimento. Como não poderá, até, noutros domínios, o próprio Governo Canadiano fazer de contas que não sabe, que não conhece. Um e outro dos Governos deveriam por isso, talvez, dialogar entre si, estabelecendo parcerias, se for caso disso, para uma comemoração condigna e enunciadora do muito que foi feito em prol dos dois países. Ficarmo-nos só na "bondade" do país de acolhimento ou no "deixa andar... que eles fizeram a sua vida" não será mais do que "sacudir a água de um capote" que é (ou deveria ser) de todos nós.
De momento, e ao que sabemos, estão a ser organizadas actividades destinadas a lembrar a efeméride. Fala-se em concursos. Em festivais. Fala-se em tanta coisa que, às vezes, ficamos na dúvida se seremos capazes de levar a bom porto a barca agora já lançada à água.
Era importante que ao Governo Português não sobejasse "vontade de fazer", mas antes fizesse. Como seria importante que o Ministério canadiano ligado à Cidadania e à Emigração abrisse os "cordões à bolsa" e dissesse da sua justiça...
E, no entanto, como haveremos todos de ver... os nossos governantes de um lado e do outro vão fazer de contas que não notaram... não viram... nem sabiam que havia essas comemorações. O certo é que, no nosso ponto de vista, para celebrar o 50.º aniversário da abertura oficial da emigração portuguesa para o Canadá, efeméride a completar-se em 2003, não deverão ser apenas os que por cá estão.
Interessante foi verificar que as reuniões exploratórias da vontade de levar a cabo as necessárias celebrações tiveram lugar no First Portuguese, a primeira associação que a vontade dos Portugueses fez nascer por cá. Várias iniciativas foram abordadas. Uma das coisas que parece estar mais ou menos "de pedra e cal" é uma conferência internacional levada a cabo por entidades académicas de York e Toronto, que se integrará no programa geral comemorativo.
Tudo visto, parece haver, entre nós, quem se interesse. Resta saber se o esforço que a comunidade está a pôr em foco... será o suficiente. Cremos bem que não e esperamos que os Governos Canadiano e Português possam saber que o problema é também deles e que 50 anos de emigração de um povo que ajudou a construir cidades e a levantar economias merecem comemorações adequadas. Até para que os vindouros saibam interpretar como deve ser o esforço dos "bisonhos emigrantes" que vieram de longes terras para aqui refazer a sua própria vida. E que, pelo caminho, deixaram erguida uma verdadeira epopeia que ninguém parece ter entendido na sua verdadeira dimensão.
Alguém disse que uma sociedade que não lembra o Passado não merece ter Futuro. Não seremos nós que negaremos a asserção. Sobretudo, aqui e agora, quando anotamos em cada dia que passa, as muitas razões que a comunidade luso-canadiana tem para celebrar o Passado.
Lá para cima, na Nova Scotia, mais precisamente em Halifax, há o Museu da Saudade (Pier 21). A saga dos pioneiros está ali perpetuada. Há até a ideia de fazer erigir, talvez, um monumento aos pioneiros portugueses, também em Halifax, porta de entrada dos primeiros portugueses da chamada "emigração oficial". A ideia, segundo soubemos, está agora nos horizontes de vários elementos que fazem parte da comissão que vai estudar a comemoração dos priomeiros 50 anos da emigração oficial portuguesa.
Só não sabemos, ainda, o que será feito, quer pelo Governo Português, quer pelo Governo Canadiano. E isso é algo angustiante...
Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário/pergunta para o autor. Fernando Cruz Gomes tentará, dentro da sua disponibilidade, responder às questões colocadas. Participe!Envie a sua opinião/questão. Será aqui publicada.