O momento que Portugal atravessa é, sem sombra de dúvida, passível de fazer vir ao de cima, um certo estatuto de coragem que nem todos têm. Coragem de arrostar com as dificuldades que eventualmente desencadeie. Coragem de ser "politicamente incorrecto". Coragem de chamar os bois pelo seu devido nome. Sem olhar aos fatos políticos que enverga ou aos "amigos do partido" que tem. Não sabemos é se, entre os analistas políticos, há muita gente que tenha essa dose de coragem.
O que se sabe acerca do orçamento de 2001 faz vir ao de cima um certo ar de revolta. De vergonha. Sobretudo porque se chega à conclusão de que os seus autores, se vivessem em determinados países, se a sua conduta fosse pautada pelo que acontece, por exemplo, em certas empresas, estariam sem dúvida a contas com a Justiça. Porque, pelos vistos, esses mesmos autores, com malabarismos contabilísticos, atiraram o País de pantanas para a berma da estrada da falência.
E isto, que é verdade (quase) axiomática, não deve permitir que a toda a hora os senhores do Governo atirem pedras (e algumas bem pesadas...) a uma oposição que era então Governo. Pautar a política nacional com ideias de culpa e de contra-culpa não dá pão a ninguém. Tão pouco anula o que está feito nem abre veredas para melhorar o que ainda pode ser melhorado.
Há quem diga que este Governo que temos não tem lançado medidas (muito) impopulares nem tem feito trabalho governativo demasiadamente negativo. As suas medidas legislativas vão, até, no sentido de corrigir desmandos antigos. Só que não sabe "vender o peixe". Não consegue fazer chegar ao "zé povinho" a sua mensagem. E pensa que só por bater no Governo anterior... o povo entende a bondade das suas tomadas de posição. O que nem é verdade.
Ora, se o combate ao défice público é uma das grandes prioridades do Governo, importa que nessa luta haja um acompanhamento do povo. E isso só se consegue se o povo estiver informado. Tem de se dar a conhecer - atempadamente, se possível - que há um aviso de Bruxelas que não deixa margem para dúvidas. É que o anterior Executivo ultrapassou, de facto, o valor máximo previsto pelo Pacto de Estabilidade. Para além disso, triplicou a previsão inicial para o desequilíbrio das contas públicas. Não há assim margem alguma para o laxismo, para o deixa andar. Este Governo tem de diminuir o défice público em 2002.
Como conseguir o milagre? Não sabemos. E o mais complicado é não sabermos se há alguma santa no céu com o nome de Manuela. Mas como se acredita que Deus ainda é Português - todos os dias o vamos provando - pode ser que haja possibilidades de fazer parar o relógio de uma certa falência que estamos quase a atingir. O que vai custar os olhos da cara em sacrifícios de toda a ordem aos portugueses de todos os quadrantes. Vão-se os aneis, sim… mas talvez fiquem os dedos. E mesmo isso é ainda pouco claro.
De qualquer modo, quem governa… tem de decidir. E bom será que saiba "vender bem a sua imagem". E que o povo entenda a quantidade de remédios amargos que vai ter de tomar - neste ano e em 2003 - para conseguir debelar a doença que o consome. Para evitar a morte, tudo será melhor... É que os vizinhos - alguns vizinhos... - já esfregam as mãos. E já mergulhámos, até, em certa polémica em que se diz que o primeiro rei de Portugal não foi Afonso Henriques, mas sim um tal D. Garcia, que era (também) rei de Castela...
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