Uma pepineira. Daquelas de trazer por casa. E de atestar ao mundo que estamos mais virados para a "feira de vaidades" permanente do que para a realidade em que valeria a pena investir dinheiro e criatividade (os termos não se equivalem, não).
Há dias, vimos pela Televisão pública a mesquinha propaganda de um "estado geral calamitoso" a que chegou a nossa gente. Em Monção, houve festa de emigrantes. Com muita gente a "pôr-se em bicos de pés". Com muito "fala só". Com pirosice ao domicílio. Com... o passado a sobrepôr-se ao presente. Um horror e uma lástima.
E a nossa RTP cobriu aquelas... duas horas. A nossa RTP, não. A nossa RTPi... que é outra coisa. O triste espectáculo só ganhou um pouco de nível, quando José Cesário apareceu e falou em coisas... que vale a pena falar. Até ali era (só) o folclore. E uns quantos senhores a bancarem de emigrantes, eles que ou já o não eram... ou pertenciam a uma classe que já não há. Sim, porque emigrantes daqueles... já pertencem ao passado.
Naturalmente que a nossa gente - em Paris como em Toronto e em Dusseldorf como em São Paulo - também vivem com aquilo. Também se "encharcam" nas ondas da saudade com muitos garrafões à mistura e muitos pèzinhos de dança. Fazem-no, porém, de parceria com muita outra coisa. Festivais iguais àqueles temos por cá muitos... muitos.... muitos. Só que entremeamos tudo aquilo com muita outra coisa. É que já vamos tendo economistas de primeiro a gerir bancos e negócios de ponta. Já temos cientistas a olhar de cima para baixo as doenças e as "mèzinhas". Já temos nos Governos gente nossa, que ainda vai às nossas festas, passa pelos nossos cafés e entende a nossa linguagem.
De resto, se a um qualquer jornal da diáspora dessem a possibilidade de ter duas horas de exposição televisiva... decerto que fazia melhor trabalho e mais visível apresentação do mundo da emigração.
Emigrantes (assim) já não existem. E se existem são muito poucos... e já não constituem as maiorias para as quais é preciso trabalhar.
José Cesário, que esperamos não tenha colaborado com aquela (quase) mistificação, com dinheiros públicos, sabia, decerto, que estava ali "vendido". E foi por isso que puxou à baila... temas que têm "sumo". O investimento. A forma de tratar os que chegam para ficar. A "dualidade" entre emigrantes e imigrantes. Pena foi que, nessa altura, já muitos dos que se cansam fàcilmente de tanto folclore - de que gostamos muito, desde que "enquadrado" - tinham ido para outras "paragens" para ver coisa mais divertida e menos "xaropada".
Aliás, a própria RTP jogou o jogo de saber a quem se destinava o programa. E tanto jogou... que mandou para lá meia dúzia de meios que não poderia deixar de mandar. Mesmo na realização daquilo... houve que poupar, poupar muito... que "aquilo é mesmo para emigrante ver". Se tivermos em linha de conta muitas outras produções - às vezes sem uma importância por aí além - e virmos os dispositivos que se criam e a maquinaria de que se dispõe, hemos de concluir que aquele era "programa para emigrante ver..." Ou para nivelar por baixo.
Vivó! O "foguetório" continua assim... a fazer-se ouvir. E mesmo ao Jornal que esteve por detrás daquilo - ou que parecia estar por detrás, o que vem a dar no mesmo - exigir-se-ia só que cumprisse, mesmo em festas como aquelas, a missão que tem vindo a cumprir - honra lhe seja feita - na publicação impressa. O que não aconteceu!
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