Há cerca de 46 anos um punhado de Portugueses, que pouco tempo antes tinham chegado ao Canadá, fundaram um clube. E fundaram-no para se unirem, para confraternizarem, para dialogar. Era a força da saudade a unir tudo e todos. Era a vontade de "estar em casa", mesmo estando longe.
O First cresceu. Fez-se "gente grande". Foi abrigando nas suas asas, qual mãe-galinha que vê ao seu redor cada vez mais pintainhos, todos quantos, de algum modo, estavam ligados a Portugal. Mais do que isso, foi-se arvorando em "bandeira" do País de onde vieram todos os seus filhos. E recebeu, intra-muros, os que vinham de Portugal, sim, mas também aqueles que, sendo de cá, falando outra Língua que não o Português, queriam saber coisas do tal Portugal distante, então ainda um País cheio de mazelas sociais e políticas que todos iam, por essa altura, criticando.
Que o saibamos, o First nunca hostilizou ninguém. Nunca se apresentou como "capa" deste ou daquele movimento, desde ou daquele partido. E mesmo quando, eventualmente, houve ou outro "desvio" - e não foram muitas nem gritantes as ocasiões, não... - logo o bom senso e a consciência de ser "só" Português vinham ao de cima.
Depois... bem, depois, foram-se sucedendo as direcções. As formas de (não) gerir. Aqui e além, com dificuldades de percepção dos "novos ventos" que falam em globalização e em administrações profissionais, em expandir conceitos e ideias, em andar em frente sem menosprezar os "valores (quase) eternos". E mesmo aquelas direcções que não entenderam esses "novos ventos" são bem capazes de não o terem feito por mal e de não terem depredado o que outras anteriores lhe tinham legado. Aconteceu, simplesmente.
À sua sombra - à sombra da velha árvore lusitana consubstanciada no First Portuguese - foram nascendo outras colectividades. Tantas que já passámos da centena, só nesta parte do mundo. À primavera da vida do clube, sucedeu-se o "inverno da angústia". Até por que muitos dos que deram forma e vida ao First... foram ficando pelo caminho. E os novos... já vão tendo outra forma de ver e entender os problemas.
Hoje... o First Portuguese "rei" vai nu. Quase nu, se preferirem. E vai nu em instalações e em iniciativas. Em riquezas materiais e em investimentos que dessem para... aguentar o tal "inverno" que aí está. E de tal forma que, perdida a "pujança" que lhe foi dada pelos pioneiros, perdidas as instalações que eram suas, foi recuando.... recuando sempre. Mantendo embora, por aluguer, algum espaço no prédio que foi seu, plantou raízes lá mais para cima na Bloor que atravessa a "capital financeira" do país.
Só que também essas raízes se estiolaram. Vem agora a sua Direcção numa nota que fez distribuir pelos orgãos de Informação, dizer, ao fim e ao cabo, que continua a lutar, não apenas pela sua sobrevivência, mas também por andar ainda mais e melhor, numa senda comunitária que já vai em 46 anos e que faz da colectividade a primeira de todas quantas representam os interesses dos Portugueses.
A sua Direcção anuncia, agora, que encerrou e subalugou as suas instalações no 982 da Bloor St., tendo feito para o efeito um acordo amigável com o proprietário daquelas instalações, Manuel da Costa, a quem agradece, de resto, pùblicamente, a forma como aceitou o "acordo legal e amigável".
Como se refere na nota a que estamos a fazer referência, "o facto das instalações da Bloor St. terem fechado não quer dizer que o First morreu como alguém já afirmou". Ao contrário "talvez que daqui para a frente, possa ter uma vida mais intensa e desafogada".
Como que em explicação da fase actual do próprio First, a nota lembra que "todos sabem que os tempos estão cada vez mais difíceis e os clubes mais antigos lutam com as mesmas dificuldades". Acrescenta que os clubes fundados há menos tempo estarão agora na fase em que os mais antigos já estiveram. "Quando chegarem aos 46 anos será que estão tão fortes como agora?" – é pergunta que fica no ar.
O First continua activo com o escritório, Centro da Terceira Idade e Escola do First, no 722 College St., 3.º andar, suites 301, 303, 307 e a Galeria Corte Real também vai continuar com as suas exposições de Arte.
Posto isto... onde é que vai o First Portuguese? O que é que nós temos com isso (somos até capazes de pensar)? O que é que poderemos fazer?
E no íntimo do nosso cogitar... ainda acreditamos que todos nós temos um pedaço de culpa. Os de cá, que aprendemos, talvez, a ler na cartilha que o First começou por cá. E os outros. Os de Portugal que tinham (e têm) no First a sua melhor "bandeira". E os do Canadá - Governo incluído - que tinha (e tem) no First o "porta-voz" adequado, quando queria entrar em contacto com esta gente que sabe e quer trabalhar, e que ajudou a tornar ainda maior o País que a todos acolheu.
Alguém tem ainda de fazer alguma coisa por esta "pedra angular" de uma comunidade como a Portuguesa onde se arrimaram tantos dos que, hoje, já não são apenas Portugueses. São, afinal, também eles, os fautores certos deste Canadá grandioso.
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