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Fernando Cruz Gomes




Gastar milhões para que ninguém roube tostões...


Lemos. Pasmamos. "Vamos gastar milhões para que ninguém roube tostões..." A frase, que foi proferida, há muitos anos, por quem já não pertence hoje ao número dos vivos, martela-nos os ouvidos e o coração. De facto, encerra conceito que tem muito a ver com o que se passa um pouco por todo o mundo. Também em Portugal, claro. Também em Angola, onde foi proferida. Em toda a parte, afinal.
Quem a lembra agora, em entrevista a um jornal angolano chamado "Angolense" é Lucrécio Cruz, hoje, pelos vistos, empresário de sucesso, mas que quem estas linhas escreve, conheceu como sonoplasta de mérito na então Emissora Oficial de Angola. Há dias, quando lhe perguntaram qual a reportagem que mais o marcou, a ele que, como operador, calcorreou um pouco do mundo, Lucrécio não teve pejo em afirmar que a reportagem em causa tinha sido feita com Rebocho Vaz quando o então governante de Angola proferiu a célebre frase: "vamos gastar milhões para que ninguém roube tostões..."
E a pedido do entrevistador o empresário Lucrécio Cruz explicou: "Rebocho, que acabava de chegar de Carmona, ao aperceber-se que naquela região se estavam a registar gastos supérfluos, apelava ao investimento de milhões para a desenvolver, mas sob o mais estrito controlo para que justamente ninguém roubasse". E mais adiante: "O que Rebocho pretendia dizer é que deveria haver um sistema que não permitisse que se tomassem impunemente os bens públicos, ontem, como hoje".
Forte o conceito. Determinada a forma de o encarar. O que se passa no mundo - e Angola não é o único caso - é que os homens estão dominados por uma ganância desmesurada. Por toda a parte, há quem acredite que os "paninhos quentes" das medidas legislativas podem, de facto, resolver as abissais contradições entre os muito ricos e os muito pobres. E, no entanto, a solução é, de facto, só uma: gastar milhões para evitar que se roubem tostões. O povo tem cada vez mais de ter as suas necessidades básicas satisfeitas. Tem de entender que a "guerra contra a própria corrupção" terá de passar pela criação das condições mínimas para uma razoável qualidade de vida.
Não sabemos se os actuais governantes portugueses - ou canadianos, ou angolanos, que o caso será o mesmo - serão capazes de anotar a profundeza do conceito. É que a corrupção começa, por vezes, quase para tapar determinadas necessidades. A ganância vem depois. Se se gastarem os tais milhões... não restam dúvidas de que começa a não fazer sentido roubar os tostões.


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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