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Fernando Cruz Gomes




Já veste a farda do Rambo


O mundo em convulsões. Até há bem pouco tempo, todos iam fingindo que não viam... que não sabiam. Hoje, com uma Informação - às vezes desinformação, nós sabemos... - cada vez mais actuante, seria difícil pensar que nada se passa no Médio Oriente, no Afeganistão, nos Estados Unidos, no Iraque. Sobretudo porque há um presidente a levar a cabo acções que pretendem pôr a (sua) ordem no mundo.

E mesmo que lembremos o "11 de Setembro", que abriu as portas a novos desmandos sociais, a verdade é que os seus verdadeiros contornos já se esfumaram na memória dos tempos. Os que hoje choram os mortos da tragédia vão continuar a chorá-los. Mas há outros que começam a enfileirar nesse mesmo número, já que há mais morte e mais sangueira um pouco por toda a parte.

Agora, é a "punição exemplar" do louco Saddam. Com o mundo (quase) todo a dizer que não, o sr. Bush vai vestir a farda da guerra - talvez tirada das prateleiras do "Rambo" - e entreter-se com as "marionetes" do sr. Saddam, esquecendo-se - porque ele esquece-se... - que se é verdade o que ele diz do senhor de Bagdad, é certo e sabido que os que mais vão sofrer são os iraquianos. E estes já sofriam às mãos do seu presidente. Isto dando de barato que Bush tem razão no que diz de Saddam. Porque as provas tardam em aparecer...

Ainda agora, no rescaldo das comemorações do 1.º Aniversário do "11 de Setembro", Washington divulgou um documento de 20 páginas onde enumera as resoluções (16) do Conselho de Segurança da ONU violadas pelo Iraque. E acusa-se Saddam Hussein de tentar obter armas de destruição maciça. Decepcionando os que, por todo o mundo, esperavam as "tais novas provas" contra Saddam, diz-se que ele se opõe há mais de 10 anos aos inspectores de desarmamento da ONU. Que continua os seus esforços para desenvolver ou adquirir armas de destruição maciça, incluindo armas biológicas, químicas e nucleares, bem como mísseis de longo alcance.

Ora bolas, isso já se sabia háquase dez anos. Já se sabia que Saddam Hussein deixou de comprar armas aos americanos, como o fazia antes. Coisas novas... onde estão coisas novas que suportem mais uma "carga de pancada" a Saddam e - é bom não esquecer - ao seu povo, que tanto tem sofrido?

Dario Fo, o Prémio da Literatura de 1997, é capaz de ter razão quando diz que para satirizar muitas situações basta contá-las, exemplificando com o pensamento de George W. Bush, que é em si "uma excelente sátira". E acrescenta: "Contar aquilo que W. Bush pensa já dá uma excelente sátira". De facto...

Só que, aliado ao "presidente rambo", vamos tendo outra gente que, em princípio, pareceria ter dois dedos de testa. Blair à cabeça de todos. E agora, pelos vistos, também o primeiro-ministro português que, tendo ido a Washington, a uma cerimónia que mais parecia de "beija mão", não se coibiu de apoiar Bush na sua intenção de avançar contra o Iraque. E mesmo que todo o mundo diga que poderá haver outras soluções que não as da guerra, o dirigente português atira-se para a frente, empertiga-se e põe-se ao lado do sr. Bush, mandando as malvas, designadamente, a obrigação de ouvir a Assembleia da República para o efeito. O próprio povo ficou a saber da posição de Portugal, através de uma declaração feita em Nova Iorque. Debate público? Debate na Assembleia? - Para quê?!

Alguns analistas afirmam já que uma acção unilateral dos Estados Unidos avançará com a ideia de que Washington se assumiu, de pronto e em definitivo, como "polícia do mundo". Quando e se o achar necessário. E nós - portugueses - vamos apoiá-lo.

O "Rambo" fazia coisas de uma forma geral bem feitas. Agora este... não se sabe!


Fernando Cruz Gomes
Toronto, Canadá
fgomes@globalserve.net

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