ARTIGOS DE OPINIÃO
PortugalEmLinha logo



SAUDADES DA CALIFÓRNIA


A saudade «despertou» na Califórnia quando, em 1542, o explorador português, João Rodrigues Cabrilho, ao serviço de Espanha, fundeou numa esbelta baía que, mais tarde, receberia o nome de San Diego.

Cabrilho foi o primeiro europeu que descortinou esta parcela de terra que, após dois séculos de tranquila sonolência, erguer-se-ia rejuvenescida p'ra acolher a expedição de Gaspar de Portolá, e abraçar o missionário franciscano, Padre Junípero Serra.

Isto ocorreu em 1768... No ano seguinte surgia a primeira Missão, que tomou o nome de San Diego de Alcalá. À sua volta «nasceu» o primeiro povoado e padrão do domínio espanhol na «recém-nascida» Alta Califórnia, «irmão» da Baja Califórnia (México), onde se encontrava o vice-rei espanhol.

A «influência real» ficou demonstrada quando, em 1602, Sebastian Vizcaino alcunhou de Monterey uma outra acolhedora baía, que João Rodrigues Cabrilho havia avistado, anteriormente, mas devido ao mau tempo não lhe foi possível desembarcar.

O mesmo aconteceria com a baía de San Francisco, que o próprio Cabrilho «perdeu de vista», por causa do denso nevoeiro que a acobertava.

O povoamento de Monterey ocorreu em 1770, quando Gaspar de Potolá e o Padre Junípero Serra deram início, respectivamente, à construção dum Presídio (posto militar) e da Missão de San Carlos Borromeo que, no ano seguinte, viria a ser transferida p'rá localidade chamada Carmel, junto ao Rio Carmelo.

É por isso que, através dos anos até aos nossos dias, esta Missão tornou-se mais conhecida por Carmel Mission...

No entretanto, em 1776, militares e franciscanos estabeleciam, mais ao Norte, um novo Presídio e Missão, que tomou o nome de San Francisco de Assis.

Daqui partiu, em 1839, o Capitão John Sutter (emigrante suiço), a bordo de um barco, navegando p'ró Rio Sacramento, a fim de tomar posse de cincoenta mil acres de terra, que o governo mexicano lhe havia doado.

E foi nas margens deste rio que «nasceu» a cidade de Sacramento, com a construção de uma fortificação ou forte. A expansão das cidades de San Francisco e Sacramento ocorreria, fantasticamente, após a descoberta do OIRO, em 1848, numa serraria pertencente ao Capitão Sutter e localizada em Coloma.

Sacramento tornar-se-ia a cidade capital da Califórnia em 1854, enquanto San Francisco agigantava-se em elegância e centro financeiro.

Apesar de sacudida violentamente por um terramoto e envolta num incêndio em 1906, San Francisco ressurgiu dos escombros e das cinzas, exibindo nova elegância e preenchendo as ondulantes colinas, aonde ainda hoje repousa, nostálgica e sedutora.

Na Península de Monterey, beijada pelo mar, é sempre um prazer visitar a cidade de Pacific Grove, fundada por um grupo religioso de Metodistas em 1875. É um facto histórico que, quando Pacific Grove foi oficialmente integrada como cidade, em 1889, os regulamentos municipais eram demasiadamente puritanos em tudo o que se relacionava com danças, bebidas alcoólicas e... tomar banho em público!

P'rós admiradores de John Steinbeck (19021968), aqui fica a recomendação p'ra visitar a cidade de Salinas, que serviu de «berço» ao seu nascimento e de cenário à novela «East of Eden».

A nossa «peregrinação», ou romaria, (já a fiz várias vezes), tem sempre início na 132 Central Avenue, (a casa onde nasceu o autor), onde é servido «luncheon» e está instalada uma «gift shop».

A seguir, o nosso passeio conduz-nos à rua 110 W. San Luis, p'ra uma visita (com tempo e vagar) à Biblioteca local, onde se encontra uma secção totalmente dedicada e reservada às obras e vida de John Steimbeck. E, se possível, podemos passar, ainda, pelo cemitério onde o novelista jaz sepultado.

A 25 milhas, ao sul de Salinas, encontra-se a Missão Nuestra Señora de la Sodelad, fundada pelo franciscano, Padre Fermin Lasuen, em 1791. E ao norte, cerca de 21 milhas de Salinas, deparámos com a Missão San Juan Bautista, construída em 1797, pelo mesmo Padre Fermin Lasuen. Foi nesta localidade que Alfred Hitchocock «rodou» várias cenas dramáticas do filme «Vertigo», com Jimmy Stewart e Kim Novak.

P'ra quem tiver anseios em reavivar saudades das nossas lagoas açorianas, aconselho um passeio (de automóvel, claro!) pelos convidativos vales de Napa e de Sonoma. Embora conhecidos mundialmente como as regiões mais afamadas da Califórnia na produção duma vasta variedade de vinhos, estes vales oferecem-nos, igualmente, um trio de lagos (Clear Lake, Lake Berryessa e Lake Sonoma), apetrechados p'rá pesca, campismo, natação e desportos náuticos.

Sobretudo p'rós micaelense de Ribeira Grande e das Furnas com saudades dos «cheirinhos» das suas CALDEIRAS, recomendo - tempo e vagar - p'ra ir de passeio até ao Lassen Volcanic National Park, localizado a cerca de 180 milhas ao norte da cidade de Sacramento, capital do Estado da Califórnia.

Entre Maio de 1914 a Maio de 1915, o Monte Lassen atravessou um período de erupções de fumo, pedras, gases e cinzas, até que um dia a cratera rebentou de forma espectacular, vomitando lava, pedregulhos, e dilúvios de lama.

Presentemente, é tudo calma, paz e sossego; o Monte Lassen, agora parque nacional, não constitue perigo iminente. No entanto, ainda hoje podemos cer «amostras» desse drama geológico e actividade vulcânica; basta reparar no número de lama borbulhante e fumarolas... tal e qual c'más CALDEIRAS micaelenses!

Já tive ocasião de visitar esta localidade, e verifiquei que não é permitido fazer aí um COZIDO à nossa moda... mas os nomes afixos a estes lugares, «Devil's Kitchen» (Cozinha do Diabo) e «Bumpass Hell» (Trazeiras do Inferno) são realmente originais.

Adentro do Parque existe um par de lagoas (Butte e Juniper), recheadas com truta. Portanto, é só trazer caniço e isca! E se mais quizerem, podem prosseguir até aos lagos Almanor e Eagle, nas vizinhanças do maravilhos Lassen Volcanic National Park.

E, falando de parques, de beleza inconfundível e vistas panorâmicas, a minha favorita escolha vai p'ró Yosemite National Park, tão inconfundível que o naturalista e explorador John Muir afirmou ser ele «o mais grandioso de todos os templos especiais da natureza».

De facto, Yosemite é mais do que um parque espectacular, revestido de esplendor e magia, assombreado por árvores gigantescas, regado por lagoas e ribeiras, acobertado por prados viridentes com «salpicos» de flora, na moldura de um vale de beleza irresistível, onde se enquadram monumentais muros de granito e cascatas altaneiras.

Uma vista fantástica do vale obtem-se do Glacier Point, distante do vale cerca de 30 milhas. Outra vista panorâmica situa-se *a saída, ou entrada, do túnel de Wawona. E em Mariposa Grove a gente curva-se «em reverência» perante a «Grizzly Giant» - provavelmente a mais «velha» árvore sequoia, (sem dúvida, a mais famosa e mais larga), medindo 30 pés em diâmetro e 210 pés de altura.

Os índios Awhaneechee foram os habitantes originais do vale Yosemite, até à descoberta acidental do vale por tropas da Cavalaria dos Estados Unidos em 1851. Embora, anos depois, os primeiros «turistas» aventuraram-se a visitar este «paraíso», só em 1890 é que foi criado o Yosemite National Park.

Em anos transactos, e por várias semanas, acampei em Yosemite, durante o Verão. Mas tenho visitado, frequentemente, este parque em outras estações do ano (Outono, Inverno e Verão), e a beleza constante deste parque parece que se multiplica, continuamente, num autêntico caleidoscópio de magia, que encanta e seduz, e que - francamente - apenas encontra expressão na palavra SAUDADE!

Cá estarei de volta num próximo futuro. Até lá é como cantávamos:




Pe. José A. Ferreira
San Leandro, Califórnia
Azorean@yahoo.com

Após a leitura deste artigo, pode enviar a sua opinião/comentário e debater com o autor as opiniões aqui expressas
Participe no debate! Envie a sua opinião. Será imediatamente publicada.

Notas biográficas | Voltar à página de artigos | Voltar à página principal

PortugalEmLinha Logo
E-mail: info@portugal-linha.pt
Envie-nos o seu comentário para admin@portugal-linha.pt