--------------------------------------------------------------------------------------------------- Envio SMS's pelo telemóvel, gosto de música, jogo à bola todos os sábados de manhã e, não só vejo o e-mail todos os dias, como perdi um total de 14 amigos por causa do fecho da Teleweb
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Foi numa manhã de Setembro. Levantei-me estremunhado, liguei a torradeira à tomada e, quando a vi fumegar intensamente, concluí: "Estou velho." Não foi bem uma conclusão, foi mais um reflexo - mas ao ver aquela companheira de luta fumegar intensamente das entranhas, ao ver aquela amiga de tantas noites e de tantas manhãs despedir-se assim, como um vapor no Tejo, não me ocorreu outra coisa senão: "Estou velho!" Derrotado, improvisei um pequeno-almoço frugal e arrastei-me para a sala, mas enquanto mastigava enjoado o meu pão com manteiga e conferia o trânsito na SIC Notícias apenas uma ideia me tomava ainda a cabeça, como que surpreendida por só agora se ter reflectido a si própria: "Estou velho. Estou velho e tudo o que há à minha volta está velho também."
Depois, durante dois meses, todos os meus aparelhos se foram avariando, um a um, inexoravelmente. Já nem falo nos telemóveis - avariou-se-me o ferro de engomar e o videogravador, o bico médio do fogão e o rádio do carro, o mini aspirador com que eu limpava as migalhas das jantaradas e o televisor com que me adormecia nas manhãs de domingo, a agenda electrónica que poucas vezes cheguei a usar, o picador de carne, a máquina calculadora. Nem sequer tentei contrariá-lo. Acordava de manhã e pensava: "Que raio de electrodoméstico se me vai avariar hoje?", e de facto, em alguma altura do dia, um novo aparelho lançava o seu uivo na barra e partia para nunca mais voltar.
Não sei se a Carla teve acesso a esta informação, sei que um dia me olhou nos olhos - olhou-me bem de frente nos olhos - e sussurrou: "Deixa ver... Trinta e quatro?" Eu tinha-lhe pedido que tentasse adivinhar a minha idade, e ao conhecer o que de sedução sempre existe por detrás desse jogo das idades entre um grid-4 e uma estagiária só podia esperar uma de duas coisas: que ela se apaixonasse por mim, pela minha inteligência e pela minha juventude, ou que para sempre me esquecesse, a mim e à minha presunção. Ela obviamente diria: "Vinte e nove" - toda a gente me dava "vinte e nove" - e quando eu finalmente lhe anunciasse: "Tenho vinte e sete", havia de render-se à profundidade do meu pensamento e à precocidade da minha importância: "Só?!"
De forma que, no momento em que ela disse: "Deixa ver... Trinta e quatro?", alguma coisa se me desmoronou por dentro. Estávamos a fumar à porta da empresa e, quando eu usei o serpenteio do fumo para acentuar a surpresa das minhas sobrancelhas, ela voltou furiosamente à carga: "Tens menos? Olha que me parecia..." Durante dez minutos estivemos ali, eu a fumegar como a minha torradeira, ela a dar balanço ao aríete para nova investida: "Não sei, olhas as pessoas com sobranceria..." ou "Talvez seja das tuas apresentações, um bocado conservadoras..." ou ainda "Sei lá, falas por redondilhas maiores..." Não chegou a dizer: "E, além disso, és um pouco chato", mas sei que o pensou.
Para mim, que era um sonetista e estava convencido de que falava por decassílabos graves, foi um dia duro - demasiado duro. Houvera uma altura em que me sentira preparado para morrer, em que se morresse me iria com a convicção de ter tido uma existência boa e preenchida, mas naquela fase da minha vida tudo parecia novamente no princípio, tudo parecia começar de novo. Ainda estiquei a mão ao meu colega de gabinete, em pedido de socorro, mas ele só acentuou a minha desgraça.
- Vais ao Lux? - perguntou.
- Não. Mas ainda no ano passado fui ao festival do Sudoeste...
- Que perfume usas? Dolce & Gabbana?
- Não, mas tenho uma tatuagem...
- Falas no Messenger?
- Não. Mas envio SMS's pelo telemóvel e gosto de música e jogo à bola todos os sábados de manha e, não só vejo o e-mail todos os dias, como perdi um total de 14 amigos por causa do fecho da Teleweb...
- Rui, és um careta!
Então, nessa noite, fui ao Lux, bebi shots de quase tudo, subi e desci as escadas, contornei os sofás e as mesas - enfim, mostrei-me bastante. Não me senti deslocado: a música era boa, os copos souberam-me bem, e quando Carla apareceu, de mão dada com um amigo bem mais novo do que eu, discutimos com gosto a música e os copos e novamente a música e os copos, como se deve fazer na noite de Lisboa. Às cinco da manhã distribuí um olhar pela sala, vi os rostos que se amontoavam na penumbra e ainda me perguntei: "O que será que estas pessoas fazem amanhã?" - era-me difícil imaginar o que fariam no dia seguinte - mas a Carla chegou com mais três cálices de tequila e eu ergui novamente o copo ao ar, fi-lo girar junto à barriga e emborquei-o de um só trago. Da manhã ela foi dormir com o moço, mas quando a noite acabou deu-me um beijo no rosto e suspirou: "Gosto de falar contigo".
Hoje, quando olho para as flores que começam a despontar sobre o meu parapeito, tenho para mim que aqueles dois meses trágicos em que os meus electrodomésticos se me esborralharam sobre a cabeça não passaram de um complot da Singer e da Worten e da Moulinex para me pôr à prova. Substituí a televisão, o ferro de engomar e o bico médio do fogão, e à torradeira transformei-a em vaso de plantas, ao vídeo em prateleira, ao mini aspirador em arma de arremesso. Não uso agenda electrónica, e se alguém me perguntar: "Tens calculadora?", acendo-lhe sem complexos o desktop e mostro-lhe os acessórios do Windows.
À noite, vou beber um copo e conversar um pouco. Aos homens, como aos objectos, também lhes é permitida uma última utilidade.