Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



A parte interna da coxa dela

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Daisy rodou sobre si própria, apoiou a face direita nas duas mãos postas e sussurrou, com o seu sotaque doce de Pernambuco: "Posso te contar um segredo?" Só então me casei
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Hoje em dia, quando olho para trás, não posso dizer que tenha casado com uma prostituta - se estou oficialmente divorciado é porque casei com uma mulher, como costuma dizer a minha mãe. Na verdade, desde que entrava em casa por volta das sete da manhã até ao momento em que tornava a sair, entre as nove e as dez da noite, Daisy era uma esposa absolutamente normal: dormia, ia às compras, cozinhava feijão com mandioca e, uma vez por outra, entregava-se-me arrebatada - tenho a certeza que lhe dei um orgasmo pelo menos em duas circunstâncias diferentes. Também gostava de dizer que foi a sua beleza que me fascinou. Era mais fácil justificar ter casado com uma nordestina impudica se se tratasse de uma iorubá de bronze ou de uma índia descalça com um estupro do capataz da fazenda por única experiência erótica antes de, enfim, calçar os sapatos e fazer-se à vida. Não foi o caso. À Daisy, tenho de reconhecê-lo, escolhia-a primeiro por ser a única rapariga disponível naquela segunda-feira de Outono e só então pelos atributos das suas formas.
Era uma mulher bonita, porém: tinha vinte e seis anos e um longo cabelo amarelo-torrado, e da saia preta com lantejoulas espreitou-lhe a parte interna da coxa no momento em que o disc-jockey meteu um blues do Missouri e ela se pôs no meio da pista a dançar como a Jessica Lange. Via-a simular pudor quando lhe estiquei os trinta contos, saboreei o gosto suave do seu lóbulo polvilhado a pó de talco, ouvi-a repetir enquanto subia e descia sobre o meu ventre: "Jesus, assim eu vou-me apaixonar! Jesus, assim eu vou-me apaixonar!", mas era ainda a forma redonda e excessiva da parte interna da sua coxa que eu sentia entre as mãos quando, finalmente, acendemos os cigarros e ficámos ali à espera de que os vapores pousassem e os meus trinta minutos se concluíssem. Então, ela rodou sobre si própria no colchão, apoiou a face direita nas duas mãos postas e sussurrou: "Posso te contar um segredo?", e eu fiquei ali a ouvir como um patrão atrevido lhe fizera uma filha e como a mãe a escorraçara de casa e como a criança tivera de ficar à guarda de uma tia de Maceió e como, sem alternativa, ela aceitara a proposta de um empresário português para vir para a Europa - disse-o mesmo assim: "Para a Europa" - fazer uma audição para bailarina. Só então me casei.
Não foi uma cerimónia épica, muito menos uma reunião de família - juntei dois ou três camaradas da noite e levei-a ao Registo Civil, e quando chegámos à minha casa de Benfica e ela se pôs a admirar o comando electrónico do portão da garagem eu pensei: "Apesar de tudo, vou ser feliz." Depois, enfim, veio a Leila do Brasil, comprámos um apartamento maior em Massamá, eu mudei para os escritórios de Alverca, a Daisy teve uma depressãozita e a comunhão dos primeiros meses foi-se desvanecendo. A vida dela não era má: de manhã levava a criança ao colégio francês, durante o dia dormitava ou trabalhava em part-time numa imobiliária, e quando eu voltava a casa tinha sempre pronto o jantar pontualmente às nove e meia. Não sei se a desequilibrou a maternidade, se a minha simples ausência ou as saudades da vida, sei que numa sexta-feira de Junho cheguei a casa e encontrei pela primeira vez a miúda sozinha, sentada em frente ao MCM, a treinar o francês com a Vanessa Paradis. Disse-me assim: "Mamãe saiu", e depois virou novamente a cara para o televisor, para atacar o refrão final do "Joe Le Taxi". Pela primeira de muitas noites, fui ao fogão, despejei o picadinho morno num prato de plástico e enfiei-me na cama a rever umas tabelas no portátil, mordiscando a couve frita até me vir o sono.
Só me deixei abater uma vez. Tinha a Leila a cantar o "Taxi" aos berros ("Connait toutes les rues par coeur/Tous les p'tits bars/Tous les coins noirs") e a minha mãe chorando ao telefone por causa de uma zanga conjugal, e quando levantei os olhos do chão tentei lembrar-me da textura da parte interna da coxa de Daisy e à mente não me vinha outra coisa senão o pó de talco do seu pescoço, o seu hálito perfumado, o sotaque pernambucano em que carregava nos gritos de "Jesus, assim eu vou-me apaixonar!" Nem liguei aos camaradas: assumi sozinho o destino, apontei o carro à Baixa e, quando cheguei à Duque de Loulé, entrei no primeiro bar onde o porteiro me acenou com uma pequena vénia e libertou ligeiramente a porta, no seu convite silencioso ao "senhor engenheiro".
A primeira mulher aproximou-se menos de dez minutos depois, debicando-me um caju do pires e pedindo licença para sentar-se. Eu não queria dormir com ela - queria olhar para aquelas mulheres e recuperar de entre elas o que me restava de Daisy, olhar para elas com desprezo e rejeitar os seus convites e beber a minha cerveja e voltar para a minha cama enquanto Leila cantava na sua voz de anjo as desventuras de Joe, o taxista que reencontrava a Amazónia nos becos escuros de Paris. Perguntei: "Está aí a Verónica, aquela gaúcha?", e ela respondeu-me, num tom carioca: "Casou com um cliente." "A Juliana, do candomblé?", insisti, e ela, franzindo a testa: "Não trabalha cá mais. Está vivendo com um cliente..." Então levantei os olhos para aquela mulher, dividi por momentos o olhar entre as suas coxas excessivas e o seu ar de paixão, e empinei o resto da minha cerveja: "Sinto por si. Eu já sou casado..."
Dizem-me que Daisy - chama-se Lucineide, mas insistiu até ao fim em que a tratasse pelo nome artístico ("O nome do nosso amor", como dizia) - está a viver em Torres Vedras, com um advogado com quem costumava encontrar-se à noite durante o nosso casamento e que só lhe exige o picadinho pronto a horas e a oportunidade de ficar em casa a ver a Leila falar francês, enquanto a mãe sai para trabalhar. Às vezes a minha mãe passa por Benfica e eu juro-lhe que está tudo bem, que não me ficaram sequelas daquela união impensada nem vou agora levar a jantar as filhas das amigas dela só porque, entretanto, voltei a viver sozinho. Quando chove meto o carro na garagem, mas na maior parte dos dias prefiro deixá-lo sobre o passeio, aproveitando o espaço que a lei me concede enquanto legítimo proprietário de uma garagem em Benfica. Ainda me custa ter de abrir o portão sem aquele controlo remoto que a Daisy me levou.

Joel Neto
Lisboa
joel.neto@oninet.pt

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