Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



Ao fundo uma oliveira

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Por muitas vidas que vivesse a seu lado, aquela mulher jamais compreenderia o que significava para o seu homem que agradecessem por ele - que lhe afagassem a cabeça e depois sorrissem nas suas costas para o cavalheiro do outro lado da barricada, com um trejeito cúmplice de quem diz: "Não ligue"
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Agora que José voltava a olhá-lo, estacionado sem glória sob o toldo azul do talho, o Volkswagen não lhe parecia tão brilhante como o imaginara nos muitos anos em que o vira passar, lento, imperial e nas mãos de outro, durante as intermináveis tardes de domingo da cidade. Sentado ao volante de um Renault 5 creme, com o jornal aberto a toda a largura do pára-brisas, um homem pode ser especialmente obsessivo nos seus rituais de ciúme - mas assim que adquire o objecto do seu desejo, seja maior ou menor a engenharia financeira envolvida, metade do prazer morreu com o sonho. Ali, visto da janela, às cavalitas do passeio e com carros dos vários tamanhos a toda a extensão do seu horizonte, o Golf vermelho, o carro de todos os seus desejos, parecia-lhe um automóvel absolutamente normal - os faróis efeminados, um rabo farto de preta velha e umas rodas fininhas de bicicleta, esmagando-se sob o peso daquela estrutura arredondada de metal e vidros foscos. Tinha ainda o ar gordo de um sargento do exército, o semblante sério e autoritário dos homens poderosos, mas era como se a estrada lhe fugisse debaixo dos pés, deixando-o ali muito nu, com as calças na mão, perante um pelotão histérico que escarnece do seu ridículo.
Então o vulto de Edite cresceu no peitoril da janela, muito devagar, e José chegou-se para trás a vê-la caminhar - primeiro apenas a nuca acima do parapeito, meneando em esforço por entre os caixotes do lixo, depois o pescoço ressequido, as costas curvadas, enfim as pernas tortas insinuando-se sem vergonha sob a saia castanha encontrada nalgum cartão antigo do quarto de arrumos. Trinta e oito anos haviam passado sobre o dia em que se juntara àquela mulher, oferecendo-lhe uma aliança de ouro e duas juras de amor eterno, e o mínimo que se podia dizer era que Edite envelhecera - envelhecera no aspecto e envelhecera nos modos, mas envelhecera sobretudo na maneira desesperada como, subitamente, decidira recuperar uma juventude que há muito a abandonara. O pior, possivelmente, teria sido a partida dos filhos, os sucessivos casamentos, mas havia de certeza algo mais - tinha de haver mais. O cabelo pintado de caju, a constante vontade de partir, a condescendência perante as mais variadas aberrações dos tempos - tinha de haver muito mais por detrás da inesperada reviravolta no comportamento daquela mulher boa e incapaz de um desejo, de uma altercação, de uma falta, e José sentia que a partir de algum momento haviam começado ambos a viver em comprimentos de onda muito próprios, muito diferentes, encontrando-se às refeições para trocar os silêncios da idade e afastando-se à noite nas bordas opostas da cama.
- Então, vamos embora? - cantou Edite, de volta ao intercomunicador do prédio, atestado o Golf de velharias e desnecessidades para viagem tão curta.
José rodou o trinco, pegou na mala grande, pendurou ao ombro o saco da Singer e deu uma última olhadela pelo corredor. E, ao olhar aquela divisão exígua, o seu tecto carunchoso e as molduras barrocas que adornavam as fotografias nas paredes, sentiu o peito inundar-se-lhe de saudade - uma saudade imensa, não do que ficava, mas de abandoná-lo uma e outra vez, repetida e repetidamente, até que da sua ligação àquelas coisas e àquelas pessoas não restasse mais do que uma breve memória, um daguerreótipo esbatido como as imagens fortuitas da primeira infância. Ali estava toda a sua vida: por aquela porta entrara um dia com Edite ao colo, naquele hall o abraçara três vezes uma parteira desdentada, congratulando-o pelo nascimento dos filhos, ali tinham chorado os cinco pelo encerramento da fábrica de chocolates, ali haviam entoado juntos um cântico de vitória por causa de um cinco-mais-um no Totoloto, mais tarde consumado num prémio desconsolado que mal dera para substituir as canalizações da cozinha - ali estava a sua vida e o que noutras circunstâncias ela poderia ter sido, a sua história e respectiva negação, lado a lado, melodia e contracanto afinadas pela mesma tónica, para não envergonhar o maestro.
Edite, impaciente, voltou a premir a campainha.
- José?! Vamos embora!
Era curioso como ela o dizia: "José", as duas sílabas muito bem torneadas, como mandava a antiga instrução primária. Para muitos, ele não fora nunca mais do que "Zé", quando muito um "Zé Manel", mas para aquela mulher conservava o nome intacto, continuava a ser o Jo-sé que uma noite lhe aparecera junto a uma marcha de Lisboa, atestado de brilhantina e declamando promessas de rebentar com o mundo, passear com ela sobre os seus escombros e depois plantar-lhe um manjerico à beira-Tejo. Um José, sim, um homem igual a tantos outros, um vendedor de chocolates que escolhera a mulher numa noite de Santo António - mas ainda assim o toiro vigoroso que despia a camisa por um pobre com frio e dava a vida em troca da sua palavra, afiando ele próprio a guilhotina ao verdugo, se preciso fosse.
E, ao pensá-lo, José voltou a sentir vontade de partir, partir de novo e novamente, cerrando os dentes às fotografias com a promessa de que nunca mais voltaria. Meteu o polegar ao intercomunicador e disse:
- Já vou.
E depois desceu, sem remorsos.

***


A estrada é larga, e, visto de longe, o Volkswagen Golf parece ainda mais raquítico do que sob o toldo azul do talho - pouco mais do que um carrinho avançando devagar na faixa direita da via, assustado com os camiões de exteriores e as comitivas de Estado que o ultrapassam velozes, quase o fazendo rodopiar sobre si próprio.
Desconcentrado, esforçando-se por destacar a sua própria importância ao volante de um carro novo em folha, para mais inacessível à maioria dos homens da sua condição, José desentendeu-se com o sistema de pagamento de portagens e foi parar ao guichet do concessionário da auto-estrada, de boina na mão, muito tremente, menos em respeito pelo trabalho dos outros do que envergonhado da sua própria velhice. O funcionário, pode dizer-se, foi simpático. Recebeu-o com um boa-tarde solidário, comentou vagamente a queda da ponte, trezentos quilómetros acima, e falou por momentos das sucessivas comitivas de Estado que continuavam a passar na estrada e dos corpos que não havia maneira de aparecerem no rio e de Deus que permanecia dormindo no Céu. Depois deu a volta ao balcão e apontou o telheiro esverdeado que se estendia ao longo das dez pistas da via:
- Para a próxima, tem de parar em frente à caixa amarela, carregar no botão e agarrar num cartãozinho que ela lhe vai dar. Depois, à saída da auto-estrada, entrega o cartãozinho ao portageiro e paga o valor correspondente.
Dentro do carro, estacionado com zelo junto ao passeio da repartição, Edite sorria e abanava a cabeça em direcção ao senhor do concessionário, agradecendo e voltando a agradecer a informação. José voltou a colocar a boina e virou costas sem uma palavra, humilhado. Por muitos anos que o acompanhasse, por muitas vidas que vivesse a seu lado e por muitas vezes que o visse falhar, aquela mulher jamais compreenderia o que significava para o seu homem que agradecessem por ele - que lhe afagassem a cabeça com um olhar tolerante e depois sorrissem nas suas costas para o cavalheiro do outro lado da barricada, com um trejeito cúmplice de quem diz: "Não ligue". Edite não o fazia por mal, José sabia-o, mas fazê-lo por ignorância parecia ainda pior aos olhos do marido, o sinal derradeiro de que de nada haviam valido trinta e oito anos em conjunto se, feitas as contas, tudo voltava sempre ao princípio - tudo tinha de voltar eternamente ao princípio, a estupidez como a única condição que nunca muda, instalada como uma ténia no intestino mais estreito do medo.
José voltou ao carro, sentou-se com estrondo no banco da esquerda e puxou de repelão o cinto de segurança. Era o seu sinal de desagrado, a bofetada que mais uma vez adiaria, evitando aborrecimentos impróprios para o seu estado de velho - demasiado velho. Edite lançou-lhe um olhar de desprezo, respirou fundo e fez menção de deixar clara a inconveniência daquela reacção. Ainda esboçou uma frase sentenciadora, mas ele lançou depressa o indicador ao rádio, percorreu as primeiras seis estações memorizadas e deixou-se ficar nas notícias - notícias e mais notícias, palavras e mais palavras que se sobrepusessem ao que quer que aquela mulher pudesse dizer, comitivas de Estado que continuassem a chegar às margens do rio e corpos que permanecessem sem aparecer e homens que chorassem as suas perdas mais do que José chorava os seus falhanços. Edite conteve o rubor das faces, cruzou os braços e olhou pela janela, onde ao fundo uma oliveira mirava impávida a marcha lenta do automóvel.
- Olha, ainda andam à procura do autocarro - disse Edite ao fim de um longo silêncio, para refazer as pazes.
José consultou o relógio: quase meio-dia. Três vozes sobrepunham-se agora na rádio, interrompendo-se sem pudor, num frente-a-frente acalorado sobre a localização da "mais trágica das três viaturas acidentadas", como lhe chamava insistentemente o moderador. No terreno, em vários pontos do rio assassino, as buscas digladiavam-se com extraordinárias dificuldades, originadas pelo mau tempo, as fortes correntes e o estado lodoso da água. Em Lisboa, o Governo anunciara a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, para "apurar rapidamente as responsabilidades da catástrofe", como exigira o Presidente da República. Mas a oposição queria mais. Num debate de urgência, o líder de uma bancada minoritária arriscou um elogio à reacção do ministro da tutela, que se demitira no momento da desgraça, e o partido caíra-lhe em peso em cima, acusando-o de intrujice com o fito de salvaguardar a sua posição para as eleições seguintes, certamente mais próxima do Executivo. Os deputados do Governo aproveitaram a embalagem e, mesmo dali, de cima de uma tribuna a mais de três horas de distância do acidente, atiraram-se ao autarca com jurisdição sobre a margem meridional do rio, eleito por uma cor hostil, lembrando que, depois das lágrimas vertidas na televisão, defronte de milhões de portugueses, já nem era precisa campanha para assegurar a reeleição no mês de Dezembro. José cerrou as frontes:
- Filhos da puta!
Edite voltou o rosto para ele, levou a mão esquerda sobre a consola central e deixou-a suspensa no ar, reprimindo um carinho. Depois, virou de novo o olhar para a oliveira lá longe, ainda em guarda pela segurança da viagem, e arriscou:
- Cabrões de merda, digo eu!
José arregalou os olhos, deixou de repente escorregar o sapato sobre o acelerador, engoliu em seco e sentiu o carro estrebuchar debaixo dos pés, tremendo de dúvida perante a estrada que se alongava até uma curva larga no cimo de um morro. Foi questão de segundos. Primeiro sentiu o tremor do automóvel, depois um apito prolongado junto ao ouvido esquerdo e a seguir um baldeio violento, provocado pelo seu próprio susto, com torção sistemática do volante, para a direita e para a esquerda e novamente para a direita. Um camião passou veloz, prolongando a buzinadela e ligando os faróis de emergência, numa manifestação de ódio. O separador lateral ameaçou precipitar-se sobre o Volkswagen, os pneus chiaram sobre as bandas sonoras da escapatória, a oliveira lá ao fundo parecia ir e vir com o vento, o carro todo num estertor de imperícia, Edite esticando os braços nas beiras do assento, com o rosto desfigurado do pânico.
Em desespero, José meteu de súbito o pé ao travão, acompanhou com o tronco o impulso da paragem inesperada e foi bater com a cabeça no "VW" do volante, deixando-se cair de novo para trás ao último abanão da manobra. Durante muito tempo, ficou ali, sem acção, uma mão dentro da boina, indecisa entre a verificação de ferimentos e o castigo pela sua própria incompetência de piloto. Edite, de boca muito cerrada e respiração difícil, tinha os braços muito esticados na vertical, as mãos alongadas até aos coses do banco, onde se ajustava a inclinação do passageiro. Carros e camiões e motos e camionetas circulavam furiosos, em direcção ao sulco que bordava o outeiro adiante, e alguns apitavam repetidamente, em sinal de desprezo por aquele velho infeliz que nem unhas tinha para o seu próprio carro novo. Um idoso a bordo de um Fiat antigo afrouxou de guincho, abanando o braço direito em oferta de auxílio, mas José esticou o indicador e fez-lhe que não, que estava tudo bem consigo e com a mulher e que a viagem prosseguiria em breve, assim o sol abrandasse.
Edite olhou o marido, colocou uma mão no peito e conteve as palavras. José consultou de novo o relógio e olhou para a mulher, despojado:
- Vamos antes pela Estrada Nacional.
Devagar, o Volkswagen arrancou, piscando com cuidado os faróis da esquerda, vogou por alguns minutos, em silêncio, e apontou à primeira saída à direita. Edite pôs a mão sobre a do marido, repousada em cima da alavanca das velocidades:
- Cabrões de merda!

Joel Neto
Lisboa
joel.neto@oninet.pt

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