--------------------------------------------------------------------------------------------------- Não via outra coisa senão a senhora do Registo Civil a carimbar
os Acordos de Dayton, o vendedor de televisões a copiar no meu
exame de Teoria das Relações Internacionais e o Balakov a marcar
um golo ao meu avô, muito barrigudo e incapaz de estirar-se àquela bola bem colocada no canto superior direito da baliza.
Em suma: andava de cu tremido, mas tinha a vida num caos
---------------------------------------------------------------------------------------------------
Tornei-me um escritor quando comprei o meu primeiro carro. Não quero perder tempo com o automóvel - basta dizer que, quanto ao barrete, quem mo enfiou foi o Cajó: comprávamos o chassis a um vizinho de Paio Pires e depois íamos buscar um motor a Setúbal, a um revendedor que apagava números de série. A montagem ficava a cargo do senhor Miguel, especialista em carcaças-como-novas e propulsores com pistons em bom estado. Foi o meu projecto de vida durante mais de um mês e custou-me para cima de trezentos contos. Quando me desfiz do bólide, três meses depois, pedi oitenta - e ainda tive de endossar trinta ao senhor Miguel, que entretanto ficara de me resolver um problema na caixa de valvulina, nos intervalos das minis. Um desastre.
O que fez de mim um escritor, no dia em que enfim me sentei ao volante do meu Citroën Visa cinzento, não foi portanto o carro em si - um chaço desengonçado que chamava as sopeiras à janela e onde a minha namorada de Telheiras só duas vezes aceitou sentar-se, por compaixão (uma vez fomos jantar às escondidas a Almoçageme, em Sintra, e outra infiltrámo-nos no velório da tia de um amigo meu que roubava gravatas). O que fez de mim um escritor, nesse inolvidável dia em que se cumpriu o meu primeiro grande projecto de vida, foi o método de invenção de histórias que nasceu naquele mesmo instante, naquele mesmo assento seboso. Tenho conhecido alguns romancistas, uns tantos políticos e uma quantidade indeterminável de faroleiros, e nenhum conseguiu ainda demonstrar-me um método de criação de enredos superior àquele que criei ao volante do meu primeiro carro.
"Criei" é talvez uma expressão abusiva - na verdade, a coisa "criou-se". No momento em que puxei o cinto de segurança do Citroën, um mês depois de começar a adiar todos os compromissos em busca do projecto de vida de ter um automóvel, o céu caiu-me sobre a cabeça. Como que do nada, a vida voltou-me com uma violência inusitada - e os "assuntos pendentes" começaram de facto a pender, a desabar-me em cascata diante dos olhos. Tinha o bilhete de identidade caducado e o meu avô aborrecido porque não sabia de mim havia semanas, estava a dever a prestação do televisor e todo o último semestre de quotas do Sporting, não sabia as datas dos exames de Setembro nem o desfecho das negociações dos Acordos de Dayton. Lembro-me bem: ia a atravessar a ponte 25 de Abril e as obrigações vogando à minha frente, fugindo-me à vista, escondendo-se nas bermas, gozando-me. Desesperado, tentava memorizar as muitas coisas que teria de fazer a partir do dia seguinte, mas não conseguia apanhar sequer o fio à meada. Não via outra coisa senão a senhora do Registo Civil a carimbar os Acordos de Dayton, o vendedor de televisões a copiar no meu exame de Teoria das Relações Internacionais e o Balakov a marcar um golo ao meu avô, muito barrigudo e incapaz de estirar-se àquela bola bem colocada no canto superior direito da baliza. Em suma: andava de cu tremido, mas tinha a vida num caos.
Então, como que por magia, eu vi a luz. Não foi um golpe de génio, foi mais um desenrascanço. Impedido de tomar notas num caderno de apontamentos, como costumava fazer nos transportes públicos, comecei a memorizar a palavra-chave de cada um daqueles compromissos e, devagar, a agrupá-las em frases. Frases toscas, de início, buscando ainda um sentido real e apenas sonhando com a musicalidade da literatura - mas frases com princípio, meio e fim, com sujeito, predicado e complementos (e o mínimo de preposições e advérbios, para não complicar).
Naquele primeiro dia, por exemplo, saiu-me alguma coisa como: "Vou ter de chegar a 'acordo' com o meu 'avô' para vermos o 'Sporting' na 'televisão' e pouparmos o dinheiro dos 'bilhetes', os quais só estarão à venda em 'Setembro'". O elemento "Setembro" estava claramente encavalitado, enfiado sem arte nem sentido, mas dei-me por satisfeito com aquela primeira tentativa. Estava no princípio de alguma coisa, e nada neste mundo funciona em pleno no princípio - se me esquecesse disso, lá estavam o Titanic, a auto-estrada para o Algarve e "O Terceiro Servo", de Joel Neto, para mo recordarem quantas vezes eu precisasse. No essencial, aquela era uma frase fácil de recordar, uma situação perfeitamente visualizável - e, quando enfim pudesse parar o carro, lá puxaria do meu caderninho para apontar as seis coisas que tinha de fazer com urgência. Bastava-me ter na mente aquele retrato: o meu avô sentado na sua poltrona rasgada e eu aninhado ao lado, no sofá comprido - e então era certo que estaríamos a falar do Sporting e de tudo o que a isso interessava. Só tinha de fazer um último esforço para não me esquecer do "Setembro".
O mais fascinante foi que, à medida em que a vida perdia graça, presa ao banco de um automóvel e impedida de assimilar os cheiros e as vozes de Lisboa, as minhas frases-lembrete foram também ganhando cada vez mais interesse, estimuladas pelos travelings da estrada e reforçadas pelo carácter mais e mais rebuscado das minhas preocupações e compromissos. Problemas na lavandaria, o tabaco que esgotou às quatro da manhã, mercearias com bolor, falta de papel higiénico, os preservativos que ficaram fora de prazo, a falta de um despertador fidedigno para o dia da oral, a prenda para um amigo que vai casar, a gasolina que está na reserva - quanto mais comezinhos eram os meus problemas, melhores eram os elementos para a construção de frases. E, de repente, merceeiros iam rompendo preservativos na cama de lavadeiras mal casadas, a rapariga mais bonita da turma chegava atrasada à oral por causa de uma diarreia, gasolineiros fumavam por todos os poros enquanto manejavam a ampulheta pingante sobre os depósitos dos carros - as frases iam-se emancipando e formando histórias, e essas histórias iam melhorando de dia para dia, primeiro como se fizessem parte de romances de cordel (novelas mexicanas, como hoje se diz), depois tentando a sorte em géneros cada vez mais arriscados da literatura.
No ano passado, deu-me para concorrer a uma "bolsa de criação literária", daquelas que prometem um ano inteiro sem mexer uma palha só para concluir um romance, escrever um ensaio, organizar uma antologia. Perdi. Mas agora, ao pensar naquele primeiro dia em que me sentei ao volante do Citroën e em todo o processo criativo que isso desencadeou, agradeço de coração aos que doutamente me chumbaram. Se hoje eu sou um escritor é porque não tenho tempo para escrever, porque passo o dia a correr nas estradas de Lisboa e não posso sequer parar para tomar nota das ideias que ocasionalmente me ocorrem. Já nem preciso de plagiar o Citroën - tive um Renault 4 L, um Ford Fiesta e dois Honda Civic, e em todos eles se fundiram as palavras-chave, as frases-lembrete e as histórias de antes, cada vez mais bem articuladas e acutilantes. Deixei para trás as novelas mexicanas e passei sucessivamente dos versos em rima cruzada aos contos semiplagiados dos clássicos, dos diários em tom angustiado aos poemas revolucionários que hão-de consagrar a vitória da luta antiglobalização.
Há umas semanas, comprei uma station wagon alemã, uma coisa grande e dada a corridas de fundo, muito apreciada em Telheiras e em outras zonas onde nem sequer sonhei ter namoradas. Não foi um projecto de vida - foi uma tarefa normal, algo aborrecida, sem metade da excitação do primeiro carro. A partir desse dia, voltaram a aparecer nas minhas histórias alguns dos elementos mais em voga nos romances de cordel dos anos 40, embora disfarçados: as confissões de amor sob a forma de e-mails neofeministas, os bailes de paróquia metamorfoseados em ladies-nights, as praias da faina infestadas de adolescentes a ler livros cor-de-laranja e os príncipes encantados guiando Bmw's Z3, enquanto se definiam genericamente como "consultores". Um dia destes, deu-me uma certa nostalgia do Citroën. Mas foi uma fraqueza: de certa forma, aquele Z3 é a única garantia de que este escritor tem futuro.