Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



Ao fundo uma oliveira, cap. II

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José e Edite partem de Lisboa à deriva, rumo a Norte, enquanto a rádio debita as últimas informações sobre a queda de uma ponte. Vão fazer a rodagem ao novo automóvel, com que ele sonhara durante décadas. São casados há 38 anos e não têm entre eles mais nada senão as certezas de quem vive com outra pessoa há 38 anos consecutivos
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Com o Renault 5 não era nada daquilo - nada daquele conforto, nada daquele engenho, nada daquela perspectiva da estrada. Apesar do percalço matinal, fruto mais do despudor de Edite do que da inadaptação do chauffeur ao carro, o Volkswagen avançava com autoridade: engolia o ronronar nas entranhas, atacava as curvas com acutilância e piscava numa doce sofisticação, muito devagar, como convém aos caçadores. A pouco e pouco, José ia-se fazendo ao automóvel: encontrara a sua posição nos estofos almofadados, aprendera a prever os desmandos da direcção assistida, decorara todas as doze estações de rádio, memorizadas em duas bandas diferentes, e começava já a fazer das saídas de ar no tablier um aliado para a medição das distâncias - tudo o que aparecesse fora dos seus limites, observado de esguelha a partir do banco do condutor, não constituía obstáculo para a marcha do carro.
Edite também parecia cada vez mais à vontade. O espelho da pala solar do pendura fora o seu primeiro fascínio: quando entrara dentro do carro, levara automaticamente dois dedos da mão direita ao tapa-sol, desdobrando-o e pondo-se a pentear o cabelo escasso com uma escova preta. Mais tarde aquele espelho haveria de tornar-se o seu supremo inimigo a bordo, o sinal mais obsceno do envelhecimento galopante do seu rosto - mas então novos instrumentos teriam já ganho um espaço na sua rotina de bordo. A consola chegava para duas garrafas de água do Luso e um número indeterminado de carteiras de medicamentos, o cinto móvel permitia-lhe mexer-se à vontade, torcendo o pescoço consoante a paisagem e os humores, e o ar condicionado podia ser manipulado quase como um brinquedo - um inestimável número de combinações entre frio e calor, na direcção dos pés ou do tronco, à esquerda ou à direita, afagando o coração ou libertando-o ao vento.
Os tempos mais mortos, quando a rádio parava para compromissos publicitários e Edite se calava por um instante, José passava-os a ruminar os nomes das vilas, aldeias e pequenos lugares que passavam, dissimulados à direita na estrada ou abrindo-se em cruzamentos largos, com zebras pintadas a branco vivo no asfalto. Era como se tivesse uma recordação para cada uma delas, como se cada uma daquelas terras lhe abrisse uma gaveta na memória, apesar de há muito não ouvir os seus nomes e de nunca, em toda a sua existência, ali ter estado. Da Azambuja havia conhecido um furriel prepotente, nos tempos da recruta, para Alcoentre se mudara um dia o seu primeiro chefe na fábrica de chocolates, com quem se desentendera por causa de uma troca de turnos, Cartaxo era a terra do vinho que bebera no dia do seu casamento, em Santarém nascera um companheiro de picadas em Angola - a maior parte das recordações dizia respeito a histórias antigas, e os seus protagonistas não tinham nomes próprios mas gentílicos, profissionais ou simplesmente vazios: eram o "Santarém" ou o "Escalabitano", o "Alcoentre" ou, de maneira mais prosaica, o "Carcereiro".
E ali, ao passar por aquelas terras perdidas no mais fundo do tempo, toda a sua vida lhe regressava à memória, rodando e voltando a rodar sobre si própria, como uma piorra de sortes - as alegrias que deviam ficar para sempre, as tristezas que o tempo se esquecera de apagar e mesmo os longos vazios que não tinham outra finalidade senão fazer a ponte entre as duas primeiras. Bem feitas as contas, e sendo certo que às vezes é a viagem a escolher o viajante, como diziam os livros, talvez se formasse finalmente um propósito naquela deriva de asfalto, estações de serviço e placas de sinalização - o propósito de deixar registado o que perdurará de uma vida que acaba, que acaba mesmo, sem mais delongas.
Agora que se detinha a pensar nos homens anónimos que haviam ajudado a construir o seu passado, nos momentos de cumplicidade que com eles partilhara e no desdém que por eles havia nutrido, consoante a natureza dos casos, José questionava-se sobre quantos outros havia ficado por amar e odiar - quantos outros homens e mulheres lhe haviam sido sonegados pelo acaso, esse deus inacessível jogando o seu jogo de poder como uma criança caprichosa que se farta de uma boneca velha. A rádio, operada com crescente mestria pelo dedo rápido de Edite, continuava a recordá-los - todos agora no fundo de um rio, presos entre os bancos retorcidos de um autocarro afundado, num mausoléu de musgo e detritos industriais. Notícias de última hora e longas reportagens evocativas do dia fatídico do acidente sobrepunham-se umas às outras, comentários dos operacionais de busca e intervenções eloquentes das cinco bancadas parlamentares sucediam-se sem parar - a certa altura era como se, mesmo que fossem resgatados, todos os homens houvessem de ficar ali para sempre, no fundo do rio, os pobres ocupantes do autocarro e mesmo os políticos, os jornalistas, os próprios bombeiros, afundando-se eternamente nas águas, muito devagar, mesmo depois de o seu olhar vidrado se desvanecer no lodo.
A partir de Lisboa, segundo os repórteres, o Governo encetara negociações com as autoridades espanholas para a redução do caudal do rio, indispensável ao prosseguimento das buscas. A Marinha oferecera-se para colaborar nos trabalhos e fizera já largar de Lisboa um barco especial, uma montanha de aço equipada com um dispositivo de localização de silhuetas submarinas e que apenas falhara uma vez, uns quantos anos antes, aquando do naufrágio de um navio de pesca no estuário do Tejo. A montante, os donos das empresas de extracção de areia esbracejavam culpas para cima uns dos outros. A jusante, o primeiro corpo entretanto resgatado fora enfim identificado: uma velha da freguesia de Raiva, que saíra por milagre do veículo em queda livre mas depois ficara eternamente à espera de socorro, boiando no rio e tentando agarrar-se às ervas das margens. Curioso nome aquele, "Raiva", como se ao menos uma vez na existência do Mundo fizesse sentido a existência do Génesis e do Apocalipse num mesmo livro, numa mesma história...

***


Atenta, Edite ia dialogando com o pivot da emissão, sublinhando com comentários inquietos aquilo que mais a impressionava e clamando celeridade nas pausas para respirar. José, menos dado a sínteses, sentia cada vez mais dificuldades em assimilar toda aquela informação. Dois dias antes, 5 de Março, quando o Telejornal anunciara a tragédia, recorrendo aos serviços de um jornalista local para adiantar-se à concorrência, tudo lhe parecera mais simples: uma ponte caíra, sobre ela estavam um autocarro e dois automóveis e tudo redundara numa catástrofe igual a tantas outras - sessenta e seis mortos, duas dúzias de órfãos e um volume indeterminado de prejuízos materiais. Era o essencial, e não fora difícil de memorizar. Primeiro porque naquele dia comera sardinha em lata, e sempre que comia sardinha em lata devia preparar-se para algum tipo de desgraça - fora assim no dia da morte de seu pai, fora assim numa certa madrugada em que os comunistas haviam tomado o poder e viria ainda a ser assim naquele dia negro em que o patrão vendera a fábrica de chocolates a um consórcio espanhol, que o mandara reformar de imediato, por excesso de experiência. Depois, porque para cada um dos números envolvidos naquele desastre era possível encontrar uma analogia na sua própria vida: 5 de Março fora o dia do seu juramento de bandeira, sessenta e seis era o número de anos que já vivera, órfãos é o que mais há no mundo - e normalmente vêm às dúzias - e, quando a prejuízos materiais, pois não faltava quem fosse todos os dias à televisão queixar-se: queixar-se do sol e queixar-se da chuva, queixar-se do vento e da falta dele, de forma a pospor quanto possível a sua desgraça e encontrar por instantes com quem partilhar a sua própria inépcia (e, já agora, embolsar um subsídio).
Entretanto, porém, tudo se complicara. Ninguém tinha certezas absolutas sobre o número de viaturas e pessoas sinistradas, a troca de acusações políticas começara rapidamente a desenhar-se, o ministro com a pasta das Obras Públicas caíra logo na primeira madrugada, as buscas matinais tinham esbarrado com o curso assanhado do rio, autarcas de vários pontos do país começaram a denunciar um rol infindável de outras pontes em perigo, os familiares das vítimas haviam-se visto a explicar repetidamente para as câmaras "como se sentiam", como se pudessem sentir-se de outra forma senão mal - durante vinte e quatro horas, a informação fora avançando e recuando ao ritmo da ansiedade e da ambição, de uma ou de outra ou das duas ao mesmo tempo, e a certa altura José acabara por perder o Norte às coisas. À noite, numa conferência de Imprensa marcada para o horário dos telejornais, o primeiro-ministro ainda tentara fazer um balanço dos acontecimentos, apelando ao enxugar das lágrimas e ao arregaçar das mangas, mas a Oposição cerrara fileiras através de comentadores colocados estrategicamente nos vários estúdios de emissão. Se ele pensava que se livrava assim tão facilmente de responsabilidades, estava muito enganado - havia muitas contas a ajustar, muitos anos de contas a ajustar, e se para as saldar tivesse sido precisa uma tragédia, então que para alguma coisa houvesse servido a morte de sessenta e seis infelizes sobre um rio endemoninhado.
Fora nessa altura, ao desligar o televisor com uma unhada seca, que José protestara pela primeira vez: "Filhos da puta!" Mas um dia depois, marchando devagar por uma estrada secundária em direcção a Norte, tudo se lhe mesclava ainda na mente, como se fazendo parte de um plano superior para a erradicação de alguma coisa, alguma coisa muito maior do que ele - e essa coisa só podia ser o próprio homem, o homem e a sua ideia de que para sempre sobreviveria aos seus próprios actos, se uma câmara se lhe apontasse ao focinho e um microfone registasse as suas últimas palavras. Sim, concluía José, os homens seriam destruídos e os repórteres lá estariam para registá-lo, porque só os repórteres sobreviveriam um dia à destruição dos homens.
- O maior erro da minha vida foi não ter ido para repórter - sussurrou José, e quando o fez soltou uma gargalhada, um misto de riso e de vingança que tomou de assalto o volante, chocalhou o automóvel sobre a estrada e lançou Edite contra o vidro contrário.
- Devagar, José! - reagiu ela, e depois baixou o tom. - Quando te pões com essa coisa do maior erro da tua vida, há sempre desgraça… O marido olhou-a de soslaio e voltou a cabeça para frente, cerrando as frontes à estrada. Edite ergueu-lhe os olhos e segurou-os firmes no ar, como um desafio. Estiveram ali uns minutos, ela segurando ainda o rosto no ar, ele semicerrando as pálpebras como quem contém um suspiro. Então ela aumentou para o máximo o volume da telefonia: faziam-se os primeiros balanços informativos A ponte caída tinha cinquenta metros de altura, quase todas as autarquias do país haviam enviado telegramas de condolências, Manuel Sousa-testemunha havia feito recuar o jipe assim que vira a ponte ceder, as buscas seriam retomadas no dia seguinte, o director de um jornal espanhol dizia que Portugal estava "deprimido", a Suécia queria enviar uma equipa para ajudar nas operações de rescaldo, o Parlamento aprovara um voto de pesar, um popular insultara o primeiro-ministro cara-a-cara: palavras e palavras sobrepunham-se no habitáculo do Volkswagen, Edite firme com os olhos no ar, José de frontes fechadas na direcção do pára-brisas, o carro voando como um louco, o mundo desintegrando-se aos lados, os anjos cantando a sete vozes - até que um baque ecoou sob o chassis do automóvel, o condutor agarrou com angústia o volante, Edite voltou a cara para a frente, o motor calou-se de repente e uma luz intensa brilhou ao fundo, alongando-se sobre a estrada e cegando por momentos os dois ocupantes.
- Ai, José... - disse ela, ao fim de um longo silêncio. - Dá sempre desgraça, isso do maior erro da tua vida - repetiu, e depois olhou ao fundo para uma oliveira solitária, que velava pela segurança da viagem.

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"Naquele dia comera sardinha em lata, e sempre que comia sardinha devia preparar-se para algum tipo de desgraça - fora assim no dia da morte de seu pai"

"Sim, concluía José, os homens seriam destruídos e os repórteres lá estariam para registá-lo, porque só os repórteres sobreviverão um dia aos homens"

Joel Neto
Lisboa
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