--------------------------------------------------------------------------------------------------- "Estavam ambos à beira de uma revelação importante, uma informação que precisava que a conversa se preparasse para ela, abrindo-lhe as pétalas com a doçura de uma orquídea"
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--------------------------------------------------------------------------------------------------- " - É uma das poucas coisas de que tenho a certeza: que já perceberam a minha estratégia e que, mais cedo ou mais tarde, hão-de conseguir acabar comigo. Estou louca, mas não estou cega..."
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Chamava-se Márcia - e era tudo quanto ele precisava saber. "Dona Márcia", para serem ambos mais precisos. Encontrara-a na esplanada de um café da Baixa, entre artistas de circo e pintores deprimidos alardeando a sua arte e a sua depressão como se fossem condição uma da outra. Ele pediu uma cerveja e ela um chá do Ceilão, para impressionar. Estava um dia abrasador, uma daquelas insuportáveis manhãs serôdias em que o sol se estilhaça sobre o rio, ciumento - mas em nenhum momento Dona Márcia deixou de tentar impressioná-lo. Levava uma bata cinzenta e o cabelo grisalho jorrando visco sobre os ombros, e o seu ar correspondia na perfeição a esse misto de convicção e de fragilidade que normalmente se espera de um pária orgulhoso da sua condição de pária.
- Mas, se corremos perigo, como você diz, não teria sido melhor procurarmos um local mais reservado? - perguntou Fernando.
- Não há solidão como a multidão - respondeu ela, e então sorveu de um trago a primeira chávena, as unhas brilhando sebo ao calor da manhã.
Comunicava por aforismos, e nisso parecia-se muito com as personagens grotescas de que falava. Se alguma vez fosse preciso isolar o momento em que começara a acreditar na incrível história da velha vagabunda, Fernando escolheria o exacto instante daquela charada sobre a confidencialidade e o segredo. "Não há solidão como a multidão", repetia ele para si próprio - a métrica rigorosa, a retórica aguda, a rima num som redondo: era a frase perfeita, tão ridiculamente perfeita como se saída de um dos enredos inesperados que a velha descrevia nas hipérboles da sua conversa.
Que toda aquela charada não passava da diligência central de uma longa série de "operações", como ela própria viria mais tarde a chamar-lhe, só depois Fernando o perceberia. Enquanto a permitira divagar em torno do nada, segredar o vazio e declamar a ausência, nunca deixara de sentir-se o burro trapalhão estrebuchando em torno da cenoura fugidia. As informações vinham aos fogachos, como se ele tivesse de queimar etapas para ter acesso a novos pormenores - e isso fragilizava-o especialmente, deixava-o sempre um passo atrás na conversa, refém do rumo que Márcia muito bem quisesse dar-lhe.
Porque, tanto quanto dizia respeito à arte do engodo, a velha era um mestre. Primeiro falara da meteorologia escaldante e do romance de Lisboa - dissera-o mesmo assim: "o romance" - e repetira todos os chavões sobre o paraíso em que a cidade se transformava no Verão, liberta das filas de trânsito e da chuva persistente, para voltar a naufragar em Setembro. Depois tentara seduzi-lo com um diálogo mais pessoal, forjando uma cumplicidade que ambos sabiam ser descabida: fingira-se interessada na sua vida íntima, deixando cair duas ou três observações sobre a solidão e as suas angústias, e quando viu que dali não obtinha respostas desembocara sem sobressaltos em questões profissionais. "Anda por aí a noite toda, não? Tem a sua nobreza, sim senhor, tem a sua nobreza...", insistia. A partir daí Fernando meteu na cabeça que nada daquilo passava de um embuste e, de si para si, tomou a decisão de passar adiante. Ao fim de dez anos a rebocar automóveis, a desencarcerar cadáveres e a ouvir o choro desesperado dos órfãos da estrada, já não tinha ilusões quanto à nobreza da sua actividade. Era uma profissão como as outras, concluíra há muito - e isso bastava-lhe para sentir-se tão válido ou irrelevante como o próximo homem, o que lhe dava o vago conforto de, apesar de tudo, haver para si um lugar no Mundo.
Por isso, quando Dona Márcia voltou a perguntar-lhe: "Mas tem família?", Fernando não sentiu sequer a necessidade de ser cortês. Respondeu-lhe: "Não tenho nada que lhe interesse", e na voz tentou colocar a mesma secura e a mesma arrogância com que a velha lhe falava, ciosa da sua posição de mandante daquela conversa. Era como se quisesse dizer-lhe que a opinião de uma vagabunda não podia nunca interessar, porque ele estava na posse de muitos mais dados do que ela, sabia muito mais do que ela sobre o que iria ou não permanecer para sempre e, feitas as contas, não precisava da sua intromissão para nada. Mas Márcia não desarmou, e nessa altura Fernando percebeu pela primeira vez que o que a velha tinha para dizer-lhe era importante. Mais do que todos os slogans ininteligíveis com que contornara cada uma das suas evasivas, mais do que a imposição de um encontro a desoras para uma simples conversa de café, mais ainda do que o rio macilento que lhe tombava em cascata sobre as costas ou o carrinho de compras repleto de jornais velhos que passeava pelas ruas - a forma como Dona Márcia rodeava o assunto mostrou-lhe que estavam ambos à beira de uma revelação importante, uma informação que precisava que a conversa se preparasse para ela, abrindo-lhe as pétalas com a doçura de uma orquídea.
- Não tem nada que me interesse, uma merda! Uma merda! - repetiu Márcia.
E nessa altura ele atacou:
- Merda é para esta conversa! Ouça: vai ou não dizer-me o que pretende?!
Márcia parou o chá do Ceilão ao nível do queixo, torceu o pescoço num gesto de resignação e olhou lentamente em volta, certificando-se de que ninguém a ouvia. Usou muitas vezes a chávena como adereço do seu olhar clandestino: sorvia o líquido no final de uma frase para a tornar definitiva, interrompia a meio uma viagem do braço direito para fazer uma achega, empilhava a louça a um extremo da mesa para abrir espaço a explicações mais detalhadas - e com isso identificava o que de facto era importante reter e o que menos interessava no meio de todo aquele tresloucado jogo de palavras.
- Querem acabar comigo - disse ela, suspendendo a chávena a meio caminho entre o peito e o rosto. - Tenho quase a certeza de que vão consegui-lo. É uma das poucas coisas de que tenho a certeza, aliás: que já perceberam a minha estratégia e que, mais cedo ou mais tarde, hão-de conseguir acabar comigo. Estou louca, mas não estou cega...
Agora que Fernando voltava a olhá-la, Márcia parecia-lhe muito mais velha, como se tivesse envelhecido uma eternidade desde que a vira em pé meia hora antes, muito hirta, arrastando o seu carrinho de lixo sob os toldos onde haviam combinado encontrar-se. Faltavam-lhe todos os dentes de cima, tinha a pele especialmente flácida e, sob a testa enrugada, embaciavam-se-lhe os olhos tristes de uma avó - e para além disso sabia contar uma história, sabia encher de noite as zonas luminosas e lançar sobre os espaços negros apenas suficiente luz, como só os anciãos sabem fazer. Depois de trinta minutos olhando aquela mulher imperscrutável, ouvir que ela era apenas louca, o que quer que "loucura" significasse para uma velha de bata cinzenta bebendo chá fervente no pino tardio do Verão, devia pelo menos ser um estímulo para respirar fundo. Mas escutá-la falar da morte era também como vê-la diluir-se no tempo, mergulhar na história do homem até um passado muito distante, muito anterior a eles, inacessível.
- Portanto, quer que a ajude a fugir... - arriscou Fernando.
Márcia sorriu, com um ar melancólico.
- Não se pode dizer que vá fugir. Vou aceitar que me afastem - respondeu. - Como Cristo, percebe? Veio para os seus e os seus não o receberam...? Renegado, por assim dizer... - ironizou, forçando a referência difícil.
- Então, porque decidiu contar-me isso? - atalhou ele.
E quando o fez percebeu que chegara mais uma vez o momento de estrebuchar em volta do fio-de-prumo, à procura da sua cenoura.
Quando pouco depois Márcia o convidou a voltar no dia seguinte, para escutar mais pausadamente a incrível sucessão de acontecimentos que se haviam abatido sobre a sua existência de pária, Fernando achou melhor não resistir. À medida que ia assistindo a toda aquela encenação de uma velha de unhas sujas e bata cinzenta, solidificava cada vez mais a certeza de que algo de estupendo estava por detrás de toda aquela pantomina. Combinaram reencontrar-se na manhã imediata, junto ao Cais das Colunas, e se por alguma razão Fernando repetiu a pergunta decisiva à mesa do café foi apenas para não deixar morrer a conversa enquanto se encontrassem face a face - de alguma forma, parecia-lhe que só assim conseguiria manter Márcia refém de alguma coisa, coagida a não esconder-lhe nada.
- Mas porque é que me escolheu a mim?
- Porque há uma coisa que você pode fazer por esta velha louca -, respondeu ela, coçando o cabelo sujo, o sobrolho erguido em sinal de gravidade.
- Fazer alguma coisa por si? Mas eu nem sei quem você é...
Márcia arredou novamente o pires e o bule, as mãos espalmadas sobre o tampo plástico da mesa, brilhando.
- Eu sou a voz dos que não têm voz, a voz dos que morreram - declamou. - Sou a voz dos mortos.
- E o que é que eu posso fazer pelos mortos? - perguntou ele, com um sorriso irónico.
A velha parou um momento, respirou fundo e depois olhou-o fixamente. Nunca uma mulher o olhara tão fixamente como Márcia, e isso acentuava-lhe ainda mais a sua desvantagem, incapaz de retribuir o ar resoluto da mulher.
- Preciso do dinheiro. Só você pode trazer-me o dinheiro - disse.
- O dinheiro?! - perguntou ele, surpreendido. - Pensei que era a voz dos mortos... Os mortos não precisam de dinheiro!
- Mas a Revolução precisa.
E de repente Fernando sentiu com arrepio que haveria de devotar a sua vida àquela Revolução. Não fazia ideia do que Márcia dizia, começava mesmo a ter dificuldade em assimilar todas as sentenças e palavras de ordem proferidas pela velha durante aquela estranha conversa. Mas o termo "revolução", o que quer que ele pudesse interessar naquele contexto e naquela insuportável manhã de sol, tomou-lhe de assalto o cérebro, chocalhou fundo e fez-lhe verter suor das frontes - o suor da vida e da morte, da mesma vida e da mesma morte que tão pouco lhe interessavam naquela altura.
O resto do diálogo, haveria de recordá-lo apenas vagamente. À noite, tentando adormecer sobre o colchão empenado e poeirento do seu quarto solitário, os livros amontoando-se ao canto como um hábito nojento - como masturbação -, lembrou-se de ter contestado cada uma das palavras ditas a partir dali pela velha, mas apenas de maneira a saber mais pormenores sobre a Revolução comum. Tanto quanto lhe dizia respeito, era já o tentáculo de alguma coisa, o braço armado ou desarmado de alguma coisa muito maior do que ele, de alguma coisa importante, eterna.
- Mas que Revolução?! - perguntou, com um ar forçadamente surpreendido. - Os mortos não fazem revoluções! Os mortos, quando muito, fariam revoluções ideológicas, se ainda os deixassem...
- Há pelo menos cinco séculos que todas as revoluções ideológicas da Europa têm a ver com dinheiro - respondeu ela, exibindo a dentição inferior muito branca, perfeita, em contraste com a completa ausência dos dentes de cima.
- Não estamos a falar da Europa, estamos a falar de Lisboa! - insistiu ele.
- A Europa está em toda a parte.
* Conto incluído na obra colectiva "Setembro", editada pela Fonte de Letras com participações de Joel Neto, Francisco José Viegas, Rui Zink, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, Mafalda Ivo Cruz, Ana Hatherly, José Manuel Fajardo e Filipa Melo, entre outros