--------------------------------------------------------------------------------------------------- Da segunda vez que o vi, já com a perna impecável, estava à porta das Amoreiras e tinha sida. Voltei a encontrá-lo uns meses mais tarde, no Rossio, e havia curado a sida - vestia agora um colete amarelo e era um sem-abrigo, distribuindo revistas junto à Loja das Meias. Durante dois ou três anos, vi-o por toda a Lisboa, sempre com uma súplica diferente, sempre com o mesmo olhar combativo insinuando-se por detrás dela
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Descobri-o muito antes de a World Music descobrir a Dona Rosa. Da primeira vez que o vi, pareceu-me preto. Estávamos sentados nas escadas do São Jorge e ele veio arrastando-se dos bancos da Avenida, muito grande e cabeludo, com uma prece esmagando o que parecia restar de um olhar inquieto, quase felino. Trazia umas calças de ganga sem a perneira esquerda, e ao olhá-lo de longe pudemos ver que tinha de facto uma perna destruída, que não era só mais um pedinte mentiroso de Lisboa. Tinha feridas e borbulhas e pontos negros e lama - e no seu rogo de mendigo aquela perna era apenas a face visível de uma doença muito mais profunda, cavalgante, terminal. Pediu-me uma sopa e eu dei-lhe uma sopa, no café abaixo do cinema. Podia ter-me pedido dinheiro, que eu tinha-lhe dado dinheiro. Pediu-me uma sopa e um cigarro, mais nada. E desapareceu.
Na altura eu já acreditava na fome. Anos antes, quando chegara a Lisboa sem acreditar na fome e na guerra e na solidão, era muito pior: saía de casa direito ao quiosque, trocava duzentos escudos em moedas de vinte e atravessava a cidade metendo-as nas caixinhas dos mendigos que encontrava. Não tinha ilusões sobre o alcance daqueles vinte escudos, mas consolava-me o galardão das viúvas pobres. Dei essas moedas ao tocador de pianica da Rua Augusta e mandei-o ouvir os Depeche Mode, para aprender o instrumento. Dei-as à mulher sem olhos do Terreiro do Paço e pedi às mil deidades que lhe calassem o canto lúgubre e acabassem com o seu sofrimento. Dei-as a todos, no fundo: a gente que também me deu coisas e àqueles que não me deram nada, a pedintes condoídos e a toxicodependentes extorsionários. Mesmo à Dona Rosa as dei, com absoluta certeza - apenas não reparei, como tantos outros, na voz daquela mulher que viria a encantar a Europa. Reparei nos seus olhos vazios, nas pernas inchadas que lhe brotavam da orla da saia e, provavelmente, quis arrancá-la à rua, como já quisera arrancar à rua o tocador de pianica e a mulher que nem tinha olhos para chorar.
Naquela noite do cinema, porém, eu já não era esse adolescente deprimido "vogando à deriva por Lisboa", como se diz nuns fados que eu cá sei. Trabalhava muito, tinha um Citroën velho e responsabilidades familiares - e só me sentara nas escadas porque estava muito cansado, cansado de Lisboa e do Citroën e das responsabilidades que tão cedo me esmagavam. Conhecera a fome no Burkina Faso e a guerra em Israel - e a solidão passara a acompanhar-me sempre, na guerra e na fome, na fartura e na paz. Tinha sido assaltado umas tantas vezes, com seringas contaminadas, e fora chantageado por todos os arrumadores de Lisboa. Fizera uma reportagem sobre o tráfico de droga nos Olivais Sul e andara à porrada com um preto à porta do Mussulo. Não era um indivíduo facilmente impressionável.
E, no entanto, ao ver caminhar na minha direcção aquele homem enorme e negro, o seu rosto cabeludo e a sua perna destruída, alguma coisa se me desmoronou por dentro. Foi uma sensação nova para mim. Não quis mudar o Mundo nem sequer tirar aquele homem da rua - quis apenas oferecer-lhe uma sopa e pedir-lhe que me desaparecesse da vista. Mas, ao vê-lo sorver o caldo verde, quis também perguntar-lhe como se chamava. "É como lhe digo" - respondeu - "sou um homem com uma perna destruída." Falou como se estivéssemos a conversar há muito tempo e depois recusou várias vezes dizer-me o seu nome. Aceitava que estávamos em planos diferentes, tratando-me com a deferência que merecia a mão que lhe dava de comer, mas conservava junto ao nome alguma coisa que eu não percebi o que era - mas que era inalienável. E deu cabo de mim.
Foi a última vez que me comovi com um pedinte de Lisboa. Hoje emocionam-me os homens levados ao limite da sua dignidade, não aqueles que a entregaram de graça. Histórias de resistência como as de polícias obrigados a fazer gratificados nas tardes de domingo, para alimentar a ninhada, ou as dos ucranianos dos subúrbios que organizam piqueniques de salsicha em conserva nos pátios do Lidl. Pequenas histórias, na verdade, pequenos momentos de homens sofrendo enquanto fazem o que os homens têm de fazer: o olhar triste de um jovem em cima de uma carrinha de caixa aberta, com uma marmita vazia entre os pés, ou o autodomínio de um velho a quem avaria o Renault 5 no garrafão da ponte, com a esposa chorando ao lado; o ar contrito do marido da engomadeira que cá vem entregar a roupa às segundas-feiras, agradecendo repetidamente o emprego, ou o semblante altivo de um vendedor de castanhas saindo do quarto de uma prostituta velha.
Visto dali, ao primeiro encontro, o mendigo do São Jorge não tinha lugar nesta categoria. Mas à sua maneira, e com a perseverança que então se revelou por detrás do seu olhar indefinido, acabou por conquistar um espaço. Hoje, depois das muitas vezes que o encontrei, recordo-o como o maior sobrevivente que alguma vez conheci: um talento de oportunidade e de persuasão que me parece pelo menos equivalente ao da Dona Rosa - e para o qual também devia haver colectâneas internacionais.
Da segunda vez que o vi, já com a perna impecável, estava à porta das Amoreiras e tinha sida. Voltei a encontrá-lo uns meses mais tarde, no Rossio, e havia curado a sida - vestia agora um colete amarelo e era um sem-abrigo, distribuindo revistas junto à Loja das Meias. Durante dois ou três anos, vi-o por toda a Lisboa, sempre com uma súplica diferente, sempre com o mesmo olhar combativo insinuando-se por detrás dela. Encontrei-o na Rotunda do Marquês, ostentando um letreiro com a informação "Tenho o cancro", e observei-o de longe no Martim Moniz, de braço escondido por dento do casaco e pedindo amparo com a mão esquerda, muito tremente. Já com o membro restituído, ouvi-o desafinar o "Malhão-malhão" em frente à FNAC do Chiado, arranhando uma viola sem o mi grave, e sentei-me ao lado dele num degrau das escadinhas do Kremlin, às cinco da manhã, muito cansado e sem força para preces. Nunca me pediu dinheiro - pediu-me sempre uma sopa, um cachorro quente, uma sandes. E nunca aceitou reconhecer-me. Olhou-me invariavelmente como se fosse a primeira vez, pediu-me comida e um cigarro e afastou-se com um agradecimento seco, tarimbado. Sempre que lhe fiz uma pergunta, respondeu uma generalidade qualquer. Cada uma das suas frases, incluindo a primeira, começava com um "É como lhe digo…" Em nenhuma das vezes acedeu a dizer-me o seu nome.
Estive mais de um ano sem o ver, e, à medida em que a sua memória se ia esbatendo, uma parte da minha Lisboa ia morrendo com ela. Não tive saudades, nem sequer uma sensação de perda - simplesmente a cidade metamorfoseava-se numa coisa nova, à medida em que eu vagueava menos pelas suas vielas e deixava de encontrar o vagabundo da minha adoração. Fui viver para o Seixal, passei a trabalhar em Sintra, e de cada vez que descia à cidade era já como mergulhar num corpo estranho, voltando à redacção ou a casa com "notícias de Lisboa" para aqueles que me faziam encomendas e aguardavam ansiosamente o regresso.
Na semana passada, no entanto, voltei à Baixa, e então o preto surgiu numa esquina, vindo do Largo de Santo Antão. Eu estava em frente à Ginginha, fingindo que era lisboeta e que estava em casa, e ele apareceu-me de cabelo bem aparado, sem bigode e com uma roupa muito lavadinha, de quem se encontra de bem com a vida. Não era preto, afinal - tinha o carão moreno e o cabelo asa-de-corvo dos poetas, e por baixo o seu olhar mantinha a indefinição de sempre, aquele esmalte delicado de quem ri chorando, porque rir e chorar têm funções diferentes e às vezes não é possível uma sem a outra. Vi-o aproximar-se e abri-lhe um sorriso de amizade, mas ele manteve o ar circunspecto e pediu-me apenas um cigarro. "Sabes que já me cravaste cinquenta cigarros nesta vida?", perguntei-lhe, em tom de desafio. "Pois dê-me o cigarro 51...", insistiu. Eu fechei o rosto, fingi um resmungo: "Como é que te chamas?" Ele ergueu os olhos, sacou-me o maço de tabaco da mão e respondeu: "Sou um homem a precisar de um cigarro". Depois devolveu-me o pacote, sorriu e virou-me costas: "Até ao cigarro 52…"
Pela primeira vez não me pediu uma sopa. Nisso eu reparei logo. Hoje lembro-me de que também não usou a expressão "É como lhe digo". As palavras duram uma eternidade, mas, ditas numa rua de Lisboa, nada valem ao pé de uma sopa quando se trata de um vagabundo sincero que deixou de pedir comida.