--------------------------------------------------------------------------------------------------- Tentou de tudo. Foi alienar-se para o futebol, mas a multidão aos gritos transformava-se num coro grego. Inscreveu-se num passeio de dirigível, mas as palavras redondas dos turistas americanos pediam-lhe uma canção em três acordes. Passeou nos claustros do Convento dos Capuchos, mas o som das baratas dançando pelos cantos rebentava-lhe os tímpanos. Tinha os ouvidos aguçados para além de todos os limites, e estou certo de que conseguiria ouvir os apitos dos cães. Estava à procura do som perfeito. E a vida tornara-se-lhe insuportável
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Foi num sábado à tarde, muito antes de irmos a Sesimbra, que eu matei Pedro Machado de Sousa. Estávamos na Ponta dos Rosais, com o Pico projectando-se sobre o canal, e aquelas palavras saíram-me como sempre me saem palavras quando estou diante de algo inexplicável. Disse: "Isto é um silêncio tão grande que quase podíamos ouvir o sangue a correr nas nossas próprias veias", e com aquilo não pretendia dizer outra coisa senão deixar claro que não sabia o que dizer perante tanta beleza. Na verdade, podia ter sido uma coisa inofensiva - eu com os meus aforismos e lugares-comuns, o Pedro com o seu olhar de soslaio e o seu sorriso de escárnio. Mas quando virei o rosto para ele, logo após aquela frase irreflectida, vi o Mundo desabar-lhe à frente dos olhos. Pior: percebi imediatamente porquê.
Naquela altura, nós tínhamos duas obsessões: os meus peixes e o disco dele. Nunca tive medo de pesar as coisas - tanto quanto me dizia respeito, um peixe podia ser um motivo tão bom para viver como qualquer outro, um disco ou um livro ou um monte de filhos ou a salvação da floresta amazónica. Tínhamos duas obsessões porque disso dependia tudo aquilo que existia entre nós: eu era o homem que lhe ouvia com paciência as melodias e ele o infeliz que tinha de acompanhar-me nas mais loucas aventuras em busca do peixe perfeito. Dia sim, dia não, juntávamo-nos no apartamento dele, em Almada, e ali eu lhe criticava as síncopes ou lhe elogiava os pianíssimos. Aos fins-de-semana, íamos pescar para um pedaço mais ou menos próximo de rocha, entre o Guincho e o Cabo Espichel. Nas férias, juntávamos as canas, os impermeáveis e as galochas e arrancávamos juntos para o paraíso com que eu sonhara nos onze meses anteriores. Ele estava autorizado a levar a guitarra, para os intervalos.
Talvez nenhum de nós gostasse verdadeiramente de cumprir a sua parte no trato, mas no essencial valia a pena o sacrifício: os serões musicais em casa do Pedro revelavam-se sempre um bom pretexto para a cerveja, enquanto as escapadelas que eu nos impunha sempre o ajudavam a desopilar um pouco. Naquele dia da Ponta dos Rosais, porém, eu fui apenas um traidor - nada mais do que um traidor. Tínhamos São Jorge a todo o comprimento do braço esquerdo, Jasão e Orfeu navegavam em frente, à sombra da montanha, e tudo estava ainda demasiado no início para que eu pudesse, assim tão de repente, trazer-lhe Lisboa à memória. Eu estava longe de encontrar o peixe que procurava, mas o Pedro acabara de gravar o seu disco. E eu devia ter respeitado isso.
Os primeiros sinais da destruição causada pelas minhas palavras surgiram logo naquela semana, ainda durante as férias nos Açores: Pedro ia ficando cada vez mais apático, alheava-se de uma conversa no auge da argumentação e respirava fundo antes de levantar-se da cama de manhã, aborrecido com o compromisso de acompanhar-me ao mar. Nada conseguiu despertá-lo da letargia em que se foi afundando. Numa vez trouxemos mais de cinco quilos de peixes de todas as cores, grandes e pequenos, raros e banais. Noutra conhecemos duas irmãs com ar de Leonor-vai-para-a-fonte e combinámos acompanhá-las à quermesse do Santo Cristo lá da fajã. Nada. Em nenhum momento o meu amigo reagiu. Cumpriu sempre a sua parte no contrato: pescou e carregou o balde e foi à quermesse e segurou as pontas com uma irmã para eu poder desfrutar da outra. Mas nunca se libertou. Tinha o disco na editora, pronto a sair, e afinal nada do que lá estava fazia sentido. Nada na sua vida fazia sentido.
Até àquele dia, Pedro Machado de Sousa era um homem como os outros. Um pouco excêntrico, quando muito. No dia em que nos conhecemos, ambos de whiskey em riste, apertou-me a mão e anunciou-me: "Vou gravar um disco!" Disse-o assim, sem mais nem menos, e nos seus olhos havia tanta certeza e tanta fúria que quase o ouvi acrescentar: "E, portanto, até lá, tudo isto é provisório - todas estas pessoas e todas estas ruas e todas essas coisas que já estás a pensar de mim são provisórias, até que finalmente eu grave o meu disco". Gostei daquilo. Também eu tinha os meus peixes, e, da mesma maneira que ia para casa a sonhar com o mar depois de um dia no escritório, o Pedro não pensava senão em música assim que dobrava o avental e deixava o balcão da leitaria.
Pude comprová-lo, nas muitas noites que passei em Almada depois daquele primeiro whiskey: a música estava presente em tudo o que ele fazia. Na rua andava de walkman e com o bolso cheio de moedas de vinte, para distribuir entre os tocadores de pianica, guitarra e ferrinhos que se dispersavam pelas esquinas. Em casa cultivava um autêntico santuário. Tinha discos e instrumentos e pautas e enciclopédias sobre os clássicos, e quando não estava a compor estava a estudar o material dos outros - a tirar notas, a fazer balanços da própria obra, a inventar capas para o disco, a redigir. Nunca estava verdadeiramente satisfeito com o resultado do que fazia, mas sentia que todos os dias se aproximava um pouco mais do som que procurava. E, quando conseguiu encontrar uma editora, virou-se para mim, cerrou os olhos e disse-me: "Agora posso ficar outros trinta anos sem editar um disco". Lembro-me de ter sorrido e pensado: "Bem, então vamos à procura do meu peixe-galo". Havíamo-lo comido juntos, apresentado como um pitéu pelo dono de um restaurante à Rua da Atalaia, e eu quisera dar à minha obsessão um nome que significasse alguma coisa para os dois. Se me perguntassem, diria que éramos felizes e que a nossa única preocupação, bem feitas as contas, era um peixe dourado que dava uma luta sem igual na ponta da cana.
Foi por isso que eu traí o Pedro quando, com o Pico ao fundo, decidi dizer-lhe: "Quase podíamos ouvir o sangue a correr nas nossas próprias veias". De repente, a sua vida desabou. Tudo para ele se transformou em música. Todas as palavras e todos os sons e todos os silêncios de Lisboa passaram a ser música. As pessoas conversando na rua ou a máquina moendo café na leitaria, um homem que empilha andaimes ou uma criança que corre, o beijo vagaroso de dois namorados ou o urro de um cacilheiro no Tejo - tudo isso era música, música em estado puro, clamando por um contexto, um ritmo, uma melodia. O meu amigo estava deitado por terra, ensanguentado, e o músico que havia dentro dele saltara para o passeio, para pôr-lhe a pata no pescoço.
Se pensava numa sequência e tentava anotá-la, o arrastar da esferográfica sobre o papel produzia um novo som que lhe destruía a frase original. Quando abria a boca para falar, as frases saíam-lhe em verso, em redondinhas maiores, em decassílabos. Tentou de tudo. Foi alienar-se para o futebol, mas a multidão aos gritos transformava-se num coro grego. Inscreveu-se num passeio de dirigível, mas as palavras redondas dos turistas americanos pediam-lhe uma canção em três acordes. Vagueou pelos claustros do Convento dos Capuchos, mas o som das baratas dançando pelos cantos rebentava-lhe os tímpanos. Tinha os ouvidos aguçados para além de todos os limites, e estou certo de que conseguiria ouvir os apitos dos cães. Estava à procura do som perfeito: o som do sangue correndo-nos nas veias. E a vida tornara-se-lhe insuportável.
Foi um francês quem me falou nos cardumes de peixe-galo que se vinham aventurando no porto de Sesimbra. "Há muito San Pierre", disse-me, e foi exactamente essa expressão que usei quando fui persuadir o Pedro a vir comigo: "Os povos civilizados até lhe dão o teu nome... Tens de vir!" Cheguei a casa dele num domingo de manhã, muito excitado, e no carro levava já as máscaras, as barbatanas e os arbaletes. O francês fora claro: com a quantidade de desperdícios lançados ao mar pelos pescadores, o peixe dificilmente morderia o anzol - e com isso dera-me uma ideia sobre como imprimir um novo fôlego àquelas pescarias de fins-de-semana, a que a angústia do meu amigo ia conferindo um carácter cada vez mais silencioso. Mergulharíamos de apneia - e se preciso fosse, apanharíamos o peixe com as próprias mãos.
Vimos o primeiro exemplar já a uns bons metros da costa, para além do quebra-mar. Tinha mais de cinquenta centímetros e à volta de seis quilos, e por debaixo da sua longa crista exibia uma coloração disforme, branco-prateada, linda. Perseguimo-lo durante um bocado, até que ele se perdeu no meio de um emaranhado de rochas erguendo-se no fundo do mar como uma Atlântida submersa. Lembro-me de ter pensado, ao segundo ou terceiro mergulho, que se havia um sítio no Mundo onde era possível escutar o sangue a correr nas veias era ali, debaixo de água, mergulhando com a respiração suspensa, no meio daquele silêncio sepulcral do oceano. No momento seguinte, o Pedro olhou-me, e por detrás da máscara eu pude ver que ele pensava exactamente a mesma coisa. Depois acenou a cabeça, cerrou por um instante as pálpebras e deixou-se afundar por entre as rochas, atrás do peixe. Vi-o nadar por alguns segundos e depois não o vi mais.
Quando a polícia marítima o encontrou, no dia seguinte, tinha sangue a escorrer dos ouvidos e nenhum peixe-galo amarrado ao cinto de lastro. O disco, editado três meses depois, veio a passar completamente despercebido no mercado. O Pedro teria gostado - nada daquilo podia comparar-se ao som que ele escutara nos seus últimos momentos.