Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



Gostava de ter um botão para rebentar com isto

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Se eu fosse uma mulher loira e rica e bonita, como aquela do gás natural, não me punha a vender as filhas ainda antes de elas me saírem da barriga. Se eu fosse um preto grande e cheio de talento, como aquele que jogou no Benfica, não recusava um autógrafo a uma criança que tivesse vindo de Trás-os-Montes para me ver. Caramba, Fernandes, tenho mesmo pena que isto não possa ir no currículo. Porque, naquela noite da despedida de solteiro, eu não me enfiei com os yuppies no roupeiro, para ver o noivo saltar em cima da brasileira
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Sou um pobre, Fernandes, e esse estigma há-de acompanhar-me até ao último dos meus dias. A minha mãe, que era a filha mais nova de um rebanho imenso, só aprendeu o seu nome aos dez anos - até aí pensou sempre que se chamava "Menina", e ainda hoje "Madalena" a incomoda, porque é mais nome de santa do que de mulher. Tenho uma irmã que vai todos os dias no comboio a bordar flores em pedaços de tule. A minha avó morreu a pensar que a locutora da televisão também podia ouvir as suas palavras. Ligava o televisor pontualmente às duas horas, sentava-se no divã com o xaile cinzento aos ombros e, quando aparecia a jornalista, respondia ao seu cumprimento, muito cerimoniosa: "Boa tarde, menina". Depois virava-se para nós: "É muito simpática, esta pequena..." Tinha graça, a avó Maria do Céu. Papava tudo: telenovelas, concursos, telejornais, futebol... Quando via os jogadores a aquecerem os músculos, correndo da frente para trás segundo as ordens do treinador, dizia que eles estavam a ensinar o caminho ao diabo e fazia o sinal da cruz com os indicadores sobrepostos. Uma vez, quando já havia muitos canais e controlos remotos, misturou uma notícia sobre fogos florestais, especialmente em voga nesse ano, com uma reportagem em que o primeiro-ministro chamava "incendiário" ao líder da oposição. Sentada no seu divã, esbugalhou os olhos de velha, ajeitou o xaile sobre os ombros e exclamou: "Ah, pois… Alguém tinha de ser!"
Acho que isto te dá uma ideia do quão pobre eu sou, Fernandes. Já vi algumas coisas neste Mundo, graças àquela história dos jornais, mas nunca vi alguém tão pobre como eu. Já atravessei o Gana inteiro só para fotografar os peuls de Sicilly, que mutilam os próprios rostos como rito de passagem, e nem aí vi alguém tão pobre como eu. Vi gente com fome, poisando-lhe a mosca em cima, mas nenhuma tão pobre e tão mesquinha e tão cobarde como eu.
Se é um currículo que pretendes, portanto, um currículo terás: os números secos, as datas todas, os cursos e as acções de formação, as principais exposições, os elogios dos críticos. É o máximo que eu posso fazer. Porque, quando a um homem se lhe pede que escreva a sua própria nota biográfica, só o princípio existe - só o princípio lhe vem à cabeça. Se me pedisses um epitáfio era diferente: inventava uma máxima épica e lia-ta num tom triunfante, apoteótico. Assim é mais difícil. Apetece-me sobretudo dizer-te que sou um pobre, e que o sou desde que me conheço.
Como prova suprema e irrefutável, dir-te-ei que a primeira decisão que tomei foi uma cobardia. Estava a roçar o mato com o meu avô, debaixo daquela torreira toda do Penedo, e ao apanhá-lo distraído despejei o bidão de água em cima das folhas dos castanheiros. Não foi por maldade - apenas gostei de ver aquela água jorrar sobre as folhas e arrastá-las pela terra, em pequenos ribeiros que disparavam em todas as direcções. Quando o velho me perguntou por ela, porém, fui incapaz de admitir o crime. Tremi por alguns momentos, respirei fundo, engoli em seco e balbuciei: "Bebi". Acabámos no hospital, a fazer exames aos pulmões, e o olhar desesperado do meu avô há-de ficar ali para sempre, naquela sala branca, como um monumento em honra da primeira das minhas muitas cobardias.

Sou um pobre, Fernandes, e acho que esta questão da pobreza sempre me preocupou. Não sei se isto cabe no currículo, mas posso dizer-te que o primeiro filme que aluguei no clube de vídeo foi "Os Ricos e Os Pobres", com o Eddie Murphy e o Dan Aykroyd - eu tinha onze anos e dizia "Arkoyd". Não me lembro do enredo, recordo-me apenas que odiei tanto um como outro - o rico e o pobre. Mas vergonha, vergonha mesmo, só a senti deste último. Ainda hoje a sinto: não gosto de ver os homens cuspindo para o chão nem gosto das mulheres que põem as crianças a defecar na praia e depois cobrem a porcaria com areia, não gosto de vê-los passear juntos de Opel Corsa em Azeitão, à procura da casa do Herman José, nem gosto de os imaginar uma noite inteira em frente ao televisor, a consumir aquela porcaria toda, absolutamente desprovidos de amor próprio. Sinto vergonha disso - e um homem só sente vergonha daquilo que é seu.
Sim, porque pobreza, cobardia e mesquinhez são três e o mesmo substantivo - e na verdade já nem sei o que é causa e o que é consequência. Ainda hoje não sou capaz de ler um livro emprestado: preciso de ser dono dele, de ter com ele uma relação de posse. Mas é pior do que isso. Não suporto um gesto de piedade e caio em rigorosamente todas as provocações. Quanto mais medíocre o interlocutor, melhor. Há uns tempos, quando fui à despedida de solteiro de um colega da minha mulher, onde se passou um jantar de peixe-galo a falar de trabalho, de dinheiro e de topos-de-gama, isso ficou bem claro para mim. Eu tinha o Volkswagen na oficina e o mecânico emprestara-me um Renault velho. Quando saímos do restaurante, para combinar o trajecto em caravana na direcção do bordel seleccionado, sentei-me no automóvel, abri o vidro e gritei para os rapazes, em tom delico-doce: "Este carro não é meu! O meu está na oficina..." Senti essa necessidade, percebes?
Se precisares de mais argumentos, conto-te a história da minha relação com o doutor Luís de Castro Manca, engenheiro de formação, empresário por vocação e namorado da minha cunhada sei lá por que manipulações do diabo. Um dia trouxe um Porsche - e eu jurei a pés juntos que ele era empregado de um stand de automóveis. Noutro levou-nos a jantar a um restaurante de que se dizia sócio, na Costa da Caparica - e eu gritei aos sete ventos que ele tinha metido uma nota de cinco no bolso do chefe de mesa, só para que ele mentisse em favor da sua história. A última vez que estive com ele foi no Pavilhão Atlântico, num camarote da Carmina Burana, e era ele quem tinha os convites e era ele quem tinha o fato e era ele quem tinha os sorrisos das mulheres. Eu tinha ido a Boston, em serviço, e ataquei: "Sabes, Luís, isso dos fatos está a ficar um bocado fora de moda. Um gajo passeia ali pelo Quincy Market e os yuppies já andam todos informais, muito à vontade..." Ele sorriu-me o seu sorriso de plástico, cerrou os olhos em sinal de condescendência e depois pediu: "Agora temos de ficar caladinhos, que a ópera vai começar". Lembro-me de ter visto um técnico de som pendurado numa coluna, a resolver um problema de última hora, e de ter desejado ardentemente ser aquele homem. Eu teria dado tudo para ter aquele interruptor na mão e poder cancelar, com um simples gesto, o espectáculo todo.

Mas - sabes, Fernandes? -, quando eu consigo vencer uma fila interminável na auto-estrada, nunca tenho pena de não haver lá à frente um acidente espectacular, com mortos e feridos à mistura. Já assisti a desastres gravíssimos, mesmo na primeira fila, e nem sequer parei, de tão surpreendido, de tão arrepiado. Mais: não gosto de me pôr na pele daquele que manda calar o cunhado porque o espectáculo vai começar e já não há mais tempo para parvoíces. Não quero que os meus filhos sejam betinhos, na presunção de que, sendo-o, seriam tudo aquilo que o pai não foi. Se fosse taxista, não me chatearia quando, depois de duas horas à espera na fila do aeroporto, me coubesse uma corrida para as Olaias. E nunca direi de um árbitro de futebol: "É preciso ter coragem para assinalar um penalty daqueles". Ainda acho que a coragem é uma coisa boa.
O meu pai, que tenta sempre manter-se à margem destas coisas todas, costuma dizer que eu sou um pobre com espírito de rico - o que será sempre, na verdade, a pior categoria dos pobres. Mas, se eu fosse uma mulher loira e rica e bonita, como aquela do gás natural, não me punha a vender as filhas ainda antes de elas me saírem da barriga. Se eu fosse um preto grande e cheio de talento, como aquele que jogou no Benfica, não recusava um autógrafo a uma criança que tivesse vindo de Trás-os-Montes para me ver. Se eu fosse um cantor açoriano nos Estados Unidos, não diria que o apelido "Medeiros" era apenas "uma ligaçãozita familiar qualquer à Europa, coisa do passado". Caramba, Fernandes, tenho mesmo pena que isto não possa ir no currículo. Porque, naquela noite da despedida de solteiro, eu não me enfiei com os yuppies no roupeiro, para ver o noivo saltar em cima da brasileira. Se eu fizesse uma operação plástica, não vinha exibi-la na praça pública, orgulhoso por ter subornado as marcas do tempo. Se eu ganhasse uma bolsa de criação literária, não vinha depois dizer que na verdade não sentia qualquer motivação para escrever um romance e que apenas concorrera como escape para as minhas "funções menores no Instituto Camões".
Porque isto não é como na América, Fernandes - espero que ainda te lembres. Aí tu podes nascer rico ou nascer pobre à vontade. Podes passar de pobre a rico com trinta dólares, que é quanto custa um barril de petróleo, e depois voltar a ser pobre com os mesmos trinta dólares em evasão fiscal. Aí não tens pensões, tens taludas. E uma velha que tu pensas conhecer, quando te cruzas com ela no casamento de um noivo libertino, não te explica que, se te lembras da sua cara, provavelmente é do "123", onde ela fora quinze anos antes e ganhara duzentos contos, depois de o Carlos Cruz lhe ter pedido para cantar o "Passarinho". Aí tens ingratos como aquele moço Medeiros, sim - mas está visto o que para eles guarda o curso do tempo.
Mando-te o currículo em anexo, Fernandes. Ficarei muito satisfeito se conseguir expor em Nova Iorque. Mas era importante para mim dizer-te que, se eu expuser em Nova Iorque, continuarei a ser um pobre homem expondo em Nova Iorque - um pobre homem para quem ir tirar umas fotografias a Nova Iorque ainda é suficiente conquista. E, se eu próprio me esquecer disso, ali continuarão as palavras do preto que me levou a Bwalla, para ver os peuls que se mutilam.
- Pobre gente... - lamentou, com um olho naquele quadro de miséria e outro na minha máquina de fotógrafo-profissional-do-mundo-industrializado.
- Pobre gente porquê? - reagi eu. - Passam fome, é certo, mas saberão verdadeiramente o que é a fome? Morrem cedo, é verdade, mas estarão conscientes de que a morte é o fim? Não. Vivem na absoluta ausência do constrangimento, para eles o amor não nasce nem morre num olhar, a vida é apenas uma presença...
- Pobre gente porque você não consegue deixar de olhá-la com condescendência - respondeu-me ele, e depois virou costas em direcção ao Land Rover.
Aquelas pessoas, explicava-me, não eram pobres. Parecia faltar-lhes quase tudo, é certo, mas não eram cobardes nem mesquinhas nem pobres - na verdade, só não tinham dinheiro.

Joel Neto
Lisboa
joel.neto@oninet.pt

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