Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



A cor mais forte do arco-íris

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Foi o João Paulo quem me ensinou a melhor maneira de dominar uma conversa com várias mulheres ao mesmo tempo. "Só tens de falar com uma delas", explicou-me. "Tens de falar sempre com a mesma, sem olhar para mais nenhuma, e depois a maldade e a inveja delas hão-de fazer o resto. Dali a pouco estão as três engalfinhadas umas nas outras, a ver quem consegue ganhar a tua atenção", acrescentou. Mas havia um detalhe, e nesse detalhe estava toda a ciência do truque: era preciso escolher a rapariga mais frágil
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Naquela altura, eu sabia como engatar uma mulher. Hoje, tudo seria ainda mais difícil. Fui caçador e troféu de caça, desprezei e fui desprezado, amei e fui condescendido. São muitos anos. Tenho as mulheres reduzidas a dois conceitos: conduzem mal e cultivam com zelo a ideia de que tudo o que acontece neste Mundo é sinal do meu machismo. No essencial, espero que não me chateiem - que cada uma delas me chateie menos do que a última e apenas um pouco mais do que a próxima. Sempre que posso, páro para apreciar a beleza e fico a olhar de longe as Lilianas desta vida. Uma vez por outra, deixo-me voar. Há uns tempos, quando pus a casa de Paço D'Arcos à venda, recebi uma rapariga do Barreiro, hospedeira de bordo da TAP, levemente aloirada, muito sardenta, linda. Vinha com a mãe e o namorado, o rapaz muito agarrado à mão da moça, a mãe desfazendo-se em sorrisos, enquanto o seu corpo obsceno de velha com tesão, a fingir de bronzeado, transbordava de uma camisa de alças amarela. Lembro-me de ter pensado: "Daqui a uns anos, não me importaria de receber esta velha", e depois pus-me a mostrar as divisões, uma a uma, muito elogioso.
Quando eles saíram, cumprimentei-os individualmente. Foi um impulso irreprimível. A velha bronzeada passou, muito lambisgóia, e levou um passou-bem. O rapaz largou por segundos a mão da rapariga e levou outro. A hospedeira estendeu-me o braço, eu mergulhei com fúria sobre ela e dei-lhe dois beijos ternos. A casa lá continua, por vender.
Aos 19 anos, no entanto, eu não era ainda este jovem precocemente envelhecido. Tinha um ano de Lisboa, fizera uma dieta radical e, contas saldadas, pode dizer-se que me dava bem com as mulheres. Mesmo na ilha, onde toda a gente assistira às minhas primeiras patetices e atribuía ao processo de crescimento a designação genérica de "mania-que-vens-de-Lisboa", não podia queixar-me da sorte. A lucidez era o meu grande trunfo. Nunca acreditei de mais numa vitória nem levei demasiado a peito um desaire. Às vezes, arriscava um pouco: seleccionada a presa, ia-me a ela sem rodeios, afirmando que a conhecia de algum lado, ou propunha-me subitamente ensinar-lhe crapette, que, não estando na moda, tinha a vantagem de apenas se poder jogar a dois. Regra geral, contudo, limitava-me às técnicas clássicas, aprendidas com a observação e um certo respeito pela sabedoria popular. Nunca lhes atirei com uma bola à cabeça ou as submeti a um piropo inconveniente. Na praia, esperava que fossem ao banho e metia conversa, comentando com a-propósito o estado do mar. No parque, aproximava-me devagar e assinalava a extraordinária coincidência de elas estarem a folhear o melhor livro que eu já lera na vida. Só as zonas de betinhas me estavam vedadas - a loja da Benetton, o snack-bar do Clube de Golfe ou o snooker da Tertúlia Tauromáquica eram, para mim, bem menos férteis do que a praia do Negrito, a Biblioteca Municipal ou a paragem de autocarro da Praça Velha às seis da tarde. Os resultados eram medidos com humildade: se por cada cinco vezes que eu voltasse frustrado a casa houvesse uma tentativa com êxito, podia considerar-me um homem feliz. Às vezes, um beijo bastava.
Aquilo que para outro adolescente teria sido a concretização de um sonho, por isso, não foi para mim mais do que uma pesada responsabilidade - pesada de mais para umas férias de Verão. Lembro-me do ar de gozo do meu pai, com o seu bigode arrufiado: "São três pequenas que vêm para o congresso. Gostava que as entretivesses durante estes dois dias", disse-me, e nas suas palavras havia todo o desafio e toda a cumplicidade da Terra, como se naqueles dois dias eu tivesse não só de provar a minha masculinidade, mas também a de cada um dos outros membros do clã, ancestrais e vindouros. O céu caiu-me em cima da cabeça. Por um lado, a ideia de entreter três moças em simultâneo seduzia-me largamente, sugerindo-me as mais variadas tropelias em redor da ilha, na esplanada e na praia, de dia e noite, com e sem roupa. Por outro, havia algo naquilo que me assustava, que ameaçava escapar-me ao controlo, humilhar-me. A verdade era só uma: eu não sabia lidar com mais do que uma rapariga de cada vez. Todas e cada uma das minhas modestas conquistas diziam respeito a mulheres solitárias, e a simples ideia de ter três olhares postos em mim, cruzando-se em combinações imprevisíveis, não augurava nada de bom para as quarenta e oito horas subsequentes. Eu continuava a ser apenas um rapaz tímido, e a possibilidade de haver sempre duas testemunhas para um qualquer avanço falhado deixava-me em pânico.
Foi o João Paulo quem me ensinou a única maneira de dominar uma conversa com várias mulheres ao mesmo tempo - e por isso ainda hoje há-de estar nalguma montanha, preso a um arbusto, enquanto uma águia desce todas as manhãs para arrancar-lhe o fígado. A lição foi um tanto humilhante para mim: eu era aquele que estudava em Lisboa e ele apenas um pobre rapaz da ilha, com registo criminal e o nono ano de praia. "Só tens de falar com uma delas", explicou-me, a cerveja à frente, o olhar dividido entre mim e o Baeta, sentado do outro lado da mesa com a sua pêra e o seu cachimbo prematuros. "Tens de falar sempre com a mesma, sem olhar para mais nenhuma, e depois a maldade e a inveja delas hão-de fazer o resto. Dali a pouco estão as três engalfinhadas umas nas outras, a ver quem consegue ganhar a tua atenção", acrescentou. Mas havia um detalhe, e nesse detalhe estava toda a ciência do truque: era preciso escolher a rapariga mais frágil. A selecção da interlocutora era decisiva. Era preciso escolher a rapariga mais frágil, e essa era a que revelasse maior margem de penetração, maior poder de encaixe, por forma a dar boa guarida ao despropósito dos primeiros golpes. Tudo teria de ser decidido em poucos minutos: eu recebê-las-ia no aeroporto, carregar-lhes-ia as malas para o porta-bagagens da Toyota Hiace e, na altura em que chegasse à cidade, já teria de saber quem era a minha presa, qual das jovens seria o meu passaporte para o coração das outras duas - e para o coração das três como entidade una, se alguma vez um grupo de mulheres o viesse a ser.

Podia ter sido um grande dia. Não foi. Gostava de dizer que o método do João Paulo falhou, mas isso seria injusto. Tudo correu mal desde o princípio. Quando cheguei a Angra, depois de vinte minutos de viagem, já nenhuma das moças podia aturar-me. Ainda escolhi a loira para interlocutora, mas nem atentei na sua fragilidade - era apenas a mais bonita. Entrámos na carrinha, eu fixei os olhos na rapariga e comecei a falar de mim, a desfiar o máximo de conhecimentos que conseguisse conjugar numa só conversa. Passei por exibicionista. Sentámo-nos no Fiorino, com a Hiace estacionada ao largo, e, sempre com os olhos fixos na mesma rapariga, lamentei com poesia a minha triste condição de ilhéu. Passei por fraco. Levei-as a ver a baía onde naufragavam os piratas, fixei por uma última vez a loira e fiquei simplesmente calado, a ouvi-las falar. Desapareci. Elas falaram, falaram, falaram - falaram do tempo e do mar e do Monte Brasil e dos ténis de trecking que por falar nisso uma delas tinha trazido e do rímel que a outra tinha esquecido -, e a certa altura esqueceram-se mesmo de que eu existia. A cidade adormecia, uma brisa fresca emanava do Porto de Pipas, e quando eu olhei para a água, para aqueles quatro reflexos que ondulavam ao sabor da maré, pude ver que o meu estava completamente a mais, que aqueles dois dias não seriam outra coisa senão o penoso calvário de um pobre homem desprovido da capacidade de falar com mais de uma mulher de cada vez.
Não fui demasiado duro comigo próprio. Em última análise, foi sempre esse o truque que me salvou: a auto-sugestão. É o escape dos pobres, dos mesquinhos, dos cobardes - e dos fracos. Eu era um fraco, sabia que era um fraco e, portanto, não podia levar a mal as minhas próprias fraquezas. Para além de tudo, aquelas raparigas iam-se embora dentro de apenas um dia e meio, e com elas partiriam também quaisquer testemunhos sobre o meu vexame. O único compromisso era agora suportá-las durante as trinta e seis horas que faltavam, e no que a isso dizia respeito o João Paulo e o Baeta teriam de dar uma ajuda. Haviam sido eles a soltar o monstro, e agora cabia-lhes também metê-lo de novo dentro da jaula.
Susana, a loira, veio afinal sozinha, no final do congresso. Hoje, gosto de pensar que isso queria dizer alguma coisa - que ela se deixara seduzir pela profundidade do meu pensamento, que entendera a atrapalhação inicial como parte da minha angústia e, bem pesadas as coisas, apenas pretendia levar-me para a cama. Não sei. Sei que chegámos os três muito risonhos, trocando piadas sobre quem ficaria com qual das raparigas, e dali a pouco já não a podíamos aturar. Estávamos junto à baía, a mesma onde o encontro do dia anterior culminara no fiasco relatado, e assim que chegou ela mergulhou num monólogo sôfrego, muito intrincado, de que depressa perdemos o rasto. Falava de tudo: do tempo, do mar e do Monte Brasil, dos sapatos de trecking e do rímel e de tudo o mais que não conseguimos ouvir. A certa altura, porém, estancou. Olhou-nos aos três com pormenor, rodou várias vezes a cabeça e depois fixou o olhar em mim. "Conta-me mais sobre a condição de ilhéu", disse. "O que é ser ilhéu...?"
Eu sorri, puxei uma fumaça com o cigarro preso entre o indicador e o polegar e desfiei dois ou três lugares-comuns, com muita "lonjura", muita "bruma" e muito "capacete". Pensei abalançar-me a uma pequena dissertação sobre a "inspiração poética", mas fiquei-me pelas questões científicas. Ela pareceu gostar, continuou com o olhar muito fixo em mim e depois perguntou: "O que é 'capacete'?", e então eu expliquei o que sabia sobre o anticiclone e a sua ausência, sobre frentes frias, superfícies frontais e humidades médias. O João Paulo disse qualquer coisa sobre a suspensão de gotículas de água e eu reprimi-o com os olhos, mas ela continuou com o olhar fixo em mim. O Baeta falou no arrefecimento do ar húmido e eu fiz-lhe má cara, mas ela continuou a olhar-me exclusivamente a mim. O João Paulo voltou com o fenómeno da neblina, mais denso e rasteiro, e ela rodou pela primeira vez a cabeça. O Baeta assinalou a alta frequência de arco-íris e ela fixou enfim o olhar nele.
Durante dez minutos falaram os três sobre neblinas persistentes e arco-íris sobrepostos, quatro estações num dia, manhã-de-inverno-tarde-de-Verão, primeiro-de-Agosto-primeiro-de-Janeiro - e todos os outros clichés sobre a meteorologia dos Açores. A cidade adormecia, uma brisa fresca emanava do Porto de Pipas, e de repente eu achei-me sem nada para dizer. Então, olhei para o mar, para aqueles quatro reflexos que ondulavam ao sabor da maré, e pude ver que eu era, entre os rapazes que ali estavam, o mais frágil de todos.

Joel Neto
Lisboa
joel.neto@oninet.pt

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