Crónicas Portugal Em Linha

Joel Neto



Para citar um poema fácil

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Sei porque fui jogar futebol. O liceu de Angra foi a sociedade mais estratificada que alguma vez conheci, e eu tinha de escolher uma das três categorias de rapazes disponíveis: os forcados, os futebolistas e os falhados. O que eu não sei é porque não fui pegar toiros pelos cornos ou viver serenamente a vida de inútil que me estava reservada. Podia ter sido músico ou poeta, por exemplo
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Francisco Alvindo Cordeiro, natural da freguesia dos Arrifes, morreu como um actor de cinema: com uns óculos escuros no rosto e uma frase definitiva nos lábios. Por detrás do vidro fosco, enquanto um último fade-out lhe dissolvia o sorriso, olhou-me e disse: "Filipe, um dia um homem vai-te pedir um balde de merda e tu hás-de ir bater às portas dos vizinhos todos, para lhes vazar os penicos". Pouco depois estávamos dentro da ambulância e quem lhe segurava o pulso era Alexandre Dumas - não o romancista, o jogador de futebol. Segurava-a e fechava-me o rosto, em sinal de comiseração, mas então já a minha mente viajava por outros lugares e quem morria à minha frente não era o meu tio-avô, era eu próprio, uma vez e outra, e outra ainda, como se morrer fosse o princípio de tudo e Francisco Alvindo já não representasse mais do que uma esperança.
Foi o homem mais pequeno que conheci. Os últimos meses, depois de o cólon se lhe soltar nas entranhas, passou-os deitado no quarto dos fundos da casa de minha mãe, com os óculos escuros postos e o sotaque micaelense aberto num grito: "Isto aqui também é meu!" Não era. Nada alguma vez o fora. Tivera uma bicicleta por único bem e uma mulher estéril por triste companhia - e naquela altura já não tinha nenhuma das duas. Não sabia ler e sentia rancor de quem lia. Bebia leite e comia pão seco, e foi ele quem me ensinou a dosear o conduto nos dias gordos: "Dentada no pão, beijinho no queijo..." Mas, quando via James Bond, esbugalhava os olhos para o televisor e alguma coisa se lhe iluminava na alma. Então virava-se para nós, enchia o peito e anunciava: "Eu sou esse", e aquele primeiro "e" tinha um acento agudo, era quase um "a", o seu autor de novo um rufia saltando pelos quintais dos Arrifes.
Eram tardes de angústia, essas em que ele nos visitava, anos antes de os enfermeiros o irem levar de vez lá a casa, para esperar a morte. Nós éramos anarco-sindicalistas, homens de propaganda e acção, e aquele pobre contador de histórias repetidas apenas um ser insignificante, tacanho e miserabilista, que os caprichos da natureza nos haviam colocado no caminho. A primeira vez que o vi ser achincalhado à mesa lá de casa, tinha sete anos: saltei da cadeira e fui partir uma jarra ao fundo da sala, para dispersar atenções. Ele ganhou força, encarou o meu pai e disse: "Oh senhor doutor, queres brigar?!", e aquela última sílaba arrastou-se por um instante, como uma ameaça. "Tu tens dinheiro, mas eu também tenho!", gritou, e então torceu o pescoço para mim, ergueu por um instante os óculos escuros e piscou-me um olho cúmplice. Todos sabíamos que não era verdade, que ele não tinha dinheiro nenhum, mas só eu fiquei a saber que ele não acreditava verdadeiramente nas suas palavras e era capaz de rir da própria miséria. Foi o nosso primeiro segredo.
Depois, durante muitos anos, ele foi o meu Norte e o meu Sul, o meu Este e o meu Oeste, para citar um poema fácil. Ensinou-me a andar de bicicleta e brincou comigo aos arcos e flechas, explicou-me o essencial sobre o processo reprodutivo e enrolou-me os primeiros cigarros. Quando íamos à praia, eu saía disparado da urbana, ia deixando a roupa pela calçada abaixo e mergulhava de uma só vez no oceano - e Francisco Alvindo lá vinha atrás, juntando a t-shirt e as meias e os sapatos e olhando com ternura para o meu gozo dentro da águas que haviam de banhar a Terra Nova e o Brasil. Sempre que me sentia doente, às voltas com a hipocondria, descrevia-lhe os sintomas e ficava à espera do seu "Isso não é nada" - e apesar da absoluta ignorância dele em matérias de saúde, em matérias de tudo, aquela expressão de "Não é nada" bastava-me e a doença desaparecia.
Só uma vez se enfureceu comigo. Estávamos em São Mateus, à espera dos barcos, e eu achei reunidas as condições para falar nos meus planos para me tornar futebolista. Disse-o devagar, muito a medo, e a reacção dele foi ainda pior do que eu esperava. "Futebol? Futebol?!", repetia. "Futebolista até eu podia ter sido, Filipe. Tu tens doze anos e precisas é de estudar! Tens é que estudar!" Depois embebedou-se, caiu, sangrou, e dali a pouco o meu pai pôs o Bakunine de lado e veio buscar-me de mota. Vinha vestido de negro, muito grande sobre aquela mota que deslizava em silêncio, e quando o vimos chegar pareceu-nos o anjo vingador. Francisco Alvindo não ousou encará-lo. Virou costas e refugiou-se numa expressão que eu viria a ouvir-lhe um milhar de vezes: "Eu não sou daqui. Sou natural da freguesia dos Arrifes, ilha de São Miguel", e com isso queria dizer que nada do que pudessem fazer-lhe naquela terra inimiga interessava. Eu fechava os olhos e acreditava que os Arrifes era o sítio mais belo do Mundo - mas por dentro alguma coisa lamentava Francisco Alvindo pela segunda vez.

Sei porque fui jogar futebol. O liceu de Angra foi a sociedade mais estratificada que alguma vez conheci, e eu tinha de escolher uma das três categorias de rapazes disponíveis: os forcados, os futebolistas e os falhados. O que eu não sei é porque não fui pegar toiros pelos cornos ou viver serenamente a vida de inútil que me estava reservada - podia ter sido músico ou poeta, como o meu pai queria. Porque jogar à bola foi uma má opção. Andei meses a arrastar-me pelas posições todas, à procura da que me caberia melhor, e depois passei anos com o número doze nas costas, sentado ao lado dos outros futebolistas falhados, os calções dando-me pela canela e as luvas fedendo ao suor de quem vive noventa minutos por semana com medo de ser chamado à acção. Várias vezes tive de levantar-me daquele banco, para fazer exercícios de aquecimento, mas felizmente nunca entrei em campo. Quando o titular se nos treinos, o terceiro guarda-redes era convocado de imediato, e então era certo que iria ele para a baliza e eu ali continuaria, a ver o jogo da primeira fila. Quando o outro melhorava, voltávamos todos às posições iniciais: o melhor no seu posto, eu no banco e o verdadeiro suplente remoendo a raiva na bancada. Numa coisa se faça justiça ao treinador: nunca, por nunca ser, o filho do senhor doutor ficou de fora - e nunca, tanto quanto lhe foi possível garantir, foi exposto ao vexame de jogar.
Até um dia. Foi num jogo na Agualva, no último ano de juniores, dois terços de nós já trabalhavam nas obras e os restantes aceleravam as notas, tiravam carta de condução ou faziam dietas, preparando a mudança para Lisboa. Manuel Aurora, o titular, não se lesionou, morreu-lhe de repente o pai - e quando chegámos à Agualva, do outro lado da ilha, eu já levava na mão a camisola número um, ainda impregnada dos cheiros heróicos daqueles vinte e dois jogos seguidos sem uma derrota. Não me lembro da palestra nem do odor nauseabundo do balneário nem dos gritos de "Bora lá, caralho!" nem das palmas do público - lembro-me de ao entrar em campo ter olhado em volta e de Francisco Alvindo, mais uma vez, não estar lá. De súbito, o campo tornou-se um corpo estranho, a camisola pesava-me sobre os ombros, e aos dois minutos eu era já o homem mais sozinho do Mundo, o Lusitânia dominando tranquilamente o jogo, o Agualva defendendo-se como podia e eu observando tudo lá de longe, na baliza contrária, como se nada daquilo fizesse parte de mim e tudo o que pudesse interessar fosse a mudança para Lisboa.
Ao minuto trinta e nove, porém, um adversário fez um balão muito grande, quase do meio-campo, e eu senti de repente o chamamento das grandes decisões. Tudo aconteceu numa fracção de segundo. O rapaz chutou de longe, a bola subiu alto, eu medi a zona de aterragem e gritei para o líbero, em tom autoritário: "Minha!" Era, sim senhor. Para qualquer outro guarda-redes aquela bola era sua. Para mim, não. No momento em que saltei, com o pé direito à frente a ver se apanhava o ponta-de-lança, alguma coisa se desligou em mim. Os defesas abriram alas, a bola fez um súbito ésse, o sol bateu-me de frente, um silêncio abateu-se sobre o peão - e dali a pouco o esférico rolava para a baliza deserta, o guardião prostrado no chão, o povo rindo do seu ridículo, os adversários celebrando ainda a medo, um vento forte soprando de Norte. Lembro-me de ter erguido a cabeça à procura de Alexandre Dumas, o bombeiro. Era o meu líbero e o único jogador do plantel que tolerava vagamente a minha presença - só eu sabia que ele tinha nome de romancista, só eu sabia o que era um romancista. Então ele fechou-me o rosto, em sinal de comiseração, e por momentos eu pensei que dali podia vir um perdão, um afago de solidariedade. Mas não: Alexandre fechou-me o rosto e a seguir virou costas, abanando a cabeça. "Que frango da porra!", ouvi-lhe, e depois o vento Norte cerrou fileiras e um frio intenso percorreu-me a espinha. Perdemos por um a zero.
Francisco Alvindo teria contado essa história vezes sem conta, se o protagonista fosse outro ou o tema menos incómodo. Nunca o fez. Durante os seis anos que mediaram a minha partida para Lisboa e a sua própria morte, o meu tio-avô limitou-se a viver a nossa relação como sempre vivera, com uma ou outra concessão aos meus pais em tempos de férias, para recuperar a harmonia familiar. Nós continuávamos a ser uma ilha dentro da ilha: éramos ainda anarco-sindicalistas, bebíamos cerveja sem álcool e odiávamos tudo o que pudesse ser apelidado de "ópio do povo", futebol incluído. Francisco Alvindo, presença constante nas férias de Verão, Natal e Páscoa, engoliu mil vezes a metáfora do penico. Viu-me discutir política com os meus pais, viu-me aplaudir os forcados na Praça de Toiros, viu-me disfarçar o sotaque açoriano, e nem aí se pronunciou sobre toda aquela hipocrisia. Estava satisfeito por ter-me de volta e disposto a fazer tudo para não colocar em risco esses momentos. Quando podia, enviava-me as últimas migalhas da sua pensão miserável, para os cigarros.
No momento da sua morte, porém, eram ainda os olhos de Alexandre Dumas e o imenso desprezo que deles emanavam a única coisa que eu via no interior daquela ambulância. A pessoa que eu mais amava neste Mundo morria-me aos pés, com um velho par de óculos escuros no rosto, e a minha mente viajava de novo até àquele fatídico campo de jogos, onde eu me despedira para sempre do futebol e de uma certa ideia de Açores. A certa altura, a ambulância parou e Alexandre saltou do carro, aparelhou a maca e liderou uma corrida furiosa pelas urgências do hospital dentro. Depois voltou, pôs-me a mão no ombro e disse: "Filipe, sabes que a idade chega-se", e quando ele me pôs a mão no ombro eu senti por momentos o afago que procurara seis anos antes, naquele que viria a revelar-se um dos momentos mais tristes da história da minha adolescência. Levantei os olhos para ele, sorri, quis abraçá-lo, o meu tio-avô morto lá dentro, como uma esperança que renasce. Então Alexandre Dumas voltou a cerrar o rosto, abanou a cabeça e decidiu que eu não voltaria a passar férias nos Açores. "Que frango da porra tu me mamaste na Agualva...", disse-me, e depois virou costas, o vento Norte cerrando fileiras e um frio intenso abatendo-se sobre a sala de espera do hospital.

Joel Neto
Lisboa
joel.neto@oninet.pt

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